Entrevista | Forma e Função

Emil Bered: projetos com simplicidade e foco nas pessoas

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Emil Bered: projetos com simplicidade e foco nas pessoas

Nascido em maio de 1926 em Santa Maria, filho de imigrantes libaneses e italianos, Emil Achutti Bered ostenta na sua carteira a identificação de número 4 do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul (CAU-RS). É uma tradução do pioneirismo que permeia sua trajetória: se formou na primeira turma de arquitetos e urbanistas da UFRGS e ajudou a dar partida ao intenso movimento de construções baseados na objetividade platina, com foco nas pessoas. 

As obras de Bered estão espalhadas pela cidade. São prédios icônicos como os edifícios Redenção, na esquina da avenida João Pessoa e da rua da República; Rio Grande do Sul, na rua 24 de outubro; Ipase, no Centro, famoso pela agência do INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social); antiga CRT (Companhia Riograndense de Telefonia), o Tribunal Regional do Trabalho e a Faculdade de Odontologia da UFRGS. Para além disso, é da sua pena o projeto da Vila Nova Restinga, que construiu as bases para a habitação de um dos bairros mais populosos de Porto Alegre. Sua marca está na simplicidade: as edificações são funcionais, conectadas ao ambiente e suaves no impacto. 

“Essa arquitetura, mais universal e menos autoral, mais vicinal e menos excepcional, respeita as obras monumentais e excepcionais do movimento moderno sem desmerecer nem desconhecer seu papel inovador e referencial. Acompanhada de arquitetos muitas vezes anônimos, produz tecido urbano que impacta decisivamente na qualidade de vida das cidades contemporâneas”, afirma o arquiteto e urbanista Sergio Marques, um dos responsáveis por transformar a trajetória de Bered em livro.

A obra “Emil Bered Arquiteto” foi lançada em novembro de 2022 e, além de contar a sua história, detalha os projetos que marcaram cidades como Porto Alegre e Santa Maria, com desenhos inéditos e as ideias que embasaram essas edificações. Organizado por Marques, César Vieira e Eneida Ströher, o livro também contou com ajuda de Ana Rosa Bered e Marta Bered, suas filhas. Com a colaboração de Marta, produzimos a entrevista a seguir.

Luís Felipe dos Santos


Parêntese – Como o senhor se descreveria para alguém que é leigo em arquitetura?

Emil – Um profissional que busca organizar os espaços utilizados pelas pessoas, tanto nos ambientes de uso público (espaços urbanos) como nos espaços privados (habitação). De modo que atenda de forma adequada às necessidades inerentes a cada condição apresentada. Para isso o arquiteto utiliza- se de várias técnicas construtivas, de conceitos estabelecidos e principalmente muita pesquisa sobre as necessidades de cada caso.

P – No livro dedicado à sua obra, a simplicidade é um dos substantivos mais usados para descrever as construções feitas pelo senhor. O senhor concorda com essa descrição?

Emil – Sim, embora a simplicidade não signifique falta de qualidade. Busquei aplicar no meu trabalho  os conceitos modernistas que trazem nos seus fundamentos adequar a forma à função, sem rebuscar ou adotar elementos sem funcionalidade efetiva.

A modulação, a integração dos espaços e a compreensão dos ambientes promovem essa simplicidade. As edificações concebidas nestes termos apresentam uma facilidade de entendimento a que se destina, o que considero um importante objetivo a ser atendido.

P – O que diferencia a arquitetura gaúcha moderna, com influência uruguaia, da que era praticada antes no Brasil?

Emil – Primeiro temos que registrar as diferenças econômicas que caracterizam até hoje as diferentes regiões, o que proporcionou aos dois grandes centros populacionais e de serviços maior capacidade de investimentos nas construções.

Essa condição levava à arquitetura buscar refletir essa opulência reinante na época, resultando no surgimento dos grandes prédios e mansões que tendiam ao brutalismo.

O sul do Brasil, no início do século passado e considerando a capital Porto Alegre, apresentava na sua paisagem urbana construções de caráter eclético vindo em sua maioria de influência europeia. A proximidade com os países do Prata em especial o Uruguai, com desenvolvimento intelectual e cultural efervescente na América Latina, influenciou positivamente os arquitetos gaúchos com sua arquitetura moderna e funcional, entusiasmando os jovens arquitetos a adotarem seus conceitos vindo de professores uruguaios que ministravam aulas de projeto a recente criada faculdade de arquitetura gaúcha.

P – O senhor é formado na primeira turma de arquitetura da UFRGS. O que lhe despertou essa paixão pela profissão?

