Crônica

A arte que nos sonha ou o amor de palafitas

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A arte que nos sonha ou o amor de palafitas

O que faz Veneza bela aos meus olhos está submerso. Uma cidade fundada na junção de ilhotas lamacentas e palafitas centenárias estruturada com pinheiros vindos do norte torna o impensável e o absurdo realidade.

A cidade insular mostra orgulhosa os desejos mais insanos e sem qualquer segurança, como é da natureza de um desejo, sustentando-se no tempo, mesmo quando quem os desejou não está mais lá. Mas fica a obra. Forma um corpo. Um corpo capaz de se metamorfosear da força da relação viva entre indivíduos e tecnologias e vontades. Não por menos esse é um ponto de convergência das obras da 59a. Bienal de Arte de Veneza. 

Andar por Veneza me faz pensar no quanto queremos agarrar algumas sensações para sempre enquanto elas nos escapam como areia quente entre os dedos. Os seus labirintos sempre me cochicham que aquele pode ser meu último passeio. Afinal, ela está no nível do mar, afinal são palafitas, afinal o tempo nos devora, afinal, talvez, eu não exista mais no próximo ano, há final. Sempre há um fim. E me vejo com pressa. Mas, de fato, é o ultimo passeio. Não querendo ser clichê e já sendo: nem eu, nem Veneza nos encontraremos do mesmo jeito novamente. Algo fica, algo vai. Essa meta-morfose parece ser o enigma da esfinge que nos devora. 

O paradoxo é que não há tempo para a arte. Tom Zé lança o álbum “A língua brasileira” no auge dos seus 84 anos, Elza Soares cantou até o ultimo suspiro e tinha quase 100 anos. Essa potência criativa parece enganar Cronos. Criar é um ato de resistência ou “simplesmente” (com grandes aspas aqui): existência. Minha sensação andando pelas instalações era deste passado estar a bater à porta e a rir de nós abraçado ao futuro. Talvez queiram nos dizer algo. Parecem nos espreitar ansiosos por algum movimento com sentido. Alguma metamorfose urgente a nos escapar, talvez, sempre um talvez. Todo mundo espera algo, até o tempo. 


Pavilhão polonês (Imagem extraído de vídeo realizado por Samantha Buglione)

Pelos corredores da Bienal era possível ver instalações com algoritmos, sistema embarcado e inteligência artificial, bem próximos da instalação da artista Małgorzata Mirga-Tas, da Polônia, com gigantescas estamparias. O Egito trouxe o que lembra grandes úteros suspensos cuidados por uma IA. Será o futuro?


Instalação do Egito (Foto: Samantha Buglione)

A Grécia atualiza o mito de Édipo em realidade virtual. Uma hora eu bati no rosto para espantar uma mosca imaginária. Será? Os pés inchados, sentido de Oedipus (Edipo), ao fugir do seu destino o realiza. Andamos em círculos, não? Se sim, não seria o passado o futuro do futuro e o presente o futuro do passado? Dá medo, eu sei. Ou a gente se metamorforseia ou repete. Talvez por isso Goethe, no seu livro Metamorfose das Plantas, gostasse quando algo saía da linha.

A China, que na Bienal de 2019 mostrou saber exatamente quem você é e onde você está, nesta edição usou a poesia para criar o seu “Scape”. A literatura não é inofensiva e o recado parece claro. “Scape” é uma estrutura de entendimento, como descrito por eles, criada pela nação chinesa a fim de compreender e transformar o marco civilizatório estabelecido. 

O que Liu Jiayu, Wang Yuyang, Xu Lei, o CAFA e o Institute of Sci-Tech Arts+Tsinghua Laboratory of Brain and Intelligence [TLBI] Group Project, responsáveis pela obra, nos mostram? O encontro entre tempos, uma meta proposta. Meta como “além de”, não mais a metafísica aristotélica, mas a meta capaz de ir além do marco atual e, quem sabe, integrar humano-tecnologia-natureza. O laço é feito pela poesia, pela delicadeza da palavra. No início era o Verbo, “e o verbo se fez carne e habitou entre nós” (João 1:1-18). Não, a instalação chinesa não cita a bíblia cristã, mas impossível eu não lembrar dessa passagem.  

Se por um lado Veneza é a prova da fragilidade, por outro a questiona. Se o tempo nos devora a Bienal deste ano oferece um banquete a ser saboreado por todos. Um banquete composto por três partes. A exposição central organizada no Giardini, um grande jardim público onde é possível se deliciar com o som das cigarras na cidade sem carros. No Giardini também ficam as instalações de dezenas de países, cada um oferecendo o trabalho de um ou mais artistas. A segunda parte do banquete está no Arsenale, um antigo estaleiro da cidade, que recebe países e artistas. A terceira são as instalações espalhadas pela cidade, muitas com entrada gratuita. 

Sem sombra de dúvidas Veneza com sua Bienal é o meu caso de amor de sucesso; aquele que transborda o tempo e resiste a mim e ao cotidiano devorador. Veneza me olha devagar, me deixa andar pelos seus cantos, me surpreende nos detalhes e se confessa com um segredo desvelado. Por uma fração de dias a louça suja e a falta de uma máquina de lavar roupa, o saldo bancário que vai aos poucos negativando, o governo do meu país, a guerra, as ansiedades sobre quem sou eu e para onde devo eu ir, se redimensionam e parece ser possível respirar com mais vagar. 

Tudo se metamorfoseia, até mesmo os medos e as coragens. Nada do cotidiano deixa de existir, tampouco me esqueci dele em um delírio dionisíaco, ou por causa do privilegio de saborear um desejo. Mas veja, estou apenas a confessar algo: não há fuga diante de um amor, ele tudo redimensiona. A arte tem esse poder. Ela flerta com a morte e com o tempo. Recria e redefine espaços. 

A consequência? Ninguém perece igual. E é esse balançar tantas vezes cantado por Elza Soares que causa abalos na alma capazes de serem suportados apenas por palafitas. Palafitas têm movimento. Algo demasiado fixo quebra para sempre. E Veneza está lá, firme na sua fragilidade, como um caso de amor. Grécia, Egito, China e Polônia mostram que uma linha numa agulha é tecnologia tanto quanto um óculos de realidade virtual e IA. E nos fazem duvidar do que vemos e a desejar o impensável, até aquele momento. Esse é o encontro que a arte promove. E o verbo encarna. 

A beleza de Veneza esconde sua força submersa. Nem tudo é glamour e glitter. Alguns encontros são abissais e vertiginosos. Em Veneza com sua Bienal somos todos estrangeiros. E é importante percebermos isso. Algo nos escapa sempre. Mesmo sendo sempre muito tempo. Mas a perversão da arte traz novas chances e novos escapes. Os encontros só acontecem se há espaço, e as metamorfoses, desejo. Assim, mesmo com a pilha de roupa para dobrar, a arte reserva a um lugar para sonhar. Sonhar é verbo que subverte.


Samantha Buglione – Psicanalista membro da Fórum do campo lacaniano Brasil, escritora, doutora em ciências humanas. www.samanthabuglione.com.br

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