Crônica, Parêntese

José Falero: Quarentena

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José Falero: Quarentena Eu lembro direitinho do dia que eu descobri que possuía pulmões. Foi numa bola esticada. Pra quem não é boleiro e não faz a menor ideia do que seja uma bola esticada, eu explico. Bola esticada, no futebol, é um passe que tu recebe em profundidade. Ou seja, o teu companheiro de time faz um passe, que é mesmo pra ti, que é mesmo pra que tu pegue a bola, mas ele não joga a bola na tua direção; em vez disso, ele joga a bola em profundidade, lá na tua frente, no lugar apropriadamente chamado de “ponto futuro”, porque é o ponto onde tu vai estar no futuro. Basicamente, a bola esticada serve pra que não aconteça a perda de tempo do passe normal. Por exemplo, se tu está num determinado ponto do campo, e alguém te faz um passe normal, jogando a bola na tua direção, tu vai precisar ficar parado exatamente onde está, esperando a bola chegar em ti; só depois que ela chegar e já estiver nos teus pés é que tu vai poder avançar em direção ao campo adversário, dando continuidade ao ataque do teu time. Por outro lado, se tu está num determinado ponto do campo, e alguém faz um passe em profundidade pra ti — a tal bola esticada —, ah!, aí a coisa muda de figura! Não acontece perda de tempo nenhuma: tu vai precisar correr o mais rápido possível pro ponto futuro, porque a bola está indo pra lá, e, assim, automaticamente tu já vai estar avançando em direção ao campo adversário, sem ter que esperar nada. Se o passe for bem feito, tu e a bola devem chegar no ponto futuro ao mesmo tempo. Pra mim, a bola esticada é a coisa mais bela do futebol. E não estou falando do ponto de vista plástico, estético. Claro que o efeito visual, e até mesmo o efeito auditivo, de uma boa bola esticada são, sim, cheios de beleza: o atacante se projeta à frente o mais rápido possível, o zagueiro tenta chegar no ponto futuro antes dele, o próprio juiz precisa se apressar pra ver o lance de perto, vários jogadores dos dois times se reorganizam em campo em questão de segundos tentando prever o que vai acontecer em seguida; o barulho da torcida se intensifica como se toneladas de batatas fossem despejadas ao mesmo tempo em olho fervendo, os dois técnicos berram desesperados tentando instruir os jogadores em campo, os próprios jogadores gritam instruções uns aos outros. Sim, sem dúvida tudo isso é belo, mas não é disso que estou falando. E, pra falar a verdade, não sei muito bem como nomear essa beleza que estou tentando destacar aqui. A verdade é que, do ponto de vista de quem joga futebol e não apenas assiste, a bola esticada é um lance bastante complexo, que envolve uma série de coisas. Algo meio óbvio pra qualquer pessoa é que um atacante que recebe um passe desse tipo precisa ter a capacidade de […]

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Eu lembro direitinho do dia que eu descobri que possuía pulmões. Foi numa bola esticada. Pra quem não é boleiro e não faz a menor ideia do que seja uma bola esticada, eu explico. Bola esticada, no futebol, é um passe que tu recebe em profundidade. Ou seja, o teu companheiro de time faz um passe, que é mesmo pra ti, que é mesmo pra que tu pegue a bola, mas ele não joga a bola na tua direção; em vez disso, ele joga a bola em profundidade, lá na tua frente, no lugar apropriadamente chamado de “ponto futuro”, porque é o ponto onde tu vai estar no futuro. Basicamente, a bola esticada serve pra que não aconteça a perda de tempo do passe normal. Por exemplo, se tu está num determinado ponto do campo, e alguém te faz um passe normal, jogando a bola na tua direção, tu vai precisar ficar parado exatamente onde está, esperando a bola chegar em ti; só depois que ela chegar e já estiver nos teus pés é que tu vai poder avançar em direção ao campo adversário, dando continuidade ao ataque do teu time. Por outro lado, se tu está num determinado ponto do campo, e alguém faz um passe em profundidade pra ti — a tal bola esticada —, ah!, aí a coisa muda de figura! Não acontece perda de tempo nenhuma: tu vai precisar correr o mais rápido possível pro ponto futuro, porque a bola está indo pra lá, e, assim, automaticamente tu já vai estar avançando em direção ao campo adversário, sem ter que esperar nada. Se o passe for bem feito, tu e a bola devem chegar no ponto futuro ao mesmo tempo. Pra mim, a bola esticada é a coisa mais bela do futebol. E não estou falando do ponto de vista plástico, estético. Claro que o efeito visual, e até mesmo o efeito auditivo, de uma boa bola esticada são, sim, cheios de beleza: o atacante se projeta à frente o mais rápido possível, o zagueiro tenta chegar no ponto futuro antes dele, o próprio juiz precisa se apressar pra ver o lance de perto, vários jogadores dos dois times se reorganizam em campo em questão de segundos tentando prever o que vai acontecer em seguida; o barulho da torcida se intensifica como se toneladas de batatas fossem despejadas ao mesmo tempo em olho fervendo, os dois técnicos berram desesperados tentando instruir os jogadores em campo, os próprios jogadores gritam instruções uns aos outros. Sim, sem dúvida tudo isso é belo, mas não é disso que estou falando. E, pra falar a verdade, não sei muito bem como nomear essa beleza que estou tentando destacar aqui. A verdade é que, do ponto de vista de quem joga futebol e não apenas assiste, a bola esticada é um lance bastante complexo, que envolve uma série de coisas. Algo meio óbvio pra qualquer pessoa é que um atacante que recebe um passe desse tipo precisa ter a capacidade de […]

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