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Na zona norte, avanço da água atrapalha resgate, coordenado por voluntários

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Na zona norte, avanço da água atrapalha resgate, coordenado por voluntários Operação tem nova base, sob o viaduto José Eduardo Utzig | Foto: Marcela Donini/Matinal

Voluntários e bombeiros organizam salvamento de moradores afetados na zona norte da capital e até transferência de base. Morador reclama de falta de alerta sobre inundação no Humaitá

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“Médico! Médico! Tem gente chegando!” Os gritos completam o contorno dramático das cenas de acolhimento de pessoas resgatadas que chegam à avenida Benjamin Constant, na zona norte de Porto Alegre. A cidade vive um caos sem precedentes desde que o nível do Guaíba ultrapassou em mais de 2m a cota de inundação, ainda na sexta-feira, chegando à marca histórica de 5,35cm no domingo.

Desde o final da semana passada, anônimos e autoridades trabalham em forças-tarefa pela cidade. Este ponto no bairro São João teve que ser transferido para baixo do viaduto José Eduardo Utzig, a algumas quadras do endereço anterior, na Cairu, quase esquina com a Ceará. A água segue avançando pelos bairros vizinhos, como São Geraldo, Navegantes e Humaitá, onde ainda há pessoas para serem resgatadas. Até a noite, a Defesa Civil da capital informava 8 mil pessoas salvas no total.

A chegada de sobreviventes estava sendo feita sobre o viaduto antes, mas agora as embarcações chegam pela parte baixa da Pereira Franco e outras ruas que desembocam na Benjamin e se transformaram em hidrovias por esses dias. Na tarde de hoje, centenas de pessoas se concentravam na região, entre autoridades, voluntários e pessoas que esperavam parentes ilhados. 

Cordões de isolamento tentavam manter afastados os curiosos das rotas das embarcações, que chegavam sob aplausos. Filas de gente carregando seus pertences circulavam por entre caminhões e caminhonetes que ajudavam no resgate e na entrega de doações. “Onde ficam as coisas pra pets?”, gritava um homem com uma caixa lotada de ração. Do outro lado, pilhas de roupas eram separadas e sanduíches já embalados esperavam para alimentar voluntários ou sobreviventes.

Avenida Benjamin alagada no cruzamento com a Brasil |Imagens: Marcela Donini

Tatiana Fabra era uma das voluntárias que coordenava a ação, indicando onde deviam ficar cada tipo de doação, os alimentos e a triagem. “Uns 90% de quem está ajudando aqui é voluntário, o restante é polícia, bombeiros, pessoal da saúde”, estimou ela, que pediu a doação de coletes sinalizadores para identificar os voluntários. “O pessoal curioso tem que ficar em casa. Quem está aqui é para trabalhar mesmo”, reforçou, pedindo também doações de gasolina e óleo diesel para as embarcações.

No ponto, botes e jet-skis de voluntários se juntavam a caminhões do Exército e embarcações dos Bombeiros, inclusive uma equipe que veio do estado de São Paulo, com 30 homens. Samu e as polícias Civil e Militar também atuavam na área. Até o meio da tarde, sete pessoas tinham sido presas por saques no entorno, segundo a Brigada informou à Matinal.

Sob a sombra da elevada, André Luís Barbosa da Silva Ferraz esperava o pai, de 67 anos. Na ponta do pé, ele olhava por sobre a multidão, em direção a Cairu, que se transformou em hidrovia. Mas não estava muito otimista, não por desacreditar no trabalho de resgate, mas porque o pai é uma das tantas pessoas relutantes em sair. 

Voluntários separam roupas doadas

Vias do São Geraldo estão debaixo d’água

De uma lado, resistência em sair de casa, de outro, falha nos alertas

Além do avanço da água, que chegou a complicar até a circulação de caminhões, quem atua diretamente nos resgates enfrenta a relutância de pessoas que ainda não querem deixar suas residências. “Tem muita gente dentro de casa, dizendo que não quer sair. A água está subindo, gente, por isso tivemos que trocar de base”, suplica Tatiana. Ela explica que antes estavam em uma casa de festas, no número 1487 da Cairu. No início da tarde, reorganizavam o centro da força-tarefa no corredor de ônibus sob o viaduto José Eduardo Utzig.

Morador do Humaitá, André saiu de casa com a esposa na tarde de sábado, com água já pela cintura. Naquele momento, o dique da Fiergs havia extravasado mais água, assustando a população com a rapidez com que a água começou a avançar. Por sorte, já tinha conseguido levar os filhos e a mãe para um lugar seguro ainda na sexta. Mas não conseguiu convencer o pai a sair. “Eu mesmo resisti um pouco. Se a gente soubesse… Como dizem por aí, informação é ouro. Se tivessem feito um alerta antes, de que o dique podia romper, eu teria saído na sexta, quando vi a água saindo pelo bueiro em frente de casa”, falou à Matinal

No domingo, o prefeito Sebastião Melo fez um alerta enfático de evacuação direcionado à população do Sarandi. Hoje, foi a vez dos moradores de Cidade Baixa e Menino Deus receberem a orientação do município de evacuação, mas que chegou depois que a água já invadia os bairros e alguns moradores já deixavam suas casas.

Pessoas que deixaram suas casas na região alagada caminhavam pela avenida Benjamin Constant

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