meu retrato de...

NBP: anotações sob a chuva de pedra

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NBP: anotações sob a chuva de pedra Natalia Borges Polesso Foto: Bruno Kriger
abrigo azul-marinho A primeira vez que vi Natalia Borges Polesso eu era estudante de medicina e uma espécie de imediato em uma clínica de cardiologia; tinha lá meus 20 anos e NBP tinha 10; ela era paciente regular da clínica por causa de um problema cardíaco congênito que tendia a descompensar a cada estação fria; NBP, que à época vestia indefectivelmente umas calças de abrigo azul-marinho e uma campeira, costumava folhear as revistas que deterioravam na recepção da clínica há anos, fotonovelas muito antigas em que algumas páginas estavam arrancadas, revistas da Mônica, velhos manuais de velhas rotinas de cardiologia, do tempo em que a digoxina era a grande droga da área (suspeito inclusive que NBP deva tê-la experimentado), exemplares de jornais por alguma razão não descartados e que se ignora qual tipo de acaso os salvou da fragmentação inexorável das coisas de papel, listas telefônicas cuja plastificação da capa NBP ficava por um bom tempo removendo e com isso formando desenhos que lembravam os mapas dos países que um dia, invariavelmente, visitaria e residiria: Butão, Argélia, Chile, Austrália, Nicarágua, EUA, Líbano. pequenos demônios Após muitos anos, em noites atapetadas por vinho e tautologia pseudoliterária (época em que poucos entre nós líamos Lautréamont, Vachel Lindsay, Edgardo Cozarinsky, Natalia Ginzburg, Adília Lopes, Ingeborg Bachmann, Ursula K. Le Guin), passei a encontrar NBP e sua turma, uma matilha desgrenhada de pós-punks extremamente hostis e invariavelmente bêbadas, rondando pelos parques e praças vazias na escuridão da noite, as brasas dos cigarros imitando janelas vermelhas circulares onde pequenos demônios se escoravam – se você olhasse bem de perto – e acenavam para você, e o convidavam para a estripulia e para o escárnio e para a maldição e para a luxúria. NBP em algum momento – não sabemos o motivo, talvez o motivo desse texto seja tentar saber o motivo – se acercou de mim, à época eu ainda fumava, e me pediu fogo, e éramos todos estranhos vigilantes da treva, onde nada ocorria e de onde nada surgia, exceto, talvez de relance, se pusesse a eclodir alguma visão, como as pulgas de Stalingrado, que são mais escuras que a noite. mãos à obra Depois disso, editei seis livros de NBP, nenhum deles publicado, todos devidamente sepultados em velhos disquetes Verbatim 3 ½ polegadas: Sabão de banha (poesia); Éramos dezoito na sala (poesia); Coração: elétron (poesia); Um estudo para a deformação dos dentes (contos); Morreu o Didi Lebowski, carpinteiro do sequestro (teatro); e Anotações sob a chuva de pedra (contos). Vale dizer que estes livros revisamos NBP e eu nos vespertinos dos dias pares durante 2 meses, ela abstinente de tabaco e eu de café. Foi uma das minhas primeiras experiências de edição e pode-se afirmar que, apesar de sua irregularidade, por vezes o material de NBP alcança altitudes impressionantes (algo que viria a se plasmar mais precisamente em Amora (1), alguns anos adiante). articulação instável Um tempo depois, NBP me mostrou um conjunto de textos que acabou por se chamar Recortes para álbum […]

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