Crônica, Parêntese

Como o Twitter arranjou um jeito de me punir pela invasão do Capitólio

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Como o Twitter arranjou um jeito de me punir pela invasão do Capitólio

Eu, Luiz Antônio Araujo, brasileiro, casado, jornalista, sou até o momento o único punido pela invasão do Capitólio. No dia 6 de janeiro, assistia pela CNN às cenas bizarras incitadas pelo presidente Donald Trump quando topei com uma imagem da mesa da presidente da Câmara de Representantes, Nancy Pelosi. Sobre o tampo, um manifestante deixara um bilhete em letras maiúsculas numa caligrafia de colegial: “Nós não vamos recuar” (“We will not back down”). 

Lembrei da série The Office, na qual empregados de uma firma de comércio de papel passam boa parte do tempo rabiscando recados, preparando confraternizações e fazendo reuniões sem sentido. Aquela cena poderia ter ocorrido na filial de Scranton da Dunder Mifflin (fãs entenderão). Tuitei: “Não sei vocês, mas para mim a da esquerda parece mais a mesa de Dwight Schrute do que a original”. E anexei ao tuíte as imagens das mesas de Pelosi e de Dwight, o único personagem de The Office que participaria com certeza do ataque ao Capitólio.

Minutos depois, tive minha conta bloqueada pelo Twitter. Disseram os administradores: “Luiz Antônio Araujo, sua conta @luizaraujojor foi bloqueada por violar as Regras do Twitter. Especificamente pela: violação das nossas regras contra a publicação de informações privadas. Você não pode publicar ou postar informações privadas de outras pessoas sem sua autorização e permissão expressas”. No caso mencionado, não posso me submeter à regra em questão. Se tivesse “autorização e permissão expressas” de Pelosi e Dwight para qualquer coisa, obviamente publicaria a própria autorização. A primeira, por ser a mulher que deu início ao segundo processo de impeachment de um presidente dos Estados Unidos no intervalo de um ano. O segundo, por ser um personagem de ficção – todos que já tentaram arrancar algo desse tipo de criatura sabem o quanto é difícil. 

Até o momento, o Twitter não respondeu aos meus recursos. Especialistas dizem que só terei o perfil de volta se fizer barulho. Cismei de passar longas horas diante do computador contemplando minha conta. É como uma múmia congelada em 6 de janeiro. Não deixa de ser uma forma singela de lembrar que aquele dia, de fato, não acabou.

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