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“Babenco” é um réquiem de amor à vida e ao cinema

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“Babenco” é um réquiem de amor à vida e ao cinema Foto: Arquivo Pessoal/Primeiro Plano/Divulgação

Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou, de Bárbara Paz, estreia nesta quinta-feira (26/11) nos cinemas brasileiros. O documentário traça um paralelo entre a arte e a doença de Hector Babenco (1940 – 2016), cineasta nascido na Argentina e radicado brasileiro responsável por filmes memoráveis como Pixote: A Lei do Mais Fraco (1981), O Beijo da Mulher-Aranha (1985), Ironweed (1987) e Carandiru (2003). A Academia Brasileira de Cinema e Artes Audiovisuais escolheu o longa para representar o Brasil na disputa por uma vaga na categoria Melhor Filme Internacional no Oscar 2021.

O pungente filme de Bárbara revela medos e ansiedades de um artista que se identificava com os marginalizados da sociedade e sempre sentiu um deslocado – os argentinos achavam que Babenco tinha virado brasileiro, os brasileiros viam-no apenas como argentino. A narrativa fluida, que não se preocupa em seguir estritamente uma ordem cronológica, costura memórias, reflexões e fabulações, aproximando o espectador do confronto entre vigor intelectual e fragilidade física que marcou sempre a vida do cineasta. “Um filme de amor ao cinema, de um homem que amou a vida acima de tudo”, na definição de Bárbara, atriz que foi companheira de Babenco e atuou em seu último filme, Meu Amigo Hindu (2015). 

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O ator norte-americano Willem Dafoe é um dos produtores associados do filme. Para o protagonista de Meu Amigo Hindu, o documentário tem as características de Babenco: “Seu pensamento, seu personagem e sua obra. Uma meditação poética, um poema de amor para ele, para a vida, para a morte e para o cinema”. O filme já foi selecionado para mais de 20 festivais internacionais e estreou mundialmente no Festival de Veneza de 2019, recebendo o prêmio de Melhor Documentário na Mostra Venice Classics e o Bisato d’Oro 2019 – premiação paralela concedida pela crítica independente em Veneza.

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A melancolia é o tom predominante de Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou, um travo acentuado pela belíssima fotografia em preto e branco e a trilha sonora emotiva, que inclui temas da banda inglesa Radiohead. “Eu já vivi minha morte, agora só falta fazer um filme sobre ela”, disse o cineasta a Bárbara Paz, ao perceber que não lhe restava muito tempo de vida. A atriz aceitou a missão e realizou o último desejo do companheiro: ser protagonista de sua própria morte. 

No entanto, apesar da constante presença da finitude, que se insinua o tempo todo em cena, esse réquiem não se compraz com a lamentação. Bárbara consegue tornar o espectador cúmplice do olhar afetuoso e admirado que lança para Babenco, criador que encontrou no cinema um lenitivo no combate contra a insistente doença – do primeiro câncer, aos 38 anos, até a morte, com 70.

Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou é o primeiro longa-metragem de Bárbara Paz. Mas também pode ser visto como a derradeira obra de Hector Babenco. Graças à sensibilidade da realizadora estreante, essa despedida olha para além do fim em busca de uma continuidade – da vida, da arte, do amor. Parafraseando aquela canção do Ednardo: porque filmar parece com não morrer.

Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou: * * * * *

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

Confira o trailer de Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou:

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