Emil – Como descrevi com detalhes no livro, desde adolescente ainda morando em Santa Maria eu tinha muito interesse em folhear um livro que meu vizinho que era construtor permitia que eu lesse, tratava- se do livro manual de construção de autoria de João Batista Pianca, onde os desenhos detalhados de casas e

outras construções me fascinavam. Acho que foi desde essa época que tive certeza que era essa minha vocação.

P – Havia muito preconceito contra os arquitetos na época em que o senhor se formou?

Emil – Eu não diria preconceito, mas um certo desconhecimento das atribuições entre engenheiros e arquitetos, havia uma disciplina no curso de engenharia que permitia aos engenheiros desempenharem o papel de arquiteto. No RS formavam-se engenheiros arquitetos. Na metade do século passado e com a crescente demanda, criaram-se no Brasil cursos específicos de arquitetura em geral vinculados a Institutos de belas artes pela característica inerente dos dois cursos e desde aí foi ficando cada vez mais claro a diferença

entre engenharia e arquitetura, embora historicamente a arquitetura é muito mais antiga sendo praticada secularmente.

P – O senhor vem de uma família descendente de libaneses, que escapou das más condições de vida naquele lugar no início do século XX. É possível dizer que os libaneses criaram um sentimento de comunidade entre si devido às condições nas quais se encontravam para chegar ao Brasil?

Emil – Acho que os libaneses assim como outros imigrantes naturalmente agruparam-se nos sítios que ocuparam e sim, desenvolveram esse sentimento de comunidade para sobreviver com dignidade nos países que os acolheram, aqui não foi diferente. Tenho muito orgulho de meus ancestrais e o sentimento de união que a cultura típica se mantém e é cultivada e estimulada para nossos descendentes.

P – Quais são, na sua opinião, as suas melhores obras e por que?

Emil – Eu não saberia responder a essa pergunta, não tenho melhores obras, já que todos os projetos que desenvolvi foram com o propósito de atender plenamente ao uso a que se destinavam e a proporcionar uma plasticidade visual de qualidade. Talvez as melhores obras tenham sido aquelas que cumpriram efetivamente esse objetivo.



P – Para além dos prédios, na sua obra se destaca a construção da Vila Nova Restinga. Como o senhor construiu esse projeto e como vê ele hoje?

Emil – Esse projeto foi desenvolvido em parceria com o arquiteto e urbanista de grande talento Roberto Félix Veronese. Consistia em 5 unidades vicinais onde os moradores teriam áreas de uso comum, lazer e institucionais como escolas, centros comunitários e de saúde basicamente.

As residências circundavam esses equipamentos urbanos e consistiam na “casa embrião” composta por sala cozinha e banheiro com a possibilidade de ampliação para até três quartos. Essa vila deveria abrigar a população de baixa renda e em condições precárias de sobrevivência.

Hoje, pelo que sei, sua população, que era prevista de 20 mil habitantes, já recebe 60 mil , devendo apresentar saturação em seus sistemas elétricos e de fornecimento de água e esgoto. Soube até que pela densidade presente criou- se em suas imediações um distrito industrial na tentativa de geração de empregos. Hoje a Vila Restinga encontra-se inserida no tecido urbano da cidade.

P – Entre os prédios públicos desenhados pelo senhor, o livro destaca os edifícios IPASE, a sede da CRT, o Tribunal Regional do Trabalho e a Faculdade de Odontologia da UFRGS. Entre esses, dos quais o senhor tem mais orgulho e por que?

Emil – Todos eles são motivos de realização profissional, na época de suas concepções atendiam a uma demanda de caráter público, o que representava atender uma necessidade social o que muito me motivava. O projeto da Faculdade de Odontologia, por exemplo, foi organizado e estudado durante 6

meses com entrevistas contínuas com os professores, reuniões , etc… Mas em termos de destaque eu salientaria o IPASE ( hoje INSS) e a CRT hoje pelo seu papel na paisagem urbana na área central da cidade, arriscando até a dizer que são pontos importantes, funcionando como marcos referenciais para

os usuários locais.

P – O senhor lecionou na UFRGS por mais de 30 anos. O que diria, hoje, para um profissional que quer ingressar na arquitetura?

Emil – Em primeiro lugar eu diria que faça uma auto avaliação sobre sua vocação e identifique com isso, seu olhar para este tipo de atividade. Em segundo lugar terá que conhecer e estudar entre outras coisas a história da arquitetura, e não só a local, mas onde e como a arquitetura começou. Isso traz uma base sólida para o desenvolvimento da criatividade do arquiteto. Por fim, recomendo que se dedique e não desista dos seus sonhos.

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