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“O Último Duelo” confronta os valores patriarcais

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“O Último Duelo” confronta os valores patriarcais 20th Century Studios/Divulgação

Antes da aguardada estreia em 4 de novembro do thriller dramático Casa Gucci (2021), o prolífico diretor Ridley Scott chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (7/10) com uma produção de época: O Último Duelo (2021). O filme estrelado por Matt Damon, Adam Driver e Ben Affleck é baseado no relato histórico que o especialista em literatura medieval Eric Jager escreveu sobre um episódio célebre e escandaloso ocorrido entre a nobreza francesa em fins do século 14 – o livro foi publicado no Brasil pela editora Intrínseca (tradução de Rodrigo Peixoto, 320 páginas, R$ 49,90).

O Último Duelo conta uma história de traição, vingança e patriarcalismo. Camaradas de armas a serviço da coroa da França, Jean de Carrouges (Damon) e Jacques Le Gris (Driver) vão tomando caminhos distintos com o passar dos anos e das infindáveis guerras. A amizade torna-se enfim rivalidade mortal quando Marguerite (Jodie Comer), esposa de Jean, denuncia publicamente Jacques por tê-la violentado na ausência do marido e dos criados no castelo onde mora – uma agressão negada pelo acusado.

A disputa acaba indo parar no tribunal com a presença do rei, que autoriza um duelo mortal entre Jean, cuja honra foi maculada, e Jacques, que insiste na inocência. A causa justa será a de quem sobreviver ao violento embate na arena pública.

20th Century Studios/Divulgação

A adaptação para o cinema foi escrita pelos astros Matt Damon e Ben Affleck – que voltam a assinar juntos uma história 24 anos depois de levarem o Oscar de Melhor Roteiro Original por Gênio Indomável (1997), dirigido por Gus Van Sant. A dupla contou com a ajuda da diretora e roteirista Nicole Holofcener, que auxiliou no desenvolvimento da perspectiva feminina do enredo e das personagens mulheres.

Originalmente, Affleck interpretaria Jacques Le Gris, mas o calendário de filmagem de O Último Duelo entrou em conflito com a rodagem de Deep Water, trama policial dirigida por Adrian Lyne na qual o ator é o protagonista, e o papel acabou ficando com Adam Driver. Já o sombrio Kylo Ren da franquia Star Wars emendou a parceria com Ridley Scott ao encarnar na sequência o empresário de moda Maurizio Gucci no novo filme do cineasta.

Diretor e produtor versátil, cuja filmografia inclui tanto fantasias futuristas como Alien – O 8º Passageiro (1979) e Blade Runner: O Caçador de Androides (1982) quanto épicos históricos do tipo Gladiador (2000) e Cruzada (2005), Scott sabe conduzir com segurança esse tipo de projeto ambicioso. Porém, como muitas das superproduções mais recentes que levam a assinatura do realizador, O Último Duelo destaca-se mais pela grandiosidade do espetáculo do que pela riqueza dramática. Curiosamente, o cineasta inglês já havia abordado de maneira muito mais sensível e nuançada a rivalidade brutal entre dois soldados no memorável drama de época Os Duelistas (1977).

20th Century Studios/Divulgação

Como em uma peça judicial, o filme mostra três versões da história contadas sucessivamente pelo trio central: primeiro a de Jean, depois a de Jacques e por fim a de Marguerite. Esse expediente narrativo lembra o clássico japonês Rashomon (1950), do mestre Akira Kurosawa, que mostrava três visões distintas a respeito do estupro da esposa de um samurai por um ladrão de estrada, relatadas pelos personagens envolvidos.

Se as cruas cenas de batalhas campais e do embate derradeiro entre Jean e Jacques expressam como a violência e o barbarismo pautavam na Europa medieval a lógica por trás de representações do poder instituído como os tronos e os tribunais, o tratamento dispensado às mulheres em O Último Duelo denuncia o machismo e a objetificação feminina. Tratadas como propriedade pelos pais e maridos e usadas como moeda de troca em negócios e heranças, as mulheres no filme são menosprezadas em suas opiniões, sentimentos e vontades, sendo colocadas à mercê das ambições materiais dos homens e dos conceitos de honra, dever e glória masculinos.

Reside nesse olhar para o papel subalternizado da mulher na sociedade medieval – uma realidade, diga-se, ainda lamentavelmente muito presente na atualidade – o mérito notável de O Último Duelo. Nessa perspectiva, quem acaba crescendo na tela não são os protagonistas Matt Damon ou Adam Driver, nem Ben Affleck na pele do hedonista conde Pierre d’Alençon, mas Jodie Comer – a Villanelle da série Killing Eve: Dupla Obsessão –, que imprime dignidade, altivez e coragem à ultrajada Marguerite, vista pela sociedade mais como cúmplice do que vítima do abuso sofrido.

20th Century Studios/Divulgação

O Último Duelo: * * *  

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

Assista ao trailer de O Último Duelo:

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