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“Eu, Capitão” enfrenta o naufrágio do humanismo

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“Eu, Capitão” enfrenta o naufrágio do humanismo Pandora Filmes/Divulgação

A dramática realidade dos imigrantes africanos que enfrentam a morte em busca de uma nova vida na Europa é o tema do filme italiano Eu, Capitão (2023). Indicado ao Oscar deste ano na categoria Melhor Filme Internacional, o novo filme do cineasta Matteo Garrone ganhou diversos prêmios no Festival de Veneza, incluindo melhor direção.

Eu, Capitão acompanha a jornada épica de dois adolescentes senegaleses, Seydou (Seydou Sarr) e Moussa (Moustapha Fall), que deixam Dakar e partem rumo à Europa, fugindo da pobreza atrás de melhores oportunidades de trabalho. A viagem, no entanto, é repleta de perigos no deserto e no mar, colocando os jovens primos diante do que há de pior no ser humano em sua luta pela sobrevivência.

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Pandora Filmes/Divulgação

Eu, Capitão é fruto de várias histórias entrelaçadas de jovens que vivenciaram a travessia da África para a Europa. Ao ouvir os seus testemunhos, ficou claro para mim que suas histórias eram provavelmente as únicas possíveis narrativas épicas dos nossos tempos”, argumenta o diretor e roteirista Matteo Garrone. Autor do roteiro com Massimo Ceccherini, Massimo Gaudioso e Andrea Tagliaferri, o realizador explica que conhecia as histórias de imigração apenas pela mídia, que costuma narrar apenas os últimos lances dessas jornadas.

Para Garrone, interessava também saber o que acontece antes das pessoas chegarem na Europa. “Ao visitar um centro de acolhimento para menores em Catânia, na Itália, ouvi a história convincente de um jovem africano que, ainda com 15 anos, conduziu um barco durante todo o caminho para a costa italiana, salvando assim a vida de todos os seus passageiros”, conta o cineasta.

“Para poder contar sua história repleta de perigos por dentro, tive que mergulhar no mundo deles, que é tão distante do meu. Para conseguir isso, tive que construir uma relação de colaboração constante com meninas e meninos que viveram uma situação horrível e que me orientaram durante a concepção do filme. Durante muito tempo, tive dúvidas sobre a minha legitimidade para contar essa história, mas é a história deles que eu conto”, justifica o diretor de filmes como Gomorra (2008), Dogman (2018) e Pinóquio (2019).

Pandora Filmes/Divulgação

Colaborador no roteiro de Eu, Capitão, o imigrante Mamadou Kouassi Pli Adama explica que conheceu Garrone em 2019, quando foi apresentado a ele por uma jornalista que pesquisava sobre o assunto: “O processo de produção do filme me permitiu contar a nossa história, recontar nosso sofrimento, descrever a nossa vida, as nossas tradições, as nossas culturas. O filme é uma possibilidade de compartilhar tudo isso com as gerações de hoje e as de amanhã. O cinema, como meio, dá voz às pessoas que não têm uma”.

Garrone revela que o processo de escolha de elenco, realizado na África e na Europa, foi trabalhoso. “Por fim, o mais sensato e eficaz era trabalhar com atores senegaleses muito jovens que nunca tinham saído do seu país, mas que, como a maioria de sua geração, sonha em viver em outro lugar. Encontrei assim o meu perfeito Seydou no ator Seydou Sarr”, comenta o diretor a respeito do ganhador do prêmio de melhor ator jovem no Festival de Veneza de 2023 graças a sua comovente atuação no filme.

Além da interpretação de Seydou Sarr, merecem destaque em Eu, Capitão a bela fotografia de Paolo Carnera – que registra a imponência tanto das paisagens abrasadoras do deserto quanto da imensidão do mar – e a ótima trilha sonora misturando composições originais com temas africanos influenciados por blues e música pop.

Pandora Filmes/Divulgação

Eu, Capitão: * * * * *

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

Assista ao trailer de Eu, Capitão: 

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