Crônica

Apertem o cinto

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Apertem o cinto

Tu já reparou que o uber disponibiliza dados sobre os motoristas para os passageiros e dados sobre os passageiros para os motoristas? “Fulano de Tal já fez tantas e tantas e tantas corridas, possui tais e tais e tais avaliações.” Sabe qual é a razão dessas informações? Ora, a razão é muito simples: na verdade, trata-se de um serviço perigoso, e daí é necessário tranquilizar tanto motoristas quanto passageiros. É necessário convencer os motoristas de que os passageiros não são assaltantes e convencer os passageiros de que os motoristas não são sequestradores. E o motivo de isso ser necessário é que, no fim das contas, alguns motoristas são mesmo sequestradores e alguns passageiros são mesmo assaltantes. Se tu parar pra pensar, essa situação é uma espécie de tiro que sai pela culatra: os dados disponibilizados pelo uber são um atestado de segurança que, pelo simples fato de existir e ser necessário, revela justamente o perigo inerente ao serviço prestado pelo aplicativo.

Com as companhias aéreas acontece a mesma coisa, embora a natureza do perigo seja diferente (muito pior, eu diria).

Na quinta-feira, 10 de dezembro, viajei de avião pela segunda vez na vida. E aconteceu exatamente o contrário do que tinham me garantido que aconteceria: nessa segunda viagem o meu pavor foi muito maior do que na primeira. Tive que engolir o ateísmo e rezar o Pai Nosso durante o voo inteiro. E o pior de tudo, o que me deixava cada vez mais em pânico, era justamente o mar de informações que a comissária de bordo ia despejando em cima de nós, passageiros, com o intuito de (acredite se quiser!) nos tranquilizar.

“Senhoras e senhores, acabamos de concluir o procedimento de abastecimento da aeronave. Há combustível de sobra para a nossa viagem, incluindo as escalas previstas.”

Eu só consegui pensar o seguinte: “puta que pariu!” Porque aquelas informações, pra mim, só podiam significar uma única coisa: que às vezes, assim, por uma pequena bobeada, por um pequeno vacilo, por um pequeno descuido, às vezes devia acontecer de uma companhia ou outra calcular mal o combustível necessário pra uma viagem e então (olha só que pena!) o avião, tipo, acabar meio que caindo e todo o mundo, tipo, acabar meio que morrendo. 

Mas aquilo era só o começo do meu desespero. A comissária prosseguiu:

“Senhoras e senhores, estamos em uma aeronave QTXY-973, um dos modelos mais seguros já fabricados.”

E o que eu entendi disso foi que os aviões caem, fazer o quê?, paciência, mas que eu ficasse tranquilo, porque aquela aeronave tinha um pouquinho menos de chances de cair, já que era um dos modelos mais seguros já fabricados (se é que era mesmo).

“Somos a tripulação do comandante Fulano, um dos pilotos mais experientes da companhia.”

Aí eu quase morri do coração. Pensei comigo mesmo que aquele piloto devia estar voando pela primeira vez. Ou talvez não. Talvez fosse mesmo bastante experiente. Tão experiente que, naquele dia, talvez tivesse ido pilotar amanhecido e bêbado, depois de passar a noite na farra.

Na verdade, tudo em uma viagem de avião, todos os protocolos, todas as informações, toda a solenidade, tudo, tudo, tudo parece um enorme “adeus” fantasiado de “tchau”; é um pouco como o “até logo” que se diz pra quem está indo pra guerra e provavelmente nunca mais vai voltar.

Quer saber? Seguro, seguro mesmo, é andar de ônibus. E é por isso mesmo que numa viagem de ônibus a gente não fica sabendo de bosta nenhuma. É porque não precisa. Dá pra ficar tranquilo, sem medo de que o motorista dirija de modo imprudente ou acabe dormindo ao volante, justamente porque não há qualquer esforço para nos convencerem de que ele é responsável, competente, experiente. Sabemos que o pneu não vai furar e que o freio não vai falhar, justamente porque não há qualquer esforço para nos convencerem de que a manutenção do ônibus está em dia. Sabemos que não há o menor perigo de o ônibus bater de frente com um caminhão, justamente porque não há qualquer esforço para nos convencerem do contrário.

Quer saber? Viagem de avião tinha que ser igual a viagem de ônibus. Tudo igual. Ou, se fosse pra ser diferente, então que fosse melhor! Sem formalidades, sem protocolos, sem solenidades, sem informações e mais informações que, no fim das contas, só servem pra nos lembrar de que mesmo o menor imprevisto ao longo da viagem, um parafuso mal apertado que seja, poderá nos fazer despencar de uma altura de sabe-se lá quantos milhares de pés, a uma velocidade de sabe-se lá quantos quilômetros por hora, dentro de um veículo de sabe-se lá quantas toneladas.

Quer saber? A gente devia poder chegar no aeroporto e bater na janelinha do avião pra chamar a atenção do motorista.

– Pois não?
– Esse aqui tá indo pra onde?
– Belém.
– Mas passa em Belo Horizonte?
– Posso passar, sim. Entra aí. Eu desço lá em BH e te largo. Não me custa nada.
– Maravilha!
– E esse latão aí? Bem gelado?
– Ô! Tenho mais 3 na mochila!
– Eita! Me faz um favor? Senta lá no fundão do avião. Daí, depois que a gente subir, eu boto a nave no piloto automático e vou lá atrás, como quem não quer nada, na botinha, pra ver se os teus latão tão bem gelado mesmo.
– Fechou!


José Carlos da Silva Junior nasceu e vive na Lomba do Pinheiro, periferia de Porto Alegre. Adotou o pseudônimo “José Falero” em homenagem à mãe, de quem herdou a veia artística, mas não o sobrenome. É escritor, autor de Vila Sapo (Venas Abiertas, 2019) e participante das antologias À margem da sanidade (J. Vellucy, 2018) e Ancestralidades: Escritores Negros (Venas Abiertas, 2019). Trabalha como auxiliar de gesseiro para não morrer de fome, e toca cavaquinho para não morrer de tristeza.

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