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A voz das artistas silenciadas ecoa em “Ana. Sem Título”

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A voz das artistas silenciadas ecoa em “Ana. Sem Título” Imovision/Divulgação

Ana. Sem Título (2020), novo filme da diretora Lucia Murat, chega aos cinemas nesta quinta-feira (29/7). O longa foi selecionado para a 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e teve sua première mundial no Festival Internacional de Cinema de Moscou.

Livremente inspirado na peça Há Mais Futuro que Passado – Um documentário de ficção, o road movie que mistura documentário e ficção apresenta artistas plásticas mulheres da América Latina por meio da ótica de Stela (Stella Rabello), jovem atriz de teatro que resolve fazer um trabalho sobre cartas trocadas entre elas durante os anos 1960 e 1970.

Stela viaja então para Cuba, México, Argentina e Chile à procura de seus trabalhos e de depoimentos sobre a realidade que elas viveram durante as ditaduras que a maior parte desses países enfrentaram na época, a partir dos rastros reticentes deixados por Ana (Roberta Estrela D’Alva), uma jovem brasileira negra que fez parte desse mundo, mas desapareceu misteriosamente.

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Oriunda de uma pequena cidade do interior gaúcho, a artista visual Ana ganhou o mundo, apresentando seu trabalho em grandes metrópoles latino-americanas e engajando-se em movimentos artísticos, culturais e políticas de vanguarda na época nesses lugares. Obcecada por essa figura fascinante e fugidia, Stela resolve refazer a trajetória de Ana e descobrir o que aconteceu com ela. 

“Resolvi fazer desse trabalho um filme porque sabia que nessa busca ia encontrar minha geração. No Brasil, existem mais de 430 mortos desaparecidos durante a ditadura. Muitas mulheres. Mas, diferente do Chile, os responsáveis nunca foram julgados”, comenta a diretora Lucia Murat.

Ana. Sem Título foi rodado nas capitais latino-americanas Havana, Buenos Aires, Cidade do México e Santiago do Chile – além de Dom Pedrito, no interior do Rio Grande do Sul. O roteiro de Murat e da escritora Tatiana Salem Levy adapta para o cinema o texto dramatúrgico de Daniele Avila Small, Clarisse Zarvos e Mariana Barcelos. No filme, mais uma vez a cineasta demonstra habilidade para borrar os limites entre o documentário e a ficção, trafegando entre ambos os registros com desenvoltura e criando uma narrativa híbrida – um recurso que Murat exercita desde sua estreia premiada com Que Bom te Ver Viva (1989).

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Ao tentar retraçar o percurso de vida e arte de Ana, cheio de lacunas e perguntas sem resposta, Stela é acompanhada por uma equipe de filmagem, que inclui a própria diretora Lucia Murat, registrando entrevistas com artistas, curadores, pesquisadores e outras pessoas que teriam conhecido a brasileira e testemunhado a ligação dela em suas viagens pela América Latina com figuras como a pintora cubana Antonia Eiriz, a cineasta argentina María Luisa Bemberg, a fotógrafa húngara radicada mexicana Kati Horna e a artista visual chilena Luz Donoso. Todas artistas integrantes da excelente exposição Mulheres Radicais: Arte Latino-Americana, 1960-1985, exibida na Pinacoteca de São Paulo em 2018.

Na entrevista exclusiva a seguir, Lucia Murat explica como foi filmar Ana. Sem Título em diversas cidades latino-americanas, comenta a respeito da mistura de ficção e documentário em seu trabalho e lamenta que o Brasil não tenha seguido o exemplo de outros países do continente confrontando seu passado autoritário: “Porque justamente pelo fato de o Brasil nunca ter feito isso e ter se preocupado com a memória justifica muito a tragédia que estamos vivendo. Justifica uma pessoa que fez loas a um torturador, que defende a tortura, ao invés de ter sido preso, ter sido eleito presidente”.

