Crônica

A resistência

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A resistência

Tem um episódio dos Simpsons em que o Homer está no leito do hospital e alguém pergunta como ele está se sentindo. Ele responde que não pode nem se queixar. E, na sequência, a gente percebe que aquela resposta não é só uma mera força de expressão: de fato, bem ao lado do leito, fixada na parede do quarto, uma placa imperiosa diz o seguinte: “não se queixe”.

E foi assim mesmo que a gente se sentiu a vida todinha.

Não faz tanto tempo assim que a chamada “meritocracia” figurava tão inquestionável como o próprio sol de cada dia no imaginário da maior parte das pessoas. Toda santa manhã, qualquer oprimido — por mais afastado que estivesse da academia e dos debates intelectuais sobre a opressão que lhe era infligida, por menor que fosse a sua intimidade com o próprio termo “meritocracia” —, qualquer oprimido, toda santa manhã, antes mesmo de sair à rua e experimentar o peso do sol sobre os seus ombros, ainda deitado na cama, já abria os olhos tendo que lidar de alguma forma com a pesada sensação de fracasso absoluto. Afinal, uma vez que a “verdade” dizia que aquele possuidor de tudo era genuíno merecedor das próprias posses, enquanto aquele desprovido até mesmo das coisas mais básicas imagináveis fizera por merecer a própria situação de precariedade, não sobrava qualquer espaço para queixas. Era mesmo como se a meritocracia nos dissesse: “não se queixe, porque a culpa de tudo é sua, e somente sua”.

Foda. Tempo de sopa com osso, como diz o outro.

Lembro bem dessa época. Era feio não ter. Era feio não poder. Era feio não comprar. Era feio não gastar. Qualquer demonstração de pobreza representava automaticamente uma autodeclaração de incompetência. Ser pobre ou experimentar dificuldades não tinha graça nenhuma, e então eu e o meu povo fazíamos o que estivesse ao nosso alcance para ocultar a nossa condição, que era justamente essa, de extrema pobreza e de severas dificuldades. Na quebrada, tudo bem andar de chinelo já remendado com prego, camisa já toda furada e bermuda já toda arregaçada; mas tínhamos que possuir pelo menos um par de tênis bom, uma camisa polo intacta e uma calça de brim invejável para as idas ao Centro, para as entrevistas de emprego, para qualquer ocasião especial ou na qual entrássemos em contato com pessoas que não nos conheciam. Deus nos livrasse de pensarem que éramos o que, na verdade, realmente éramos: pobres. Ao mesmo tempo, abraçando todos os protagonismos que se pode imaginar de todas as esferas sociais que se pode imaginar, havia quem fizesse toda a questão de ostentar o champanhe, os morangos com chantilly, a estante elegante repleta de livros caros, a matrícula dos filhotes no colégio particular e a porta da geladeira repleta de danoninhos, como diria a minha amiga Silvana.

É. Mas acontece que, agora, eis que as coisas mudaram de figura. Revelada como a falácia que realmente é e que realmente sempre foi, a chamada “meritocracia” caiu por terra, e os valores se inverteram de uma hora para a outra. Agora, é legal admitir tanto uma pobreza atual como uma origem pobre. Agora, é legal falar sobre as dificuldades do presente ou do passado. Agora, o que se ostenta é o corote, e não mais o champanhe; o que se ostenta é o bolo feito com bananas passadas para evitar o desperdício, e não mais os morangos com chantilly; o que se ostenta é uma visita a uma biblioteca comunitária lá onde Judas perdeu as meias, e não mais a estante elegante repleta de livros caros; o que se ostenta é o respeito e a luta pela educação pública, e não mais a matrícula dos filhotes no colégio particular; o que se ostenta é a despensa vazia, e não mais a porta da geladeira repleta de danoninhos.

