Relampo

Fique em casa

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Fique em casa

Um homem estava deitado numa esteira de praia, em algum ponto da orla do Guaíba. Era tarde de segunda-feira, o tempo estava fantástico: a brisa era fresca e suave, o sol brilhava sem queimar, não fazia calor nem frio. Daqueles raros dias perfeitos de primavera, com os quais Porto Alegre é tão avara. Ao lado do cidadão, térmica e cuia. Ele não estava exatamente dormindo, mas “pescando”, naquele limbo entre sono e vigília. Estava nisso quando um ruído o sobressaltou. Era um jovem, aparentemente fazendo turismo, que tirava fotos do rio. O clique do diafragma (sintético, pois obviamente fotografava com um celular) se repetiu, e depois mais uma vez. Vendo que tinha acordado o homem, o jovem se desculpou. O homem disse “que isso…”, pois realmente não se incomodara, espreguiçou-se e serviu um chimarrão. Para dissolver o constrangimento, o jovem decidiu puxar conversa: “Tirando um cochilo?”. “Com certeza”, retorquiu o outro. “De férias?”, indagou o rapaz. “Não, não.” “Mas você trabalha? São três da tarde…” “Sim.” “Que que você faz?” “Dou aulas de inglês.” “Em escola ou particular?” “Particular, eu sou autônomo.” “E só dá aulas de manhã?” “Não é nada fixo, mas, quando consigo, concentro todos os alunos num turno só do dia. Aí fico com o outro turno livre.” “Mas e não daria pra pegar mais alunos?” “Olha, até daria…” Silêncio de incompreensão da outra parte. “E por que não pega?” “Acho que está bom assim. Eu já ganho bem.” “Mas… Teria muito mais alunos interessados?” “Claro, muita gente quer aprender inglês.” “Muita, muita?” “Mas bá!” “Então por que você não aceita todos?” “Mas todos, todos nem daria, né, meu dia só tem 24 horas!” “Tá, mas daí o excedente você poderia repassar a colegas seus e cobrar uma comissão pela indicação. Depois, quando tivesse tantos alunos que nem todos os seus conhecidos dessem conta, um dia você poderia abrir uma escola. Subcontrataria seus colegas e colocaria anúncios pedindo para novos professores mandarem currículo. Daí viriam tantos alunos que um dia você precisaria abrir filiais, não só em Porto Alegre, mas no resto do Sul. E, depois de uns anos, Brasil afora. Seriam tantas escolas que você nem daria mais aulas, só coordenaria tudo. E hoje em dia ninguém precisa mais de escritório, você poderia fazer tudo pelo celular. O dinheiro só entrando. E daí, um dia, até essa coordenação você poderia delegar prum gerente. E daí, imagina, um dia, em plena segunda-feira, enquanto todo o seu pessoal trabalhasse, você ia poder ficar deitado em algum lugar, tomando esse tal mate que vocês gostam tanto.” “Olha, tchê, era o que eu tava fazendo até tu me acordar…”

[Continua...]

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Uma anedota

Um homem estava deitado numa esteira de praia, em algum ponto da orla do Guaíba. Era tarde de segunda-feira, o tempo estava fantástico: a brisa era fresca e suave, o sol brilhava sem queimar, não fazia calor nem frio. Daqueles raros dias perfeitos de primavera, com os quais Porto Alegre é tão avara. Ao lado do cidadão, térmica e cuia. Ele não estava exatamente dormindo, mas “pescando”, naquele limbo entre sono e vigília. Estava nisso quando um ruído o sobressaltou. Era um jovem, aparentemente fazendo turismo, que tirava fotos do rio. O clique do diafragma (sintético, pois obviamente fotografava com um celular) se repetiu, e depois mais uma vez. Vendo que tinha acordado o homem, o jovem se desculpou. O homem disse “que isso…”, pois realmente não se incomodara, espreguiçou-se e serviu um chimarrão. Para dissolver o constrangimento, o jovem decidiu puxar conversa: “Tirando um cochilo?”. “Com certeza”, retorquiu o outro. “De férias?”, indagou o rapaz. “Não, não.” “Mas você trabalha? São três da tarde…” “Sim.” “Que que você faz?” “Dou aulas de inglês.” “Em escola ou particular?” “Particular, eu sou autônomo.” “E só dá aulas de manhã?” “Não é nada fixo, mas, quando consigo, concentro todos os alunos num turno só do dia. Aí fico com o outro turno livre.” “Mas e não daria pra pegar mais alunos?” “Olha, até daria…” Silêncio de incompreensão da outra parte. “E por que não pega?” “Acho que está bom assim. Eu já ganho bem.” “Mas… Teria muito mais alunos interessados?” “Claro, muita gente quer aprender inglês.” “Muita, muita?” “Mas bá!” “Então por que você não aceita todos?” “Mas todos, todos nem daria, né, meu dia só tem 24 horas!” “Tá, mas daí o excedente você poderia repassar a colegas seus e cobrar uma comissão pela indicação. Depois, quando tivesse tantos alunos que nem todos os seus conhecidos dessem conta, um dia você poderia abrir uma escola. Subcontrataria seus colegas e colocaria anúncios pedindo para novos professores mandarem currículo. Daí viriam tantos alunos que um dia você precisaria abrir filiais, não só em Porto Alegre, mas no resto do Sul. E, depois de uns anos, Brasil afora. Seriam tantas escolas que você nem daria mais aulas, só coordenaria tudo. E hoje em dia ninguém precisa mais de escritório, você poderia fazer tudo pelo celular. O dinheiro só entrando. E daí, um dia, até essa coordenação você poderia delegar prum gerente. E daí, imagina, um dia, em plena segunda-feira, enquanto todo o seu pessoal trabalhasse, você ia poder ficar deitado em algum lugar, tomando esse tal mate que vocês gostam tanto.” “Olha, tchê, era o que eu tava fazendo até tu me acordar…”

