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Um ano do caso Beto Freitas: funcionários de supermercados queixam-se de ineficácia ou inexistência de ações afirmativas

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Um ano do caso Beto Freitas: funcionários de supermercados queixam-se de ineficácia ou inexistência de ações afirmativas Supermercado Carrefour onde Beto Freitas foi morto em 2020 | Foto: Foto: Reprodução/Google Maps

Reportagem ouviu trabalhadores de Zaffari e Big, além do Carrefour, onde João Alberto Freitas foi espancado por seguranças até a morte na véspera do Dia da Consciência Negra de 2020

Um ano depois do assassinato de João Alberto Freitas, homem negro espancado até a morte em um Carrefour de Porto Alegre, a empresa reafirma seu compromisso com as novas políticas de afirmação e de valorização do povo negro. Mas por trás do discurso, ainda há funcionários insatisfeitos com as propostas. Em outras redes da cidade, trabalhadores afirmam desconhecer quaisquer ações com o objetivo de evitar que um caso semelhante ao de Beto aconteça novamente.

Funcionário do Carrefour, C., que é negro, disse à reportagem que é preciso mais respeito com os trabalhadores negros. “Melhorou um pouco, mas ainda não é o suficiente. O que existe de fato é apenas uma placa no interior da loja pedindo ‘respeito’, mas isso é da boca para fora. Nós não temos lideranças negras na empresa, por exemplo. Não há em quem se espelhar”, afirmou. 

Outra funcionária negra do Carrefour do Passo D’Areia, G. relatou que foi vítima de injúria racial feita por um cliente, mas decidiu não prestar queixa com medo das consequências. A agressividade de clientes na loja teria aumentado, segundo I., outra trabalhadora do hipermercado. “A gente até é pega de surpresa. Não podemos fazer nada para não bater de frente, mas as pessoas não entendem que não temos nada que ver com o que aconteceu”, disse em referência à morte de Beto Freitas. “São raros os dias em que não somos ofendidas. Já ouvi até coisa do tipo: ‘ah eu não vou te falar nada, senão tu vais me matar também'”. 

Em outro supermercado de Porto Alegre, o BIG, os relatos são de que não houve elaboração de políticas afirmativas para funcionários negros, segundo a funcionária negra A. “Aquilo que aconteceu no Carrefour pode acontecer em qualquer lugar. Aqui, estamos sempre expostos, mas não fizeram nada. Não surgiu uma liderança que abrisse um diálogo conosco sobre o assunto, sobre o que poderia ser feito, o que poderia mudar a partir daquilo tudo. Eu até me sinto desmotivada porque nós também merecemos atenção”, completou. 

R., que também trabalha no BIG, queixa-se dos processos de seleção interna. “Nos últimos tempos, tivemos várias pessoas sendo promovidas, mas nenhuma delas era negra. O padrão é sempre o mesmo: branco. Não importa se é o ‘cara magrinho do cabelo colorido’ ou a ‘loirinha dos olhos verdes’. A escolha é sempre a mesma”, afirmou. 

Segundo R., o número de funcionários negros no total e em cargos de liderança não é alto. “Todos os funcionários que foram contratados para cá nos últimos seis meses são brancos. Temos colegas negros com mais tempo de casa que tentaram um novo cargo e foram preteridos por outros, que são brancos, mas que têm intimidade com a chefia”, pontuou. A reportagem entrou em contato com a empresa, mas não obteve retorno até o fechamento.

O panorama não é muito diferente em lojas do Grupo Zaffari, que, desde o episódio envolvendo Beto Freitas, não teria criado políticas afirmativas dentro de suas dependências, segundo relatos de funcionários ouvidos pela reportagem. “Não foi falado nada para gente desde que aconteceu [o assassinato de Beto]. O que foi comentado aqui foi apenas o quão horrível foi, de como o João Alberto foi perseguido e morto, mas tudo entre nós funcionários. Faltou alguma palavra sobre isso, sobre valorização de funcionários negros”, afirmou T. O Matinal também tentou contato com o Grupo Zaffari, sem sucesso.

Já L. entende que uma eventual ação afirmativa poderia assegurar mais igualdade. “Acho que deveria ter, sem dúvida alguma. Todos merecem uma chance, seja negro, branco, homem ou mulher. Deveria ter até para que se possa viver em um ambiente de empatia e respeito”, considerou.

“Não tínhamos o conhecimento que temos hoje”

Em entrevista ao Matinal, a diretora de Recursos Humanos e Diversidade do Grupo Carrefour Brasil, Cristiane Lacerda, explicou que as ações implementadas pela empresa vão além do período de três anos estabelecido pelo Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). “A nossa intenção é mostrar que as nossas ações são genuínas, são verdadeiras. As iniciativas não podem ficar apenas nestes três anos, não podem ter um caráter temporário, precisam ficar para sempre”, disse. 

O diretor de Segurança Corporativa e Gestão de Perdas e Riscos do Grupo Carrefour, Claudionor Alves, seguiu a mesma linha de Lacerda ao comentar que a postura antirracista também se estende aos fornecedores. “Qualquer ação que citarmos aqui não pode ser pontual, ela precisa ser contínua. Revisitamos os contratos de todas as empresas com as quais trabalhamos para assegurar a manutenção das nossas novas práticas”, destacou.  

Conforme a empresa, a loja situada no bairro Passo D’Areia teria passado por grandes transformações, que vão desde a política de tolerância zero com a discriminação racial até a implementação da tecnologia de body cams (câmeras corporais), inclusive com a modifcação dos uniformes dos seguranças, abandonando uma postura ostensiva. Os vigilantes, agora chamados de “agentes de prevenção”, são contratados diretamente pelo Carrefour. 

