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“Transfusão”, de Viridiana: voz trans e olhar relacional em pop eletrônico

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“Transfusão”, de Viridiana: voz trans e olhar relacional em pop eletrônico Viridiana. Foto: Lau Baldo

Quem se aproxima de Viridiana pelo Instagram encontra uma síntese da relação da multiartista com o seu ofício: “Eu faço música bem eletrônica com sentimentos bem analógicos”. A frase também serve de ponto de partida para a escuta do álbum Transfusão, lançado no dia 4 de novembro pelo selo PWR Records e viabilizado pela plataforma Natura Musical.

Viridiana é o projeto solo da musicista, performer e produtora musical Bê Smidt. Em Transfusão, ela reúne 14 faixas que totalizam 50 minutos de duração – números que chamam a atenção em um contexto fonográfico com predominância de singles e EPs. “Quis me apresentar de frente, de trás, de cima, de baixo, de dentro, de fora… Todos os cantinhos”, descreve a cantora.

Em 2019, Viridiana lançou Androgênia, com as cinco primeiras músicas compostas por ela. O EP faz parte do trabalho de conclusão de curso da musicista na graduação em Música Popular da UFRGS e foi indicado ao Prêmio Açorianos. Em 2020, diante da impossibilidade de realizar shows por conta da pandemia, a artista dedicou-se à composição, explorando letras, vozes e sintetizadores.

Contemplada pelo edital 2021 da Natura Musical, Viridiana convidou Isabel Nogueira – professora da UFRGS e multiartista que desenvolve o projeto solo Bel_Medula – e Rita Zart – cantora e produtora musical que no passado lançou O que Range – para assinar a direção criativa do álbum.

“Trabalhar com a Viridiana é estar perto de uma das artistas mais criativas, múltiplas e completas que já conheci. Ela é muito profunda e densa em seus processos, as referências que ela traz são muito inovadoras, o trabalho de sound design é perfeito e ela comunica as ideias de forma generosa, leve, elegante e sedutora”, elogia Nogueira.

Na visão de Zart, “Viridiana suaviza os assuntos mais sérios e doloridos, nos leva pra pistinha com a sonoridade de agora, serve doces em dias amargos”. “Foi no auge da pandemia, choramos e rimos muito, estávamos à flor da pele e juntas nas telinhas”, completa a codiretora criativa.

A partir das trocas de Viridiana com a dupla de diretoras, Transfusão foi ganhando contornos sonoros, com uma ambiência noturna ora introspectiva, ora dançante, que mescla referências do pop, da canção brasileira e da música eletrônica. “Ouço muita Madonna, New Order, Marina Lima. Um vocabulário pop que passa pelo filtro da minha pessoa e do que consigo fazer no meu quarto”, reflete a artista, ressaltando o papel do home studio em sua atuação.

Viridiana. Foto: Lau Baldo

“Nerdona”, como se define bem-humorada, aos 23 anos, Viridiana destaca sua passagem pelo coletivo Medula, na UFRGS, como central para a construção de sua abordagem sonora em busca de timbres nostálgicos. “Aprendi a fazer música com a música experimental no coletivo Medula, subvertendo instrumentos, ouvindo ruído. Entendi que o timbre do som é fundamental”, explica.

Outro aspecto das investigações sonoras – e existenciais – de Viridiana é a voz. “Quando ouvia minha voz gravada, era tipo a sensação de quando me olhava no espelho: esse corpo não é meu, essa voz não é minha”, conta a artista, que se identifica como mulher trans não binária.

“Por que começar sempre por ‘é homem ou mulher’? Podemos raciocinar a partir de outros lugares. Por isso, passo muito tempo em cima da voz para entender escapes, usando mecanismos da música eletrônica para encontrar um lugar mais arejado”, observa a cantora, que além de explorar efeitos e distorções, também mostra timbres mais crus de seus vocais em Transfusão. “Em muitas músicas, minha voz está bem ‘limpa’. Foi uma conquista interna conseguir apresentar essa parte de mim.”

Trans em relação

“Se eu tivesse nascido menina/ na verdade eu nasci/ o meu nome seria/ outro que eu não escolhi”, canta Viridiana em menina. “Por isso eu renasço todo dia/ uma legião de versões minhas/ e como a semente que germina/ eu sou a minha própria dinastia”, segue na segunda estrofe da faixa em que a temática da identidade de gênero ganha versos mais diretos e introspectivos.

No álbum como um todo, entretanto, Viridiana aborda o assunto a partir de uma perspectiva relacional. “Falo que sou trans e existo nesse mesmo universo que também é teu. A gente se choca, se ama, dança… Mas como a gente faz tudo isso junto? É muito sobre relação, menos eu comigo mesma”, analisa.

Essas reflexões conduziram Viridiana ao nome do álbum: “Transfusão expressa uma ideia de se curar com algo que não é teu, deixar se afetar por lugares, pessoas, memórias, experiências”. Ao acrescentar “fusão” ao prefixo, Viridiana também alude à mudança do estado sólido para o líquido: “Me instigou muito olhar as músicas dessa maneira, no sentido de exercer diferentes formas de viver e existir”.

Desde os primeiros lançamentos dos singles que integram o álbum, Viridiana tem sido procurada por pessoas não cis que se identificam com suas músicas. “Se eu puder fazer esse processo de autoaceitação ser mais fácil para outra pessoa do que foi para mim, meu trabalho está cumprido. Não consigo pensar em função melhor do que ser um lugar seguro para outra pessoa pensar ‘não preciso me esconder’”, reflete a cantora.

[Continua...]

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