Imovision/Divulgação

Ana. Sem Título reúne imagens captadas em diversos lugares de várias cidades latino-americanas, além de entrevistas com muitas pessoas nesses locais. Como foi o trabalho de pré-produção para selecionar locações e personagens?

Ana. Sem Título é um road movie que se passa em diversas cidades latino-americanas. Mas, para fazer esse filme, a gente partiu primeiro de uma estrutura, de um roteiro, de uma investigação a partir da exposição Mulheres Radicais, que trabalhava com artistas latino-americanas dos anos 1960 e 1970, de onde a gente selecionou algumas artistas. A partir daí, eu fui a todas essas cidades e, junto a um produtor local, definimos quem seriam as pessoas entrevistadas, quais seriam as locações e os atores que participariam do filme. Então, foi um processo bastante demorado, mas, ao mesmo tempo, quando a gente filmou, estávamos abertos. Como tinha uma parte documental muito forte, estávamos abertos às interferências.

Como foi a construção do roteiro com a escritora Tatiana Salem Levy?

O roteiro parte de uma peça de teatro que eu tinha visto que tinha um dispositivo muito interessante, que era o fato de as artistas latino-americanas se escreverem. Eu e a Tatiana partimos daí, mas é cinema, que é outra coisa. Então, a primeira coisa que a gente decidiu é que o filme é um road movie, a gente pode ir aos lugares. Segundo, quem vai dirigir toda essa equipe pelos países são as cartas, elas é que vão dizer aonde a gente estará indo à procura de Ana. E a construção do personagem Ana fez parte desse processo também. É muito bom trabalhar com a Tatiana. Ela até ficou um pouco receosa de que, quando o filme ficasse pronto, ela não reconhecesse o roteiro. Mas ela reconheceu o roteiro. É uma mistura de ficção e documentário, mas a estrutura dele foi dada no roteiro que a gente fez.

Uma característica interessante do filme é a mistura de lembranças autênticas com memórias inventadas envolvendo Ana na fala dos personagens. Como foi esse processo de criação e interpretação de um discurso híbrido com os não-atores?

Essa mistura de ficção e documentário é uma coisa que eu trabalhei desde o meu primeiro filme, mas acho que com Ana foi muito mais radical, até eu mesma me espantava. Acho que o grande desafio foi filmar de uma maneira que o espectador acredite o tempo todo que é verdade, quer dizer, que é um documentário e tudo ali é verdadeiro. Acho que esse foi o desafio para mim e o Léo (Bittencourt), que fez a fotografia: qual o enquadramento, qual é a luz. A ponto de, por exemplo, terem algumas cenas ficcionais que na montagem caíram porque era ficção demais e isso não tinha nada a ver com o filme. Buscar uma maneira em que tanto os atores quanto os entrevistados reais se apresentassem para o espectador de uma maneira documental foi o grande desafio.

Como se deu a escolha de Roberta Estrela D’Alva para o papel da enigmática Ana?

Acho que muito desse filme tem a ver com a explosão dos movimentos identitários. É a existência do movimento negro que me faz buscar que eu, como branca, tenho de ter pessoas negras dentro da equipe e do elenco. Da mesma forma o movimento feminista: eu conheci a Roberta Estrela D’Alva em um festival de mulheres. Então, no momento em que a conheci, pensei: ela é incrível, carismática, tem talento, preciso dela em algum filme, nesse filme que eu já estava pensando em fazer. O papel então foi muito criado para ela.

As performances de Ana que aparecem no filme foram criadas por você?

Toda a consultoria de artes plásticas do filme foi feita pela artista Camilla Rocha Campos, carioca, negra e curadora, uma pessoa extremamente articulada e inteligente. A consultoria dela foi fundamental para tudo, para as performances e as partes de artes plásticas no filme.

O envolvimento de sua filha, a realizadora Julia Murat, com as artes visuais em seu trabalho, como nos filmes Histórias que Só Existem Quando Lembradas e Pendular, influenciou você de alguma maneira em Ana. Sem Título?