Livremente adaptado de Anedota sobre o declínio da ética do trabalho (1963), de Heinrich Böll (1917-1985), um relampo enviado por Théo Amon


Shit happens

Dream e merda são anagramas. O que isso pode significar? Talvez que quem fala português não deveria sonhar em inglês. 

Giba Assis Brasil


Barulho

O pior barulho é sirene. O melhor barulho é rã, passarinho, afiador de faca, vendedor de puxa-puxa, saída de escola. O melhor barulho é o teste do microfone: “Ssomm… ssoomm… ssoomm”. O pior barulho é campainha. O melhor barulho é a voz no telefone: “tá tudo bem”. O melhor barulho é criança rindo. O pior barulho é bala entrando na cabeça de criança. O pior barulho é mãe chorando porque o filho morreu. É o cimento raspando no túmulo da filha de quatro anos. O melhor barulho é “tá salvo”. O pior é “ela não acordou mais”. O pior barulho de todos é “e daí?”

Liziane Kugland, ouvidos atentos


Começa assim…

“Uma noite, há anos, acordei bruscamente e uma estranha pergunta explodiu de minha boca. De que cor eram os olhos de minha mãe? Atordoada, custei reconhecer o quarto da nova casa em que eu estava morando e não conseguia me lembrar de como havia chegado até ali. E a insistente pergunta martelando, martelando. De que cor eram os olhos de minha mãe? Aquela indagação havia surgido há dias, há meses, posso dizer. Entre um afazer e outro, eu me pegava pensando de que cor seriam os olhos de minha mãe. E o que a princípio tinha sido um mero pensamento interrogativo, naquela noite se transformou em uma dolorosa pergunta carregada de um tom acusativo. Então eu não sabia de que cor eram os olhos de minha mãe?”

Olhos d’água, conto de Conceição Evaristo em sua obra homônima (PALLAS, 2016), um relampo enviado por Ângelo Chemello Pereira


relógio

a agulha invisível
a reger movimentos
por que é que se esconde?

Lolita Beretta


Colo

“fugiu do lar para idosos e foi até a casa em que tinha passado a infância, onde não punha os pés havia sessenta anos, e ficou gritando e batendo na porta a noite inteira.”  

(em um livro de Karl Ove Knausgard, relampo enviado por Lolita Beretta)


SEU CORPO, SEU GUIA

“Não gostamos das leis – disse o homem de chapéu. Estão escritas com letras góticas e ninguém consegue entendê-las direito, por mais que acredite. Só devemos nos guiar pelo que diz o corpo. Tenho agora o corpo sem vontade, e houve ocasiões em que o tive contente. É o único sinal.” 

Sota de bastos, caballo de espadas, Héctor Tizón (1975), relampo enviado por Fábio Pinto


Sinceridade

Em uma sala de espera qualquer, meu filho de 3 anos deu vazão ao sentimento de todo mundo nessa pandemia. A recepcionista o chamou pelo nome, olhou pra ele, sorriu e perguntou:

– Oi! Tudo bem?
– Não.

Marcela Donini, uma mãe orgulhosa

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