Artes Visuais, Reportagens

“Ocupação Cromática”: um mergulho na paisagem de Fernando Limberger

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“Ocupação Cromática”: um mergulho na paisagem de Fernando Limberger Projeto para Ocupação Cromática, 2019-2020, de Fernando Limberger

O 34° Festival de Arte da Cidade de Porto Alegre teve início na terça-feira (26/10). Com uma série de atividades, a programação, que tem duração de 10 dias, inclui também a participação de um artista residente. Fernando Limberger, gaúcho radicado em São Paulo, artista visual e paisagista, está na capital gaúcha para criar uma instalação site specific no porão do Paço Municipal da Prefeitura de Porto Alegre. A mostra será inaugurada em 5 de novembro, último dia do festival – mas, a partir desta quinta-feira (28/10), o público já pode visitar a exposição de desenhos do projeto.

Criada e desenvolvida especialmente para as salas subterrâneas do paço, Ocupação Cromática parte da observação da paisagem, no caso o porão e seu entorno, para a concepção do espaço – que reúne elementos característicos da produção de Limberger, como pedras, areias e penas tingidas, palha de madeira e sementes. 

A ideia da exposição surgiu há alguns anos, quando Limberger ficou surpreso ao descobrir a existência do porão, atualmente dedicado às artes visuais. Mesmo sem saber a história completa, foi sensível às memórias que ali habitam. “Me deu vontade de criar comentários para cada uma das diferentes salas que formam o conjunto do porão. A partir disso, a ideia de ocupação foi se concretizando e o contexto em que o prédio está inserido foi tornando-se importante na escolha dos elementos que compõem a instalação, bem como as características físicas de cada um dos ambientes”, conta o artista. 

Trabalhar a partir de ou em relação a um contexto é algo presente na produção de Limberger. Suas obras partem da observação atenta da paisagem e das dicotomias que podem ser percebidas nela. As oposições – como natural e artificial, figurativo e abstrato, organicidade e geometria, natureza e cultura – são caras ao artista, assim como os modos como convivemos com os ambientes e a natureza.

“Uso a observação da paisagem como uma maneira de aproximação de questões relacionadas à contemporaneidade e os ambientes relacionados às pessoas que os ocupam. As paisagens são testemunhos vivos de tudo que nelas acontecem e refletem muito sobre as transformações pelas quais passam ao longo do tempo”, afirma.

2x2x2, 1992. Foto: Mara Kuse

Talvez a obra 2x2x2 seja familiar ao leitor porto-alegrense. Instalada no Parque Marinha do Brasil desde 1992, a escultura é um cubo vazado, composto por arestas de pedras. “A ideia foi criar um trabalho que pudesse dialogar com a paisagem da cidade, onde ele seria inserido. Escolhi as pedras como elemento de ligação, por ter em minha memória esse elemento geológico como importante formador da paisagem local”, conta o artista, que, para a construção da obra, coletou os elementos pela cidade.  

Se o seu modus operandi segue por caminhos similares desde o início de sua produção, nos anos 1980, a paisagem, por sua vez, vem mudando em ritmo veloz. “De quando meu trabalho foi iniciado para o momento atual, as questões relacionadas às diferentes paisagens se tornaram mais dramáticas, intensas e urgentes. Naquela época, já existia a perspectiva catastrófica no horizonte para um futuro que, muitas vezes, achava-se que nunca iria chegar. Porém, é neste futuro que estamos vivendo agora”, aponta Limberger. 

Ocupação Cromática é, nesse sentido, uma aproximação sensível das questões que cercam o contexto atual. Há uma ideia de sonho que perpassa toda a instalação e que está ligada à aproximação de uma perspectiva onírica da paisagem, de forjar um caminho pela arte para sonhar com outras paisagens para a paisagem atual.

Projeto para Ocupação Cromática, 2019-2020

Fernanda Albuquerque, curadora da mostra, ressalta que uma das potências da exposição está exatamente nesse ponto. “Essa ação sensível, neste momento, é chave para reafirmarmos o lugar necessário e fundamental da arte para, se não transformar, ao menos desacomodar os nossos modos de ver o mundo, de nos relacionarmos com os lugares que a gente habita e com essas paisagens culturais que nos cercam”, coloca. 

“A gente vive um momento marcado por uma série de espécies de pesadelos – que são absolutamente reais, e que às vezes nos parecem surreais –, um momento de agudização de uma realidade social, política, ambiental, humanitária, com uma série de ataques frontais aos campos da ciência, da cultura, da arte, da universidade pública… Ocupação Cromática nos oferece um lugar de resistência a esta nossa realidade”, pontua Fernanda.

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