Eu acho que o trabalho da Julia e o meu têm uma influência muito grande um sobre o outro. É muito bom ter uma filha tão talentosa quanto eu tenho. A Julia fez faculdade de desenho industrial, que era ligada às belas artes, e se interessou muito por artes plásticas. Eu também, a gente frequentou museus desde que ela era criança. Em vários filmes meus essa questão já estava presente, como em A Memória que me Contam. No caso de Ana. Sem Título, ele parte de uma exposição que, quando a gente escreveu o roteiro, só tinha sido apresentada em Los Angeles e Nova York. Mas a gente conseguiu com a curadoria da exposição o catálogo e, a partir daí, selecionamos as artistas. Por uma coincidência extremamente boa para o filme, em 2018 a exposição Mulheres Radicais foi apresentada na Pinacoteca de São Paulo, e a gente conseguiu filmá-la.

Imovision/Divulgação

Por que a cidade gaúcha de Dom Pedrito foi escolhida como a terra natal de Ana?

A escolha de Dom Pedrito foi interessante. Eu tinha um grande amigo que era de lá, acho o nome incrível. Ao mesmo tempo, é um nome muito carinhoso, que não tem a ver com os pampas. Visualmente, é uma paisagem muito interessante para o filme. O fato também de que você tem uma região extremamente racista e machista, de onde sai uma personagem rebelde. Acho que Ana nos representa, todas as mulheres rebeldes, todas as mulheres que quiseram se impor, que tentaram se impor, mas que muitas vezes não conseguiram.

Há passagens particularmente emocionantes no filme, como a visita ao Estádio Nacional do Chile. O que significou para você confrontar durante a rodagem sua experiência de presa política torturada com locais, episódios e pessoas conectados de alguma forma com seu passado?

A ideia do filme nessa parte documental era que a equipe seria parte do filme e as nossas emoções estariam presentes. Daí, por exemplo, eu relaciono uma obra da Luz Donoso, no começo do filme, sobre os desaparecidos chilenos com a história dos desparecidos e desaparecidas no Brasil. No Estádio Nacional, foi uma coisa muito emocionante. Quando a gente foi filmar lá o camarim das mulheres, tinha uma marcação, a Stella tinha que passar naquelas pequenas celas, onde tinham os textos sobre as mulheres. Quando terminou, a gente já tinha desligado a câmera e a Stella ficou muito emocionada e começou a chorar. Obviamente, eu falei para o Léo: “Vamos filmar”. Depois eu pedi licença a ela se a gente podia usar, porque era uma emoção real, não estava colocada no roteiro. Acho que um dos momentos mais emocionantes do filme é aquele choro da Stella, que é verdadeiro. Como a questão da Andressa (Ferreira, assistente do filme) ter sido detida no México por racismo, porque não acreditavam que uma negra pudesse ser técnica de som de um filme. Ela perdeu o voo para Havana, foi muito ruim. Da mesma maneira, a gente colocou isso no filme.

Ana. Sem Título recupera a história política e social da América Latina nos anos 1960 e 1970, mas muitos aspectos autoritários, machistas e discriminatórios que marcavam a realidade do continente seguem presentes ainda hoje. Como você vê o Brasil de hoje e no futuro próximo?

Uma das coisas que mais nos impactou como equipe foi a existência em todos esses países de uma preocupação com a memória, a existência de museus dos direitos humanos, a preocupação com a educação dos jovens e de que a história tem de ser revisitada. Ao contrário, o Brasil não tem nada disso. Quando fomos filmar, no início de 2019, Bolsonaro já tinha sido eleito. Acho então que essa questão da memória e dos museus dos direitos humanos acabaram tomando uma proporção muito grande no filme, porque justamente pelo fato de o Brasil nunca ter feito isso e ter se preocupado com a memória justifica muito a tragédia que estamos vivendo. Justifica uma pessoa que fez loas a um torturador, que defende a tortura, ao invés de ter sido preso, ter sido eleito presidente.

Ana. Sem Título: * * * *  

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

Assista ao trailer de Ana. Sem Título:

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