José Falero, Operação Cais Mauá

Uma derrota no Cais Mauá

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Uma derrota no Cais Mauá Foto: Tânia Meinerz

Quem me conhece há mais tempo sabe que a maior parte da minha vida foi embargada por sérios problemas de autoestima, os quais me conduziram primeiro à dificuldade de interagir com as pessoas, depois ao completo isolamento e, por fim, à depressão. Durante aquele período amargo, fui incapaz para a arquitetura de novas amizades, e os amigos que já havia feito antes da pane emocional e psicológica, assim como os meus parentes, não conseguiam compreender o que se passava comigo. Eu próprio não compreendia, embora nutrisse, naquele momento, a ilusão do contrário. 

Tirando minha mãe e minha irmã, com quem me sentia à vontade mesmo nessa fase, nenhuma outra pessoa do planeta podia chegar perto de mim sem que eu fosse esmagado por uma sensação tão desagradável quanto inexplicável, misto de medo e vergonha. Quando me dirigiam a palavra, então, era um suplício. Um singelo “oi” que eventualmente me dessem produzia em mim o mesmo efeito que uma exigência implacável e inesperada para que eu palestrasse imediatamente no púlpito das Nações Unidas. Daí a perplexidade generalizada entre os que haviam conhecido uma versão, digamos, saudável de mim: de algum jeito misterioso, eu tinha me tornado aquela criatura que fazia de tudo para ficar sozinha e que, quando não estava, fazia de tudo para permanecer em silêncio e que, quando convocada à manifestação, entrava em notável desespero.

Desnecessário comentar que, se eu não tinha uma vida social, muito menos uma vida amorosa. É verdade que a simples presença de qualquer pessoa me angustiava, é verdade que o simples diálogo com qualquer pessoa me levava à beira de um infarto, mas se a pessoa em questão fosse uma mulher tudo era muito pior, sobretudo quando eu — secretamente, claro — tinha interesse nessa mulher.

Por outro lado, e sou muito grato por isto, aquele estado de espírito deplorável em que eu andava não me impediu de virar um craque dentro das quatro linhas. Sim, estou falando sério. Sempre preciso esclarecer que estou falando sério quando ponho a modéstia de lado para fazer autoelogios futebolísticos: nessas ocasiões, a primeira certeza que as pessoas têm, por alguma razão, é a de que só posso estar contando uma piada. Costumo desfazer essa certeza inicial com muita paciência, insistindo, estalando a língua, repetindo quantas vezes forem necessárias que estou falando sério, até que elas percebam que realmente não estou de brincadeira. É aí que ficam, então, certas de uma outra coisa: de que eu não posso ser tão habilidoso como digo, tão rápido como digo, tão bom no passe como digo, tão bom na marcação como digo. Essa segunda certeza é muito mais fácil de desfazer: basta elas me verem jogando.

Nos empregos pelos quais passei, durante esses anos de sofrimento psicológico e emocional, nunca fui capaz de trocar mais do que cinco ou seis palavras por mês com os meus colegas, mas sempre fiz questão de participar das peladas organizadas depois do expediente, onde eu conseguia me destacar como uma figura de inegável valor, e isso foi o mais próximo que consegui chegar de ter uma vida social naquele tempo. Um desses empregos foi no Nacional que havia dentro do shopping Rua da Praia, onde trabalhei como supridor, abastecendo o corredor das bebidas. A percepção de que o trabalho era duro foi imediata, mas levei bastante tempo para ter clareza da bomba que eles tiveram coragem de largar nas minhas mãos, apesar de aquela ser a minha primeira experiência como supridor: o corredor que mais vende produtos em qualquer supermercado é o corredor das bebidas, e, para piorar tudo, aquele não era qualquer supermercado: era a famigerada loja número 100 do Nacional, cravada no Centro, visitada por dezenas de milhares de porto-alegrenses todo santo dia: a unidade com maior fluxo de pessoas e de vendas da rede inteira.

