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Após tentativa fracassada, patinetes voltam à capital

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Após tentativa fracassada, patinetes voltam à capital Patinetes serão compartilhadas inicialmente no Centro | Foto: César Lopes / PMPA

Após onda no passado, serviço, que recentemente foi banido em Paris, retorna nesta sexta com nova empresa e a novidade de estações definidas para organizar as paradas dos veículos. Professor critica falta de integração com outros modais

Dentro de mais alguns dias, as patinetes compartilhadas deverão estar de volta ao cotidiano de parte de Porto Alegre. O retorno oficial será nesta sexta-feira, dia 27 de outubro, e ocorre cerca de quatro anos após um boom em diversas cidades, inclusive na capital gaúcha. Mas se a expansão foi meteórica, o declínio ocorreu em igual velocidade. 

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Queridinhas outrora, as patinetes retornarão não apenas sob novos questionamentos e regras, mas também mais pressionadas pelo desafio de integrar-se à rotina da mobilidade urbana. Novo prestador deste serviço em Porto Alegre, a Whoosh iniciará suas operações com 450 patinetes. Apesar de ter anunciado anteriormente a disponibilização em bairros como Bom Fim e Cidade Baixa, além da Orla, neste começo, os equipamentos estarão apenas no Centro Histórico.

Ainda assim, a ideia é expandir o número de regiões atendidas e também a quantidade dos veículos nos próximos meses. Uma das metas é chegar até o aeroporto. 

A empresa tem sede em Lisboa e atua ainda em outras dez cidades na Europa, onde informa disponibilizar mais de 20 mil patinetes compartilháveis. Além da experiência internacional, no Brasil também opera em Florianópolis, onde administra 1,3 mil patinetes . Em seu site, a apresentação é baseada na defesa da micromobilidade, possibilitando a chegada em destinos em até 15 minutos. “O nosso objetivo é preencher a lacuna entre uma caminhada de 10 minutos e passeios de 10 quilômetros.”

“É bom, mas é ruim”

Em entrevista à Matinal, o CEO da Woosh no Brasil, Francisco Forbes, ressaltou que o objetivo em Porto Alegre é colaborar com a chamada última milha – o termo utilizado para deslocamentos curtos, como de casa a uma parada de ônibus ou de uma estação de transporte público ao trabalho, por exemplo. “Falta uma solução de última milha. As bikes estão por aí para atuar. E a patinete vem para somar, uma outra opção ao público”, disse. 

Professor de mobilidade urbana no Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional na UFRGS, Júlio Celso Vargas tem outra perspectiva sobre esse ponto: “A última milha é justamente onde as pessoas vão caminhar”, apontou. “É uma coisa bem do capitalismo, qualquer oportunidade oferecer um produto ali para pagar e fazer negócio, e aí botar um veículo a mais na rua”, argumentou.

Por outro lado, o professor vê a volta das patinetes como uma possibilidade de implantação de “uma filosofia de multimodalidade”, que vai proporcionar benefícios mas também conflitos na calçada, a partir da divisão do espaço com os pedestres. “É bom, mas é ruim. Na nossa realidade, vai ser parcial, com problemas.”

Em relação ao uso da calçada, Forbes ressaltou que a Whoosh tem um diferencial na comparação com a prestadora anterior do serviço: as patinetes só podem ser estacionadas em determinados locais. As estações virtuais são definidas em conjunto com o poder público municipal, segundo ele. Evitam, assim, que os veículos possam ser deixados em qualquer local.

Para o CEO da Whoosh no Brasil, esse foi um dos principais calcanhares de Aquiles das patinetes da fase anterior, tanto para a cidade, em razão da desorganização causada nas vias públicas, quanto para a empresa, por conta dos custos logísticos ao ter que resgatar o equipamento, transportá-lo e recarregar a bateria antes de disponibilizá-lo novamente. 

“Era uma operação de guerra tirar a frota inteira e recolocar todos os dias”, observou ele, que garante que sua empresa tem tecnologia para não repetir esse cenário. “A frota inteira fica na rua o dia inteiro e só as baterias que são substitutídas”, citou ele, como outro diferencial em relação ao serviço anterior. “Temos uma equipe própria que fica trocando as baterias e organizando a cidade”, complementou. No site, a Whoosh sentencia: “Nós nos comprometemos a recolher as patinetes estacionados incorretamente dentro de algumas horas”. 

Forbes ainda destacou que a composição das patinetes são diferentes dos modelos anteriores, garantindo mais durabilidade. “Calculamos a depreciação das patinetes para cinco anos, mas a gente tem alguns operando há mais de sete anos. Os veículos a serem usados em Porto Alegre, garantiu ele, são novos, “tirados da caixa”. A bateria tem autonomia para percorrer 50 quilômetros. Segundo o executivo, a viagem média no mercado brasileiro é de 12 quilômetros. 

“Despachante da iniciativa privada” 

A integração entre a administração das cidades e a prestadora de serviços é outro ponto levantado pelo professor da UFRGS Júlio Celso Vargas, que faz críticas à prefeitura já por conta do anúncio da novidade. “A prefeitura é uma despachante da iniciativa privada. Ela anuncia que alguém vai abrir uma loja, que vão abrir um negócio. Não é parte de uma política de mobilidade”. 

