Entrevista

Marília Meneghetti Bruhn – A acolhida é só o começo da integração

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Marília Meneghetti Bruhn – A acolhida é só o começo da integração Marília Meneghetti Bruhn (Foto: acervo pessoal)

A notícia correu a imprensa toda, na última semana de julho: um voo fretado trazia 183 haitianos para Porto Alegre. Sem visto formal de ingresso, eles tinham obtido o direito de reencontrar os parentes que aqui já se encontravam.

É daqueles momentos em que as perguntas se impõem: a fronteira pode manter-se intacta quando causas humanitárias entram em jogo? O nacional de um país é mesmo diferente do imigrante? Por quê? Em quê? Se o capital pode flutuar por sobre as fronteiras, por que é que o trabalho precisa ser confinado?

Não há resposta simples, nem linear, nem definitiva. Abrir-se para as perguntas incômodas, enquanto isso, ajuda a manter nossa humanidade viva. E é exatamente isso que podemos ver na ação da Marília Meneghetti Bruhn, nossa entrevistada aqui. Psicóloga dedicada ao mundo do social, ela participa de uma ONG que esteve associada a essa vinda – e ela, presencialmente, esteve no tenso voo que chegou à capital gaúcha ainda esses dias. Vale muito a pena saber sua visão da coisa.

*Entrevista feita por escrito


Parêntese –  Marília, queríamos um depoimento: como foi viajar com os 183 haitianos que puderam vir para Porto Alegre? Tu acompanhaste toda a viagem?

Marília Meneghetti Bruhn – Eu acompanhei presencialmente toda a viagem de Porto Príncipe (Haiti) até Porto Alegre (Brasil) assim como o processo de preparação para esta viagem desde dezembro de 2020. Esse foi o primeiro voo Haiti-Brasil de imigrantes “sem visto”. Desde 2019, atendemos muitos casos de imigrantes haitianos que estão separados de seus filhos, de seus pais e de outros familiares há anos por causa da impossibilidade de se conseguir o visto na Embaixada do Brasil no Haiti. Apesar do site ser gerenciado pela Organização das Nações Unidas (ONU), o sistema não funciona e são inúmeros relatos de cobranças de propina. Muitas vezes tentamos conseguir o visto segundo os protocolos indicados pelo Brazil Visa Application Center (BVAC), mas era impossível obter sucesso. O James Derson Charles, presidente da Associação de Integração Social (AINTESO), teve a ideia de judicializar um processo coletivo que garantisse a autorização para que familiares no Haiti pudessem se reunir com a suas famílias no Brasil sem precisar de visto. O processo coletivo foi iniciado em fevereiro de 2021 e em poucos meses tivemos a resposta positiva de que os passageiros do voo poderiam embarcar apenas com o passaporte. Foi um processo de muitas incertezas e contratempos até o avião ser fretado e o voo finalmente ocorrer com sucesso. Durante esse período, teve o assassinato do presidente haitiano Jovenel Moïse e mudanças nos protocolos sanitários para voos internacionais por causa da pandemia por COVID-19. Quando finalmente o voo saiu, no dia 25 de julho de 2021, totalmente custeado pelos haitianos, foi muito emocionante poder acompanhar a vinda desses imigrantes e refugiados que lutaram tanto para ter os seus direitos reconhecidos. No voo tinham 183 haitianos, dos quais 76 eram crianças. 

P – Ocorreu algum momento de tensão, em que algo errado aconteceu ou parecia se apresentar?

MMB – Não lembro um momento desta viagem que tenha sido tranquilo, tanto é que fiquei mais de 36 horas sem dormir e poucas pessoas conseguiram descansar no voo, apesar de ele ser de madrugada. Quando eu e a equipe da Associação de Integração Social (AINTESO) saímos de Porto Alegre para ir até Porto Príncipe, tivemos problemas com o trecho que iria até São Paulo. A equipe da AINTESO e outros passageiros desse voo comercial ficamos bastante preocupados porque perdemos o voo até Guarulhos e não havia vaga em outros voos até São Paulo no horário combinado. Os outros passageiros do voo comercial estavam bastante irritados porque perderiam os voos para destinos de férias no exterior: “Como seria ruim não conseguir passear na Europa”. Olhei para o James, presidente da AINTESO e haitiano, vi o desespero de perdermos esse voo e entendi que o significado era bem diferente do que para a maioria dos passageiros. Enquanto para a maioria das pessoas que estava naquele aeroporto perder um voo significava adiar as férias, para as famílias haitianas perder um voo fretado milionário tinha como sentido perder a esperança de ver quem mais você ama por mais vários meses, muitos anos ou até mesmo o resto da vida. Felizmente, a Azul – empresa aérea da qual fretamos o avião Haiti-Brasil – conseguiu negociar depois de algumas horas o encaixe da nossa equipe em outro voo para São Paulo a tempo. 

Além desse imprevisto, tivemos muitos contratempos alguns momentos antes do embarque. Poucas horas antes de embarcarmos no voo fretado, a empresa aérea entrou em contato conosco e disse que não poderia embarcar dezenas de crianças haitianas porque o nome dos seus acompanhantes não estava na lista de passageiros oficial. Ficamos tensos até descobrir que trocaram a ordem de nome e sobrenome no cadastro e, por isso, não estavam conseguindo localizar os acompanhantes, mas que todos estavam cadastrados na lista. Muitos haitianos, quando vão falar o seu nome completo, falam primeiro o sobrenome e depois o nome. Isso deu algumas confusões porque no Brasil costumamos fazer o inverso. 

Durante o voo, a maioria dos passageiros nunca havia viajado de avião e tinha muitas crianças. Muitos haitianos ficaram enjoados e passaram mal com a turbulência; estávamos bastante preocupados com a saúde de todos. Por alguns instantes, não achávamos um passageiro que disse que iria ao toalete. Ele ficou preso no armário do avião, que era muito parecido com a porta do banheiro. Ficamos aliviados quando uma comissária conseguiu localizá-lo. 

Enfim, em muitos momentos, parecia que o voo não iria acontecer ou que nem todos os passageiros conseguiriam chegar ao seu destino. Contudo, todos os 183 haitianos conseguiram viajar nesse voo e foram autorizados a entrar no Brasil. O trabalho da AINTESO e a dedicação dos passageiros haitianos em preparar todos os documentos necessários foi fundamental para o sucesso dessa viagem.

P – Houve alguma cena emocionante na viagem? E na chegada? Podes contar?

[Continua...]

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