Crônica

Andar de ônibus em Porto Alegre

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Andar de ônibus em Porto Alegre (Foto: Maria Ana Krack/PMPA)
Já faz alguns anos, tomei uma decisão muito sábia: abandonei o carro e passei a andar teoricamente de ônibus. Digo “teoricamente” não por efeito de retórica. É que cada vez que saio de casa, com planos de ir a algum lugar, alimento a firme disposição de usar o transporte coletivo, chego até a separar os trocados para pagar a passagem, vou até a parada, espero, espero, espero. E pego um táxi.  Não quero, com isso, acusar nenhum problema no nosso tão eficiente sistema de transporte. Eu é que sou um sujeito muito ansioso, não consigo ficar mais de uma hora no mesmo lugar sem fazer nada. Mas eu nem sempre fui assim, por isso, sei que essa intolerância à espera me priva de experiências muito positivas, como, por exemplo, fazer novas amizades. Grande parte dos amigos que tenho hoje no Facebook, eu conheci na parada do ônibus, num tempo em que eu era mais condescendente. É quase sempre a mesma coisa. Os usuários já se conhecem de vista, pegam o mesmo ônibus no mesmo horário. O papo começa com um deles olhando o relógio e soltando aquela baforada de impaciência, pergunta, faz tempo que tu tá aqui? O outro responde, mais de meia hora. Até onde tu vai? Pro centro, e tu? Também. Pronto, começa ali uma grande afeição que pode durar a vida inteira, ou até que um deles compre um carro.  Aconteceu comigo uma vez, numa linha da Protásio. Um sujeito mais ou menos da minha idade perguntou se o ônibus ali costumava demorar muito, ao que respondi que não costumava pegar aquele. Daí ele falou que também não costumava usar aquela linha, morava na Zona Norte. Foi aí que eu informei que tinha morado no Cristo Redentor e ele me lembrava muito o Antônio, um amigo da primeira série do Concórdia. Pois acreditem, era realmente o próprio Antônio. Já fomos tomar uma cerveja num boteco ali mesmo. Ainda não tínhamos tomado nem meia dúzia quando o bendito ônibus despontou lá na esquina. Embarcamos juntos, trocamos whatsapp e ele já foi lá em casa comer um churrasquinho e relembrar nossa velha infância. Agora eu pergunto. Como é que eu ia recuperar uma antiga camaradagem se insistisse na vida burguesa de andar de carro?  E não é só isso. Os laços afetuosos que se amarram durante o trajeto, no interior do veículo, são dignos de recordação para a vida toda. De muitos eu fui protagonista, ou vi se entrelaçarem na minha frente. Por exemplo. A gente entra, passa na catraca, e antes de encontrar um lugar para sentar, o motorista, num ímpeto de entusiasmo e alegria por estar prestando um serviço de utilidade pública, dá aquela arrancada que nos faz dançar pelo corredor e fatalmente nos joga no colo de uma pessoa sentada lá no fundo. A acolhida daquele passageiro nos deixa tão emocionados que temos vontade de abraçá-lo. Começou ali um novo relacionamento. Ou então, quando a gente opta por permanecer de pé, para não ter que pedir […]

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