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Nova Zelândia: uma comparação possível entre países na pandemia

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Nova Zelândia: uma comparação possível entre países na pandemia Na semana em que o Brasil cruzou a barreira das 100 mil mortes confirmadas por Covid-19, muitas comparações foram feitas na tentativa de compreender a dimensão da nossa tragédia. Uma delas foi um famigerado ranking, que muito circulou no fim de semana. Ele enumera os países usando a métrica de óbitos por milhão de habitantes, e nele o Brasil ocupa a 11ª colocação. A comparação entre desastres nunca é construtiva, para lado algum, mas houve quem tentasse deduzir, daí, certo sucesso brasileiro. A Comunicação da Presidência afirmou que “o Brasil é uma das nações com menos mortos por milhão de habitante”. A imagem compartilhada mostra o Brasil na 11ª de 11 posições, embora o ranking completo devesse conter mais de 200 posições – e, portanto, mostraria que o Brasil está entre os 10% piores casos da pandemia. Porém, mais do que destrutiva, a comparação de desastres pode não ser cientificamente acurada. É representativo levar em conta os casos de San Marino, um país com a mesma população do Centro de Porto Alegre? É válido comparar os dados de países com a pandemia em franco desenvolvimento, como Brasil e Estados Unidos, com países em que o pico da pandemia já passou, como Itália e Espanha? Podemos comparar esses números, de forma quantitativa, sem saber, de forma qualitativa, quais fatores genéticos, ambientais e epidemiológicos são determinantes no desenvolvimento da pandemia? A quantidade de variáveis existentes na equação que determina o curso da pandemia em uma nação é muito alta, e ainda muito pouco conhecida, de forma que comparações grosseiras entre países facilmente perdem sentido. No entanto, se comparar dados quantitativos é de pouca utilidade, há sim elementos que podem ser analisados lado a lado. Muitos desses elementos são, justamente, as medidas e os princípios adotados por cada país para lidar com a pandemia. O caso neozelandês No dia 7 de agosto, às vésperas de o Brasil cruzar a marca das 100 mil mortes, o New England Journal of Medicine publicou um artigo sumarizando as medidas tomadas pela Nova Zelândia no combate à pandemia. O texto é assinado por dois médicos neozelandeses, e tenta compreender de que maneira esse pequeno e rico país da Oceania conseguiu se transformar em um caso de sucesso epidemiológico. Um primeiro aspecto que chama atenção no texto é a consciência do país acerca da magnitude do desafio. Os autores afirmam que, desde janeiro, se sabia do risco pandêmico dos casos que então emergiam na China, e igualmente sabiam que, por questões geográficas e comerciais, a Nova Zelândia rapidamente seria impactada. Antes da confirmação do primeiro caso, já havia medidas de fiscalização nas fronteiras e alfândegas, assim como hospitais já estavam sendo preparados. Apesar disso, a pandemia se alastrou. Em meados de março, observam os autores, as autoridades reconheceram que não havia testes suficientes e nem capacidade de identificar todos os contatos de todos os infectados. Concluíram que era o momento de passar de uma “estratégia de mitigação” para uma “estratégia de eliminação”. No dia 26 de maio, apesar […]

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Na semana em que o Brasil cruzou a barreira das 100 mil mortes confirmadas por Covid-19, muitas comparações foram feitas na tentativa de compreender a dimensão da nossa tragédia. Uma delas foi um famigerado ranking, que muito circulou no fim de semana. Ele enumera os países usando a métrica de óbitos por milhão de habitantes, e nele o Brasil ocupa a 11ª colocação. A comparação entre desastres nunca é construtiva, para lado algum, mas houve quem tentasse deduzir, daí, certo sucesso brasileiro. A Comunicação da Presidência afirmou que “o Brasil é uma das nações com menos mortos por milhão de habitante”. A imagem compartilhada mostra o Brasil na 11ª de 11 posições, embora o ranking completo devesse conter mais de 200 posições – e, portanto, mostraria que o Brasil está entre os 10% piores casos da pandemia. Porém, mais do que destrutiva, a comparação de desastres pode não ser cientificamente acurada. É representativo levar em conta os casos de San Marino, um país com a mesma população do Centro de Porto Alegre? É válido comparar os dados de países com a pandemia em franco desenvolvimento, como Brasil e Estados Unidos, com países em que o pico da pandemia já passou, como Itália e Espanha? Podemos comparar esses números, de forma quantitativa, sem saber, de forma qualitativa, quais fatores genéticos, ambientais e epidemiológicos são determinantes no desenvolvimento da pandemia? A quantidade de variáveis existentes na equação que determina o curso da pandemia em uma nação é muito alta, e ainda muito pouco conhecida, de forma que comparações grosseiras entre países facilmente perdem sentido. No entanto, se comparar dados quantitativos é de pouca utilidade, há sim elementos que podem ser analisados lado a lado. Muitos desses elementos são, justamente, as medidas e os princípios adotados por cada país para lidar com a pandemia. O caso neozelandês No dia 7 de agosto, às vésperas de o Brasil cruzar a marca das 100 mil mortes, o New England Journal of Medicine publicou um artigo sumarizando as medidas tomadas pela Nova Zelândia no combate à pandemia. O texto é assinado por dois médicos neozelandeses, e tenta compreender de que maneira esse pequeno e rico país da Oceania conseguiu se transformar em um caso de sucesso epidemiológico. Um primeiro aspecto que chama atenção no texto é a consciência do país acerca da magnitude do desafio. Os autores afirmam que, desde janeiro, se sabia do risco pandêmico dos casos que então emergiam na China, e igualmente sabiam que, por questões geográficas e comerciais, a Nova Zelândia rapidamente seria impactada. Antes da confirmação do primeiro caso, já havia medidas de fiscalização nas fronteiras e alfândegas, assim como hospitais já estavam sendo preparados. Apesar disso, a pandemia se alastrou. Em meados de março, observam os autores, as autoridades reconheceram que não havia testes suficientes e nem capacidade de identificar todos os contatos de todos os infectados. Concluíram que era o momento de passar de uma “estratégia de mitigação” para uma “estratégia de eliminação”. No dia 26 de maio, apesar […]

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