O expediente terminava às dez da noite, de modo que marcávamos as peladas para começarem às onze e terminarem à meia-noite. Jogávamos ali pertinho, nos bombeiros. Nunca entendi a razão de chamarmos o lugar de “os bombeiros”. A quadra ficava no Cais Mauá, à beira do Guaíba, e talvez aquele espaço em particular fizesse parte de uma corporação de bombeiros, mas nunca me dei ao trabalho de tirar a dúvida com ninguém. Montávamos os times de acordo com os setores do supermercado: os times dos empacotadores, os times dos açougueiros, os times dos seguranças e, é claro, os times dos supridores, num dos quais eu jogava. A coisa era simples: nunca perdíamos. Só isso. Sério. Era impossível que perdêssemos. Esperar que perdêssemos para um dos outros times do supermercado era como esperar que o Barcelona perdesse uma partida disputando a Divisão de Acesso do Gauchão. Claro que essa supremacia não era só por mim, mas pelos outros supridores do time também: todos tinham bola no corpo. Havíamos montado uma máquina! Com certeza aquele foi um dos melhores momentos da minha carreira: a única dúvida, quando estávamos na quadra, era de quanto seria a goleada.

Foi nessa mesma época que, para meu desespero, uma menina do supermercado se interessou em mim — ou pelo menos assim me pareceu. Eu costumava almoçar às pressas e sair correndo do refeitório, subir a escada de ferro em caracol, sair pela porta de funcionários e me aboletar numa mureta na Riachuelo, onde ficava sozinho, fumando cigarros até acabar o intervalo. Eis, então, que a moça — uma operadora de caixa que tinha recém entrado na empresa — um dia perguntou aos colegas que passavam o horário de almoço inteiro no refeitório aonde é que eu ia com tanta pressa todo santo dia. Logo após obter a resposta, seguiu os meus passos: saiu do refeitório, subiu a escada de ferro em caracol, saiu pela porta de funcionários e, ao me ver sentado na mureta, disse:

— Então é aí que tu te esconde!

Gelei. A aparição de um fantasma não teria me causado tamanho pavor. Quando ela se sentou ao meu lado, achei que o meu peito iria explodir.

Natasha.

Não vou ser romântico e mentiroso, dizendo que, em toda a minha vida, jamais esqueci a figura. Esqueci, sim. E creio que jamais teria pensado nela novamente, não fosse esta edição da Parêntese voltada para o Cais Mauá, que me levou a desenterrar da memória esta que é apenas uma das minhas tantas histórias de bola na trave. Natasha. Quase não me lembrei do nome. Mas creio que seria capaz de reconhecê-la na rua. Bonitinha, sorridente, esguia, estabanada e infantil. Não foi fácil. É verdade que a esqueci, mas também é verdade que naqueles tempos considerei que seria incapaz de esquecê-la algum dia. Ela seguiu me fazendo companhia na mureta da Riachuelo, e, no decorrer das semanas, quanto mais a gente conversava, mais eu ficava à vontade perto dela; e quanto mais à vontade eu ficava perto dela, mais me sentia atraído pelo seu jeito de ser; e quanto mais me sentia atraído pelo seu jeito de ser, mais claramente pressentia a tragédia. De que adiantava investir um fiapo de esperança que fosse naquilo? A quem eu pensava que estava enganando? Vinte e poucos anos e eu ainda era virgem. Vinte e poucos anos e eu não fazia a menor ideia de como se fazia para passar de uma conversa boba a um beijo. Essa é que era a verdade. Aquilo não poderia terminar bem, e eu sabia disso.

