Reportagem

Britadeiras em um patrimônio público: o caso do Viaduto Otávio Rocha

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Britadeiras em um patrimônio público: o caso do Viaduto Otávio Rocha Foto: Martina Lersch / Arquivo Pessoal

Uso de equipamento pesado para retirar ladrilhos suscitou debate sobre preservação do patrimônio público de Porto Alegre

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O som de britadeiras no Centro Histórico chamou a atenção dos moradores na semana passada. Os equipamentos foram utilizados para retirar o piso dos passeios do Viaduto Otávio Rocha, em obras de revitalização desde o fim do ano passado. A previsão é que os trabalhos durem até o primeiro semestre de 2024. 

Não demorou para que as fotos dos operários trabalhando no local logo levantassem discussões em grupos de moradores no WhatsApp. Afinal, em nome de um restauro, não estariam eles destruindo e com risco de descaracterizar um dos principais patrimônios públicos de Porto Alegre? Consultada pelo Matinal, a Prefeitura garantiu que não e salientou “a preocupação do projeto de restauração do viaduto é garantir sua arquitetura original, sua exata volumetria, suas texturas e a mesma tipologia de seus materiais originais constituintes”.

O uso das britadeiras, entretanto, não estava previsto inicialmente, conforme admitiu a Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura (Smoi). De acordo com a pasta, elas foram necessárias porque não foi possível retirar os ladrilhos manualmente, em razão de um bloco de concreto. A partir da retirada das peças será feita a impermeabilização do local. 

A Smoi ressalta que as lajotas não eram parte tombada da estrutura. Além disso, parte delas já apresentava desgaste pelo tempo em uso e estavam “incapazes de garantir segurança e evitar escorregamento dos transeuntes” e serão “substituídas por réplicas idênticas às atualmente existentes” – as que estiverem em condições serão recolocadas, conforme a pasta. A promessa é que, ao término da obra, o mosaico no piso ficará igual. 

Procurada, a Secretaria Municipal da Cultura afirma que “a equipe do patrimônio e memória está totalmente envolvida e ciente da situação” e que as pedras não estão no escopo do tombamento. Primeiro viaduto construído em Porto Alegre, o Otávio Rocha é tombado desde outubro de 1988, por conta de “suas características arquitetônicas, bem como sua relevância sócio-cultural”.

“Britadeira assusta”

O piso que está sendo substituído não seria o original da construção do viaduto, inaugurado em 1930 – ainda que a última das passagens tenha sido aberta em 1933. “O ladrilho que está ali foi colocado no final dos anos 90, início dos anos 2000. Ele já foi trocado inúmeras vezes”, aponta o arquiteto Lucas Volpatto, autor do livro “Viaduto Otávio Rocha: ícone da Porto Alegre Moderna”.

Para se fazer uma “restauração catedrática” seria necessária a catalogação de peça por peça que fosse retirada. Volpatto, que é conselheiro do Conselho de Arquitetura e Urbanismo-RS, especula que, na reforma que ocorreu entre 2000 e 2001, possa ter sido utilizada uma argamassa mais resistente, o que impediria a remoção mais cuidadosa, obrigando o uso de maquinário pesado: “O uso da britadeira assusta, não dá para dizer que não é chocante.”  

Foto: Acervo fototeca Sioma Breitman
– MJJF/SMC

Conforme ele, mesmo o desenho que hoje está no viaduto já não é exatamente original, e sim similar. Da mesma forma, ao longo das décadas, muita coisa mudou ali. Os próprios espaços que eram lojas até dois meses atrás não existiam antes da década de 1960. Assim como, hoje, a vegetação com jacarandás é só memória. Equipamentos como luminárias, balaustres e a pavimentação, além do próprio entorno, estão diferentes na comparação com décadas atrás. “O viaduto é um organismo vivo”, ressalta Volpatto. “Ele faz parte desta cidade que está em constante transformação.”  

Ainda assim, o aspecto inaugural permanece, de acordo com o arquiteto. “O viaduto por si só mantém a ambiência. Consegue ter a ambiência quando se está caminhando embaixo dos arcos da época que ele foi inaugurado.”

Volpatto destaca que a repercussão da obra neste momento pode vir de uma falha de comunicação. “A população é mal informada”, afirma ele, pontuando que a empresa responsável pela obra tem bons trabalhos já feitos. “A Concrejato é muito boa e conhecida nacionalmente. Está fazendo um trabalho muito bom no Santander Cultural, no Instituto de Educação, no Museu do Ipiranga, um trabalho impecável”, elogia. “Eu daria crédito a essa empresa, mas pode ser que o ato não seja a técnica mais adequada.” 

O local e a afeição

A falha na comunicação é um ponto bastante reiterado pela professora do Departamento de Urbanismo da Faculdade de Arquitetura da UFRGS, Inês Martina Lersch. “Me parece que o cidadão não tem informações”, resume. “Foi uma obra que impactou muito o centro da cidade. Daí a discussão”, acrescenta a docente, que é moradora do Centro e contou ter buscado, sem sucesso, informações a respeito das intervenções nos tapumes instalados. O Matinal encontrou apenas uma placa parcialmente encoberta com informações técnicas, em um tapume de frente à avenida Borges de Medeiros, distante, portanto, dos pedestres. “Seria importante a informação ao público sobre os critérios de intervenção adotados nesta obra”, opina.

A professora ainda leva em conta outros aspectos com relação ao uso da britadeira no viaduto, apontando que a sua utilização pode causar danos em outras estruturas e detalhes do viaduto. “Dado que há indícios de fissuras nas balaustradas e descolamento da argamassa de revestimento em vários pontos, me parece importante avaliar o impacto do seu uso e a probabilidade da ação mecânica levar a danos mais extensos”, diz Martina, que ainda cita a questão ambiental gerada, por conta da quantidade de entulho que fica após os trabalhos com o equipamento. 

Pesquisadora do campo do Patrimônio Cultural, Ambiental e Urbano no Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional (PROPUR), ela salienta que o viaduto é um ícone de Porto Alegre. Mesmo que nem todos os materiais nele sejam oficialmente tombados, há de se ter um cuidado especial: “Em se tratando de uma obra, é significativa para os porto-alegrenses. Quando começa a se mexer nesses lugares, existe afeição”, afirma. “Especialmente o viaduto, que tem sido o lugar de grandes manifestações. É um lugar que identifica o Centro de Porto Alegre.”

Martina destaca também a importância dos profissionais conservadores restauradores em intervenções desta envergadura, além da importância da realização de registros, como levantamentos métricos, cadastrais e memoriais descritivos, por exemplo. “Com acesso a esses registros, a discussão da substituição ou não do piso em tela poderia ter sido pautada a partir de uma memória de intervenções anteriores e também dos devidos laudos e levantamentos atuais”, exemplifica.

Para ela, a necessidade de uma obra de restauro de grandes proporções denota uma falha anterior com o patrimônio público: “Lamento que o Viaduto Otávio Rocha não tenha sido objeto de um programa de conservação preventiva ao longo do tempo e que sejam novamente necessárias obras de grande monta e altos custos”, pontua. “Recorrer à restauração depois que o bem cultural atinge um avançado grau de deterioração tem sido a regra.”

Projeção de como ficará o viaduto após a restauração | Foto: PMPA
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