Filosofia na vida real

Até que a razão os separe. Cena 4: John Locke

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Até que a razão os separe. Cena 4: John Locke
Nesta seção, ao longo de dez ensaios, o professor de filosofia da UFSM propõe uma curiosa incursão filosófica sobre nada menos que o casamento. A cada semana, um capítulo novo, a partir de pensadores e pensadoras que se dedicaram ao tema. Leia aqui o anterior. Dilsinho, pagodeiro da novíssima geração, lançou “Combinado não é caro” no seu mais recente álbum de estúdio, “Quarto e Sala”, de 2019. Lá pelas tantas ouve-se o seguinte:  Mas seu passadoÉ calejado de outras relações, eu também vivi decepçõesQue tal um trato?Nenhum de nós pode falar em compromissoServe pra mim e pra você esse avisoPor favor, não me ame ainda, não crie expectativasCombinado não sai caro, ninguém vai se machucarDe quinze em quinze dias ou só fim de semanaA gente sai e vai pra cama mas sem se apegar Topei com esta música ao procurar pela origem do multisciente ditado “combinado não é caro”. Como se vê, não encontrei exatamente o que procurava. Mas seria uma lástima furtar-me de um que outro comentário sobre o que gostaria de chamar “a lição do Dilsinho”. Imagino que ela possa iluminar aspectos centrais da nossa conversa de hoje, cujo personagem central é o tio solteirão John Locke (1632 – 1704). Aliás, não é estranho que tantos filósofos solteirões, Kant, São Tomás de Aquino e Locke entre eles, tenham pontificado com tanta desenvoltura sobre o casamento sem nunca calçar as luvas e pisar no ringue? Mais um tópico para outro dia. O miolo de nossa conversa presente será a questão transcendental da filosofia política, igualmente contemplada no pagode nacional: “O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade?” E aqui estou pensando na liberdade de contratar, entrar e sair, de arranjos de convivência. Arranjos que a Antropologia não cansa de nos mostrar na sua estonteante diversidade. Pois bem, a missão hermenêutica é arriscada, então mãos à obra, com bisturi e malemolência. Na canção “Combinado não é caro”, o eu lírico de Dilsinho, sabedor das manhas da reciprocidade, mira sua eventual consorte e sapeca: “Que tal um trato? / Nenhum de nós pode falar de compromisso / Serve para mim e pra você esse aviso”. Depreendemos facilmente do contexto tratar-se de um relacionamento que não almeja longevidade. Amores de verão, como se diz. Ou, para soar mais catedrático, um contrato de “uso recíproco que um ser humano faz dos órgãos e capacidades sexuais de outro”, na gíria doutro famoso inupto, o tio Kant. Mas acrescente-se dois fatores: o contrato possui prazo determinado (“De quinze em quinze dias ou só fim de semana”) e cláusula “teflon” de barreira emocional (“…mas sem se apegar”). Nos dias que correm, se uma proposta amorosa, assim configurada, aparece na cultura e vira tema de pagode, agradeça aos contratualistas modernos. Parece exagero? Talvez até seja, mas a leitura de Locke me anima o ímpeto revolucionário. O homem é a soma dos seus gatilhos, portanto me deixem!  Na gramática moral de Locke, todo contrato pressupõe mútuo consentimento e ausência de coerção. Contratos são ações voluntárias. Um evento […]

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