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Encarando o medo e a angústia com riso

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Encarando o medo e a angústia com riso Foto: Stella Carvalho/Divulgação

A ansiedade causada pela vida contemporânea – especialmente na geração millennial – dá o tom da comédia dramática brasileira Depois a Louca Sou Eu (2019), que entra em cartaz nos cinemas nesta quinta-feira (25/2). (Lembrando que, por conta das determinações da bandeira preta no modelo de distanciamento controlado no Rio Grande do Sul, os cinemas estão temporariamente fechados no estado.) Dirigido por Julia Rezende, o filme é protagonizado por Débora Falabella no papel de Dani, jovem publicitária com ambições literárias que tem de lidar com ataques de pânico e instabilidades emocionais desde a infância.

O roteiro assinado por Gustavo Lipsztein adapta o sucesso literário homônimo e autobiográfico da escritora Tati Bernardi, lançado em 2016. No livro, a autora lança mão do humor e do exagero para narrar como atividades cotidianas do tipo ir a uma festa, viajar ou trabalhar acabam se tornando desafios exasperantes para uma jovem que só queria levar uma existência comum, mas precisa lidar diariamente com medos e angústias paralisantes.

No cinema, Depois a Louca Sou Eu replica o recurso da hipérbole, especialmente na parte inicial, em que uma vertiginosa sucessão de cenas e situações meio absurdas resumem em tom de comédia maluca a trajetória gauche da personagem principal. Felizmente, esse ritmo descabeçado, tão comum nas comédias brasileiras atuais, logo é abandonado na narrativa em favor de uma mais inteligente e equilibrada mescla de humor e drama.

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Foto: Stella Carvalho/Divulgação

“A gente não tira sarro do problema. A Dani enxerga graça porque é ela quem conta a história, e o humor gera identificação. Quando a gente precisou aprofundar, falar sério e mostrar essa menina passando por um problema, a gente foi até o fim”, afirma Débora.

Em Depois a Louca Sou Eu, Dani divide com os espectadores os percalços de seu dia a dia morando e trabalhando em São Paulo. Sua situação parece melhorar quando se apaixona por Gilberto (Gustavo Vaz), um homem com problemas similares aos seus. Em meio às incertezas do novo romance e da relação problemática com a mãe, Silvia (Yara de Novaes), Dani encara um longo e poderoso processo de autodescoberta.

“A protagonista é uma mulher enfrentando seus medos: da morte, das perdas, do fracasso e, sobretudo, o medo da vida. Ela quer ser uma escritora de sucesso, mas antes sonha apenas em conseguir sair de casa, trabalhar, casar, viajar. Ela conta tudo aquilo que sentimos e temos vergonha de expor”, diz a realizadora, diretora da série e dos filmes da franquia Meu Passado me Condena e do drama romântico Ponte Aérea (2015).

Foto: Stella Carvalho/Divulgação

Exibido em 2019 na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e no Festival do Rio, Depois a Louca Sou Eu deveria ter entrado em cartaz em abril do ano passado, mas a estreia foi adiada por conta da pandemia. Nesse meio tempo, a história deu origem à websérie Diário de uma Quarentena – um spin off que mostrou a protagonista em situações corriqueiras lidando com o isolamento social. Os vídeos foram todos gravados por Débora Falabella em casa, com seu celular – e mostram como o confinamento e o medo do novo coronavírus podem afetar pessoas que já sofriam com transtornos de ansiedade. Os seis episódios foram exibidos no YouTube e assistidos por mais de 7 milhões de espectadores.

Depois a Louca Sou Eu apresenta uma produção caprichada, pautada por referências visuais pop, em que se destacam a competente fotografia e a bem cuidada direção de arte – um verdadeiro tour de force, já que a infindável sucessão de episódios evocados no filme exigiu a preparação de dezenas de sets diferentes, montados para cenas que às vezes duram poucos segundos na tela. Outro aspecto técnico que se destaca no longa é a montagem dinâmica e virtuosística, que imprime um ritmo fluente à história – com especial acerto nas sequências que mostram Dani consumindo os remédios para controlar a ansiedade, dos quais fica dependente, claramente inspiradas no filme norte-americano Réquiem para um Sonho (2000), de Darren Aronofsky.

Uma das melhores atrizes brasileiras de sua geração, Débora Falabella empresta veracidade e densidade à protagonista, mesmo nos momentos em que Depois a Louca Sou Eu sucumbe ao apelo da comédia popularesca, principalmente no começo da trama. (Até parece estratégia para fisgar esse tipo de público logo de cara e segurá-lo enquanto o enredo vai tomando um rumo mais sóbrio.) A interação de Débora com Yara de Novaes é em particular rica: como a mãe que oscila da superproteção à desqualificação da filha, a igualmente ótima atriz estabelece um vínculo dramático com a protagonista que ecoa uma parceria de anos – ambas são criadoras do Grupo 3 de Teatro, fundado em 2005, já tendo dividido o palco em espetáculos como Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante (2019).

Foto: Stella Carvalho/Divulgação

Na entrevista coletiva virtual de lançamento do filme na última segunda-feira (22/5), perguntamos se Depois a Louca Sou Eu vai ganhar uma continuação. “Eu gostaria muito de ver algum desdobramento da personagem Dani, que é tão rica, não sei se em uma continuação”, respondeu a diretora Julia Rezende. “A bola para virar um seriado está na cesta, só falta empurrar para dentro. Estou pensando em como viabilizar isso”, revelou a produtora Mariza Leão. Já a estrela Débora Falabella foi enfática: “Sim! Eu quero: filme, seriado, o que for!”.

Foto: Stella Carvalho/Divulgação

Depois a Louca Sou Eu: * * * *

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

Assista ao trailer de Depois a Louca Sou Eu:

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