Não demorou muito e um segurança boa pinta começou a dar em cima dela descaradamente. De pronto passei a considerá-lo um detestável rival, não obstante a minha consciência de que eu estava mais perto de me tornar um astronauta do que de descobrir um caminho pelo qual pudesse conduzir a minha relação com a Natasha para além da amizade. Acho que o meu sentimento não chegava a ser propriamente ciúmes. Eu não me sentia dono da Natasha. Não achava que ela me devia fidelidade nem nada. Mas gostaria, sim, de ter um pouco mais tempo com ela. Um pouco mais de tempo para compreender o mecanismo do amor e, então, tentar decifrá-la. Sei lá. De certo modo, me parecia injusto que aquele segurança boa pinta, certamente muito namorador, viesse acabar com as ralas esperanças de um coitado como eu, arruinando uma das minhas raras oportunidades de tentar ser feliz com alguém. Sim, acho que era mais ou menos este o meu sentimento: eu não sabia a senha do cofre, e de mais a mais o cofre não me pertencia, mas não me agradava a ideia de entregá-lo de mão beijada.

A sorte pareceu apostar as fichas em mim. Chegado um determinado dia, algumas das meninas do supermercado, incluindo a Natasha, combinaram de ir assistir ao próximo jogo de futebol nos bombeiros, e, por coincidência, o próximo jogo era justamente o meu time contra o time do segurança boa pinta. Quando fiquei sabendo que todos os planetas do sistema solar tinham se alinhado dessa forma inédita, não pude evitar de abrir um largo sorriso. Era isso. Não tinha erro. Eu ia comer a bola naquele jogo. Eu ia humilhar aquele segurança, sem dó. É horrível pôr as coisas nestes termos, eu sei, mas, para ser absolutamente sincero, eis aqui o que pensei naquela oportunidade: aquele bendito jogo valia a Natasha.

Nos dias que se seguiram, uma ansiedade permanente e uma empolgação antecipada tomaram conta de mim. Mal conseguia dormir à noite, porque a cabeça insistia em trabalhar a todo vapor, pensando no jogo e na quantidade de dribles com os quais eu faria aquele segurança passar a maior vergonha da sua vida diante dos olhos da operadora de caixa cujos beijos ele disputava comigo, provavelmente sem fazer a menor ideia disso, já que eu era incapaz de demonstrar o interesse que tinha nela nela.

Não houve surpresa no jogo. Aconteceu a única coisa que podia acontecer. Eu disse que nunca perdíamos, e era verdade. Atropelamos os seguranças. Foi uma surra, com um brilho particular no meu desempenho. Depois, no vestiário, quando já nos lavávamos e trocávamos de roupa, aparentemente eu era o único feliz com a nossa vitória acachapante. Creio que ninguém percebeu, mas a sensação de triunfo me tornou inclusive mais falante do que o habitual.

— Passemo por cima deles, hein, rapaziada?

— É. Na real, esses jogo já não têm mais graça nenhuma.

— Também acho.

— Eu também.

Fiquei contrariado.

— Por que os jogo não têm mais graça?

— Porque a gente só ganha, mano.

— Tá, e ganhar agora é ruim?

— Claro que não. Mas a gente tinha que achar alguém do nosso tamanho pra bater, né?

Saímos do vestiário rindo disso, e foi aí que houve a queda de um meteoro. Do outro lado da quadra, a Natasha e o segurança estavam se beijando. Mas os guris seguiram conversando normalmente, como se a cidade, o país, o mundo não tivessem sido despedaçados naquele preciso instante.

— A gente devia jogar contra os time de outros supermercado.

— É verdade.

Eu estalei a língua.

— Quer saber? Na real cês tão certo. Esses jogo já perdero a graça. Larguei de mão. Tô fora. Eu não venho mais.

— Que foi, Zé? Tá com os olho cheio d’água.

— É sono. Acordei cedão. Não consigoooaaaooo, não consigo parar de bocejar. É foda.

No fundo, acho que eles tinham mesmo razão. Não tem muita graça ganhar sempre. Mas eu sabia, melhor do que ninguém, que perder sempre era muito pior.


José Falero é escritor, autor de Vila Sapo (Venas Abiertas, 2019) e Os Supridores (Todavia, 2020).

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