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Erico Verissimo: um perfil

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Erico Verissimo: um perfil Erico Verissimo (Foto: acervo da família)
Minhas recordações de Erico datam dos anos 1960. Na época, estava cursando Letras na UFRGS e fazia parte de um grupo – que hoje se chamaria “de pesquisa” – que fazia traduções de obras inéditas no Brasil de Teoria da Literatura. O grupo era coordenado pelos Profs. Angelo Ricci e Dionísio de Oliveira Toledo. Nas noites em que Erico recebia os amigos em casa, alguns de nós também iam. Eram reuniões informais, regadas aos cafezinhos de D. Mafalda, em que todos ficavam jogando conversa fora, com muito riso e às vezes pouco siso, como acontece entre amigos. Eram frequentadas por gente da mais diversa formação: professores, como Dionísio e Flávio Loureiro Chaves, amigos pessoais da família, jovens estudantes, como nós, escritores, como Lya Luft, sempre presente, Josué Guimarães, Quintana, estes mais raros, e por vezes pessoas que vinham de longe para conhecer o escritor. Não lembro muito da plateia, e de outros tantos, mas a figura de Erico, para mim, sobressaía. Erico era antes de tudo um excelente ouvinte. Nesses encontros, quase não falava, mas escutava a todos, como se estivesse reservando algum dito, opinião ou gesto para uma futura personagem. Observador, como qualquer de seus leitores deve perceber em seus romances e narrativas de viagem, guardava para si o que pensava sobre os assuntos que corriam à solta no ambiente acolhedor de sua sala de visitas, sentado em sua poltrona vermelha. Mais tarde, quando já lecionava na Faculdade de Letras da UFRGS e fui expurgada pelo AI-5, ele não só nos deu força, mas chegou a se desentender com o Reitor, então seu cardiologista Eduardo Faraco. E convenceu seu amigo Henrique Bertaso, diretor da Editora Globo, a me contratar – sem nenhuma experiência – para o Departamento Editorial.  Nós já publicáramos as primeiras traduções pela Globo, mas apenas a recomendação de Ricci e Dionísio não haviam convencido o relutante Henrique diante de uma “comunista”… Foi assim que em 1969 ingressei na família Globo e passei a ter outro tipo de relação com Erico: o de secretária editorial, que fazia os contatos com ele, buscava originais, resolvia dúvidas dos manuscritos e republicava sua obra de ficção em novos formatos. Acompanhei a criação de Incidente em Antares, e os vários entardeceres em que ele, José Otávio Bertaso – então diretor, com a aposentadoria de Henrique – e nosso fotógrafo, ficavam a postos nas janelas do alto prédio da Globo no Menino Deus, em busca do pôr do sol de sangue que Erico queria para a capa do romance. Não saiu: foi um de nossos artistas, Roberto Miguens, que a desenhou como ele desejava. Erico na editora Globo (Foto: acervo da família) Também editei seu Solo de Clarineta, que faleceu antes de terminar. O segundo volume foi editado postumamente com uma parte reconstituída de seus rascunhos por Flávio Loureiro Chaves. Mas recordo as tardes em que nossa artista Jussara Gruber e eu íamos à casa da Felipe de Oliveira para fotografar o autor em inúmeros ensaios.  Uma das fotos saiu na capa […]

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