No meio disso tudo, o que se observa é uma extrema dificuldade dos privilegiados de sempre em largar o osso. Aqueles que sempre foram protagonistas em tudo querem protagonizar também o próprio levante da massa que até ontem era oprimida por eles mesmos. Do dia para a noite, deixaram de falar sobre as badaladas viagens ao exterior na vida adulta para falar sobre supostas dificuldades financeiras na juventude. Do dia para a noite, deixaram de falar sobre a Cidade Baixa e sobre o Bom Fim para falar sobre a Restinga e sobre a Lomba do Pinheiro. Do dia para a noite, deixaram de andar com os figurões pomposos da cidade para andar com o pessoal descolado da quebrada. Caralho, querem o papel principal na nossa própria história!

Até aqui, por questão de organização do texto, tenho falado só na perspectiva de classe, mas todos os recortes sociais estão contemplados por essa vergonhosa indecência. Abram os olhos: não é apenas a classe média que está colocando os desvalidos na cacunda como quem não quer nada. Por exemplo, todo 8 de março, dia internacional da mulher, uma rápida passeada nas redes sociais e nos veículos de notícias já basta para nos enojarmos com a quantidade de homens desconstruídos e sabichões prontos a falar tudo de bom sobre as mulheres com base em uma montanha teórica, mas — e aí me incluo, em autocrítica — incapazes de abandonar o seu espaço de poder em favorecimento das mulheres, incapazes de abrir mão do próprio discurso para deixarem que as mulheres falem por si mesmas, incapazes até de lavar a própria louça e a própria cueca no recôndito do lar. Da mesma forma, o que mais se vê por aí são brancos especialistas nas questões étnico-raciais que, por conta de toda a sua expertise, ocupam lugar de destaque nas discussões sobre os negros e sobre os indígenas, enquanto os próprios negros e os próprios indígenas, escanteados, ficam com cara de “olha lá o balão”, como diria a minha mãezinha Rita Helena.

Enquanto isso, a esquerda de soja — que, não por acaso, compartilha da mesma aversão ao PT que a extrema direita —, tem a cara de pau de lambuzar-se nas transformações sociais progressistas dos últimos tempos, fingindo não se lembrar que foram as políticas de ações afirmativas implementadas nos governos Lula e Dilma que possibilitaram essas mesmas transformações, fingindo não se lembrar que, se as portas das Universidades não tivessem sido abertas ao povo pelo PT, simplesmente não estaríamos debatendo o racismo estrutural da forma ampla como debatemos hoje em dia, simplesmente não estaríamos debatendo o machismo estrutural da forma ampla como debatemos hoje em dia, enfim, simplesmente não estaríamos problematizando os recortes sociais da forma ampla como problematizamos hoje em dia. É claro que o PT foi bastante pressionado pelos movimentos sociais, mas essa mesma pressão, aplicada aos governos anteriores, nunca tinha surtido qualquer efeito. 

Desde o Bolsonaro, muito tem se falado em “resistência”. Eu próprio confesso ter levantado essa bandeira, inclusive. Mas ultimamente tenho pensado comigo mesmo que talvez não faça muito sentido falar em “resistência”. A resistência é deles. A resistência é de quem não quer perder os privilégios e o protagonismo. A resistência pertence a quem não consegue engolir a amplitude e a profundidade que o conhecimento, a reflexão e os debates têm tomado no seio do povo brasileiro justamente por causa das políticas de ações afirmativas implementadas nos governos Lula e Dilma. Da direita à esquerda de soja, passando pelos isentões, a resistência é de quem não aguenta perder o lugar de destaque para um pé-rapado, para uma mulher, para um negro, para um indígena, para um gay, para uma pessoa trans.

Abram o olho com a resistência.


José Carlos da Silva Junior nasceu e vive na Lomba do Pinheiro, periferia de Porto Alegre. Adotou o pseudônimo “José Falero” em homenagem à mãe, de quem herdou a veia artística, mas não o sobrenome. É escritor, autor de Vila Sapo (Venas Abiertas, 2019) e participante das antologias À margem da sanidade (J. Vellucy, 2018) e Ancestralidades: Escritores Negros (Venas Abiertas, 2019). Trabalha como auxiliar de gesseiro para não morrer de fome, e toca cavaquinho para não morrer de tristeza.

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