A falta de integração – acrescentou o professor – somada ao preço (a partir do terceiro minuto, o uso da patinete torna-se mais cara que o ônibus) transforma as patinetes em algo de lazer. “Acaba sendo mais uma coisa de elite, parcial e absolutamente direcionada ao ente privado, além de não ser integrado ao sistema”, ressaltou. “Não tenho nenhuma expectativa de que (a patinete) reduza o uso do automóvel, mas pode diminuir a pedalada, a caminhada e até o uso do ônibus.” 

“O ideal seria que a prefeitura assumisse um planejamento e gerenciamento desta multimobilidade, com estímulo a outros modais que não o veículo (automotor), com políticas públicas de segurança, iluminação de forma integrada e planejada”, sugeriu. “Mas o prefeito diz explicitamente que não vai ordenar o capital. Ele abriu mão de planejar. Aí voltamos ao início: isso é um despachante”. 

Já Forbes acredita que a Whoosh têm potencial de retirar carros das ruas. Ele salientou que boa parte dos usuários na Europa possuem um passe, o que, defendeu, denota uma utilização recorrente. “O benefício é usar um equipamento que está sempre em ordem. Ele não é um serviço barato e não estamos para competir com o transporte público. A gente pode concorrer com carro e o aplicativo.”

Questionada pela Matinal sobre como pensa em integrar as patinetes ao sistema de mobilidade da capital, a Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana fez uma comparação com as bicicletas: “Assim como as bicicletas, as patinetes deverão ser mais presentes nos deslocamentos mais curtos. Dessa forma, assim como as bicicletas, a SMMU vê com bons olhos essa alternativa como substituição dessas viagens mais curtas que seriam feitas em modos motorizados”. 

A falta de uma regulamentação adequada foi um dos motivos pelos quais Paris aboliu as patinetes compartilhadas por aplicativo. A proibição teve início no mês passado, mas a decisão de interromper o serviço ocorreu no início do ano, a partir de uma votação popular. As patinetes estiveram envolvidas em 408 acidentes na capital francesa ao longo do ano passado, nos quais três pessoas morreram e 459 se feriram. 

Na coletiva sobre o encerramento do serviço, o secretário-adjunto para o transporte e mobilidades da prefeitura de Paris, David Belliard, reconheceu que a cidade-luz não conseguiu regular o setor, que se “aproveitou de uma brecha na legislação”, conforme reportou a Rádio França Internacional. “Estamos fazendo uma escolha pela simplificação, calma e organização do espaço público”, complementou

De blitze educativas a banimento

O risco de acidentes é destacado pelo professor Júlio Vargas: “Tu estás colocando um veículo motorizado nas ciclovias e/ou nas calçadas e isso tem gerado conflitos no mundo inteiro”, afirmou. Além de Paris, outros grandes centros europeus como Copenhague, Madri e Barcelona já adotaram alguma restrição à expansão das patinetes de aluguel. “Tem muitos mais acidentes com patinetes do que com bikes”, advertiu ele. Um estudo feito em Barcelona e publicado no ano passado chegou a definir os acidentes com patinetes como “uma nova epidemia” em razão dos diferentes tipos de fraturas e lesões constatadas, além de causar impactos econômicos no mercado de trabalho superiores a 1 milhão de euros.

O CEO da Whoosh no Brasil ressaltou que a empresa segue as novas regulamentações do Contran, que estão em vigor desde julho, com definições e características de veículos. Nesta resolução, as patinetes são classificadas como equipamento de mobilidade individual autopropelido e são autorizadas a trafegar até no máximo 32 km/h.

De acordo com ele, as patinetes estão equipadas com luzes e buzina, ainda que não disponham de capacetes. Como incentivo, o usuário que lê o manual de regras e orientações de segurança disponibilizado no aplicativo, ganha um desbloqueio grátis. 

A SMMU não especificou à Matinal se haverá uma forma de fiscalização diferenciada para o uso das patinetes. Garantiu apenas seguir o Código de Trânsito Brasileiro e a resolução do Contran, que autoriza patinetes a circularem “em áreas de circulação de pedestres, ciclovias e ciclofaixas de acordo com a regulamentação de cada cidade”. De acordo com a secretaria, Porto Alegre ainda estava elaborando a sua regulamentação até a última semana. 

Para Forbes, a saída para mais segurança está em um trabalho educacional. Ele citou que a empresa já promoveu, em conjunto com o órgão de trânsito em Florianópolis, blitze educativas em regiões que identificaram que há mais acidentes. “Se soubermos que estão fazendo mau uso da patinete, eventualmente podemos até bloquear o usuário”, garantiu. A identificação se torna possível por conta da instalação de placas em cada um dos veículos a serem alugados. 

Chuva atrasou início da operação 

O anúncio que a Whoosh começaria a operar em Porto Alegre ocorreu em agosto, durante o seminário Iclei. Na ocasião, o prefeito Sebastião Melo (MDB) chegou a afirmar que o serviço estaria disponibilizado à população em setembro. O mês, no entanto, serviu para a regulamentação da funcionalidade junto à Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana. Não fossem as enxurradas que atingiram Porto Alegre, as patinetes teriam ido para as ruas em 1º de outubro, mas as chuvas chegaram a atingir o galpão da empresa na capital, ocasionando o atraso.


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