Crônica

Aqui na gringa #10

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Aqui na gringa #10 Foto: Arquivo pessoal

Eu tenho uma santa inveja de quem tem intimidade com as cores, o que significa ter também intimidade com a luz. Cor só se vê com luz; a luz define a cor. 

Um dos motivos de ter me deslumbrado tanto com a crônica e as memórias de Nelson Rodrigues foi uma identificação: ele se dizia um idiota plástico, e eu também acho que me enquadro na categoria. Não é que eu não frequente a pintura: eu sou leitor de livros de pintura, de vida de pintor, de catálogos de exposição e de museus – e sempre que pude entrei em museus e ali fiquei pelo máximo de tempo possível. Até mesmo meto umas conversas sobre pintura em aulas sobre literatura, quando cabe e eu me sinto habilitado. Mas nada disso me livra da sensação de estar perdendo uma parte importante do que rola na pintura.

Não, não gosto de gente que acha que sabe e fica contando coisas sobre o quadro ou o pintor, deitando falação sobre isso e aquilo. São uns chatos, em geral. Gosto de ter e de ir atrás de informações, claro. Mas o que eu gosto mesmo é ficar admirando, sem palavras nem conceitos, os quadros, as cenas, as cores, as luzes. 

Outra do Nelson: em algum momento ele mencionou gente que não gostava nem da paisagem brasileira, porque as cores em nosso país, ironizava ele, sequer elas teriam caráter. Seriam cores que rimavam com a falta de caráter brasileiro. Já ele, Nelson, achava o contrário: se dizia um nacionalista ferrenho, que achava o Brasil um excelente lugar para viver e para ver. 

Eu fico imaginando uma conversa com o Nelson para indagar o que isso significaria, e ele me diria (imagino eu) que esses inimigos do Brasil pensam que em nosso país os vermelhos não se dão ao respeito, os verdes se desfazem, os amarelos parecem borrados. 

E é mesmo – ao menos no Rio de Janeiro, terra em que ele viveu quase toda a vida. Não sei se o prezado leitor já percebeu isso, mas é assim mesmo: as cores não se sustentam direito nos trópicos – por causa do sol, claro. E da umidade, naturalmente.

Quem vive do paralelo 30º Sul (Porto Alegre) para baixo tem a grande vantagem de experimentar bem outra cena. Temos meias-estações de luz espetacular, propícia para iluminar as coisas de modo oblíquo e não dissimulado. Especialmente depois de chuvas, quando seca o tempo, ou quando uma frente fria toma conta da cena: então, as cores e os contornos ficam muito mais nítidos, com aquele caráter que o Nelson relatava faltar às cores brasileiras. 

Fotos: Arquivo pessoal

O Vitor Ramil, que não é rodrigueano e tem suas excelentes tiradas filosóficas, atribui ao Jorge Luis Borges uma frase que talvez o Borges tenha mesmo dito, numa das milhares de entrevistas que deu ao longo da vida: o frio geometriza as coisas. 

Não é bem isso, mas é bem isso: o frio tira a umidade quente do ar, e portanto a gente enxerga com maior nitidez as linhas e as cores. É isso.

Fiz essa volta toda para falar daqui onde estou provisoriamente, no paralelo 40º Norte (o mesmo de Madri, o inverso simétrico de Viedma, na Argentina): lugar bem mais frio que Porto Alegre, com um outono que está rolando já rondando o grau zero celsius. E muito mais seco que Porto Alegre, sem dúvida.

Aqui a gente olha para essas folhas e árvores, para esse céu azul, para o verde contrastante da grama e fica extasiado – mas é pelo frio, pela nitidez, pelas arestas claras dos elementos. E pela composição também, admito, com esses amarelos, laranjas, vermelhos, bordôs que o sol não-tropical oferece ao olho. 

Deslocados do nosso habitat, precisamos de algum modo reaprender a ver coisas elementares como as cores.  


Luís Augusto Fischer é escritor, professor do Instituto de Letras da UFRGS e fundador da revista Parêntese. Atualmente, está passando um semestre como professor convidado em Princeton, USA. Seu mais recente livro é A ideologia modernista: a Semana de 22 e sua consagração (Todavia).

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