Ensaio, Parêntese

Álvaro Magalhães: “Mas quem é esse Araújo Vianna”?

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Álvaro Magalhães: “Mas quem é esse Araújo Vianna”? A ingênua mas certeira pergunta do título foi feita por ninguém mais ou menos do que João Gilberto no momento em que umas três mil e quinhentas pessoas esperavam pelo mais aguardado show musical da história de Porto Alegre. Exageros? Nem tanto, creio. Vejamos, com carinho. Naquele 18 de outubro de 1996, a “leal e valorosa” cidade de Porto Alegre recebia um dos maiores artistas da história do Brasil. “Ele está no meio de nós” gritava a manchete do jornal Zero Hora, em justa homenagem. João Gilberto é um deus da nossa música, se politeísta fosse uma suposta religião da modernidade brasileira, claro. O fato é que ele é um dos mais puros exemplos do modernismo brasileiro, considerando todas as manifestações do nosso modernismo. Alguma dúvida? Colocar o João Gilberto no mesmo patamar de heróis como Oscar Niemeyer, Tom Jobim, Villa-Lobos ou Radamés Gnatalli não é exagero. O quê? Radamés Gnatalli nesse panteão de heróis da pátria? Sim, Radamés foi um grande no modernismo brasileiro. Para quem não o conhece, parafraseando o Paulinho Moreira, Radamés – que foi batizado assim por causa do herói da ópera de Verdi criada para a inauguração do Canal de Suez, há exatos 150 anos – foi um grande músico brasileiro nascido em Porto Alegre. Na história da música dos nascidos em Porto Alegre figura entre os três maiores, ao lado de Elis Regina e Lupicínio Rodrigues. Certo? Só parcialmente: só se nos referirmos a músicos modernos, como foram Elis e Lupicínio e são tantos e tantas contemporânexs nossos ainda vivos. Radamés foi para o Rio de Janeiro como voluntário na maior epopeia gaúcha: a chamada Revolução de 1930. Essa sim, foi uma façanha; já Radamés marchou com chimangos e maragatos unidos a Getúlio Vargas em um movimento que criou o Estado Moderno no país. Isso está contado no ótimo livro de Aluísio Didier sobre Radamés, que começa, por sua vez, assim: “vale o risco: Radamés Gnattali é o músico mais completo da história da música brasileira”. É mole? Nosso herói porto-alegrense era filho de italiano com mãe judia-alemã (que lhe ensinou piano). Além de ótimo compositor (inclusive de trilhas para cinema), foi grande também como pianista e arranjador. Criou a Orquestra da Rádio Nacional, talvez o mais importante projeto do governo brasileiro na área da Cultura, pois “vestiu” a nascente música popular brasileira. Sim, Radamés foi um dos artífices de um lance de mestre do modernismo brasileiro: tornar o samba carioca a música nacional brasileira. Villa Lobos, Tom Jobim e João Gilberto, como “todos” até hoje, o consideravam um dos grandes. Sim, mas o que tem Araújo Vianna com essa história? Quem é esse tal de Araújo Vianna? Pois o tal José de Araújo Vianna foi um grande compositor de música de concerto, em especial de óperas, como a Carmela, apresentada no Theatro São Pedro em 1902, e depois no Rio de Janeiro. Dizem que na hierarquia dos compositores da época ocupou lugar semelhante ao ocupado pelo Bixo da Seda na hierarquia do rock […]

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A ingênua mas certeira pergunta do título foi feita por ninguém mais ou menos do que João Gilberto no momento em que umas três mil e quinhentas pessoas esperavam pelo mais aguardado show musical da história de Porto Alegre. Exageros? Nem tanto, creio. Vejamos, com carinho. Naquele 18 de outubro de 1996, a “leal e valorosa” cidade de Porto Alegre recebia um dos maiores artistas da história do Brasil. “Ele está no meio de nós” gritava a manchete do jornal Zero Hora, em justa homenagem. João Gilberto é um deus da nossa música, se politeísta fosse uma suposta religião da modernidade brasileira, claro. O fato é que ele é um dos mais puros exemplos do modernismo brasileiro, considerando todas as manifestações do nosso modernismo. Alguma dúvida? Colocar o João Gilberto no mesmo patamar de heróis como Oscar Niemeyer, Tom Jobim, Villa-Lobos ou Radamés Gnatalli não é exagero. O quê? Radamés Gnatalli nesse panteão de heróis da pátria? Sim, Radamés foi um grande no modernismo brasileiro. Para quem não o conhece, parafraseando o Paulinho Moreira, Radamés – que foi batizado assim por causa do herói da ópera de Verdi criada para a inauguração do Canal de Suez, há exatos 150 anos – foi um grande músico brasileiro nascido em Porto Alegre. Na história da música dos nascidos em Porto Alegre figura entre os três maiores, ao lado de Elis Regina e Lupicínio Rodrigues. Certo? Só parcialmente: só se nos referirmos a músicos modernos, como foram Elis e Lupicínio e são tantos e tantas contemporânexs nossos ainda vivos. Radamés foi para o Rio de Janeiro como voluntário na maior epopeia gaúcha: a chamada Revolução de 1930. Essa sim, foi uma façanha; já Radamés marchou com chimangos e maragatos unidos a Getúlio Vargas em um movimento que criou o Estado Moderno no país. Isso está contado no ótimo livro de Aluísio Didier sobre Radamés, que começa, por sua vez, assim: “vale o risco: Radamés Gnattali é o músico mais completo da história da música brasileira”. É mole? Nosso herói porto-alegrense era filho de italiano com mãe judia-alemã (que lhe ensinou piano). Além de ótimo compositor (inclusive de trilhas para cinema), foi grande também como pianista e arranjador. Criou a Orquestra da Rádio Nacional, talvez o mais importante projeto do governo brasileiro na área da Cultura, pois “vestiu” a nascente música popular brasileira. Sim, Radamés foi um dos artífices de um lance de mestre do modernismo brasileiro: tornar o samba carioca a música nacional brasileira. Villa Lobos, Tom Jobim e João Gilberto, como “todos” até hoje, o consideravam um dos grandes. Sim, mas o que tem Araújo Vianna com essa história? Quem é esse tal de Araújo Vianna? Pois o tal José de Araújo Vianna foi um grande compositor de música de concerto, em especial de óperas, como a Carmela, apresentada no Theatro São Pedro em 1902, e depois no Rio de Janeiro. Dizem que na hierarquia dos compositores da época ocupou lugar semelhante ao ocupado pelo Bixo da Seda na hierarquia do rock […]

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