Questionados sobre o que faltou no Carrefour para que se evitasse a morte de Beto Freitas, tanto Lacerda quanto Alves acreditam que a experiência e o rigor na avaliação de empresas terceirizadas poderiam ter mudado o rumo da história. “Talvez não estivéssemos tão preparados para aquilo que aconteceu. Não tínhamos todo o conhecimento que temos hoje e também não tínhamos o mesmo rigor para lidar com as terceirizadas que temos agora”, colocou Lacerda. “O que ocorreu em Porto Alegre serviu de lição para que a gente pudesse desenvolver todas as ações necessárias para a causa antirracista. E não apenas isso: estabelecemos que todos os funcionários precisam estar comprometidos com as nossas diretrizes”, finalizou Alves. 

Desconhecer a luta antirracista é injustificável 

Para a relações públicas e doutoranda em Sociologia Daniela Santos, o desconhecimento da luta antirracista alegado pelo Carrefour não é justificável. “Mostra que essa empresa não teve consideração com as coisas que aconteceram na sociedade. A luta antirracista existe desde o momento em que o primeiro negro pisou neste lugar. No final da década de 70, o movimento negro passou por uma reestruturação e está presente desde então. Nos últimos dez anos, estamos discutindo cotas nas universidades e, além disso, muitas pessoas ganharam voz através das redes sociais”, explicou. 

Um ponto que chamou atenção de Santos nos relatos dos funcionários é o fato de uma trabalhadora não se sentir à vontade para denunciar um crime de injúria racial. “Ela sabe que é o elo mais fraco da história. Há sempre a situação de que o cliente é quem sempre tem razão, principalmente se o trabalhador é negro. Além disso, há também a necessidade. Quem está ali, diariamente, é porque não pode abrir mão da renda que tira daquele serviço, então acaba se submetendo a certas situações. Acho ruim que ela, nem de forma anônima, tenha feito alguma manifestação, tal é o medo de perder o emprego”, destaca. 

Santos considera que as empresas ainda não praticam plenamente o conceito de diversidade. Segundo a pesquisadora, compor um quadro de funcionários diverso não é apenas escolher pessoas com determinado perfil. “Dizer que uma empresa é diversa significa que ela tem diferentes visões de mundo. Para que isso realmente funcione, essa diferenciação precisa estar presente nas lideranças, nos postos em que decisões são tomadas”, explica. 

Novas decisões

Dados da Delegacia de Combate à Intolerância de Porto Alegre apontam que, desde que foi inaugurada em dezembro de 2020, foram registrados pelo menos 202 boletins de ocorrência por injúria racial. Junto com as outras 36 ocorrências gerais por preconceito de cor ou raça, as ofensas raciais respondem por mais da metade das 455 ocorrências na delegacia especializada. Apesar disso, são poucas as denúncias que acabam em condenações na Justiça, sobretudo se forem contra grandes estabelecimentos comerciais.

Em janeiro deste ano, uma reportagem do Matinal mostrou que as empresas Carrefour, BIG e Zaffari tinham sido condenadas pelo menos sete vezes em casos de racismo e outras agressões contra clientes e funcionários. Um novo levantamento indica que, em 2021, apenas duas ações por racismo em estabelecimentos comerciais foram julgadas na segunda instância do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul (TJ-RS). Além disso, duas lojas foram condenadas por danos morais em situações de violência contra mulheres – uma de assédio sexual e outra de agressão física.

Role o infográfico para baixo para ler na íntegra. Você também pode selecionar por tipo de crime

Em um dos processos por racismo, um casal de clientes diz ter sido acusado de furto durante uma abordagem de seguranças das Lojas Renner, em um shopping do município paraibano de Campina Grande, em 2019. A ação foi rejeitada em 17 de fevereiro de 2021 pelo 3º Juizado Especial Cível de Porto Alegre, cidade sede da empresa. A decisão inicial considerou a “ausência de qualquer instrumento probatório” que comprovasse a discriminação racial, mas houve uma mudança de entendimento quando o caso foi apreciado pela 4ª Turma Recursal Cível em 24 de setembro deste ano. Segundo os desembargadores, a empresa não forneceu a íntegra das gravações às autoridades, o que impediria a verificação do teor da abordagem dos seguranças. “Parece evidente que a apresentação parcial foi percebida pela requerida (para não dizer produzida), mas ignorada porque assim lhe convinha”, apontou o desembargador Luis Antonio Behrensdorf Gomes da Silva. O tribunal mandou o processo voltar à audiência de instrução para que a Renner apresente todas as imagens – caso contrário, a justiça vai entender a omissão do material como confissão de culpa por parte da empresa.

Já em outra ação julgada em 29 de setembro, uma mulher conta que sofreu assédio sexual por parte de um segurança das Lojas Americanas logo depois de pedir informações sobre um produto. O caso ocorreu na rua Dr. Flores, no Centro Histórico, em janeiro de 2018. Segundo os autos do processo, a cliente “sentiu um celular tocando sua perna e se surpreendeu com um disparo de um ‘flash’, percebendo que o funcionário fotografara suas nádegas”. A mulher registrou boletim de ocorrência e fez pedido extrajudicial para obter acesso às gravações das câmeras do local, o que foi negado pela empresa sob o argumento de não poder ser induzida a produzir provas contra si mesma. Em sua decisão, a 9ª Câmara Cível do TJRS deu razão à vítima e condenou as Lojas Americanas ao pagamento de R$ 20 mil a título de indenização por danos morais.

* Os nomes foram omitidos para preservar os funcionários.

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