Crônica

Aqui na gringa #4

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Aqui na gringa #4 Foto: Arquivo pessoal
No noticiário das enchentes deste setembro, que devastaram cidades inteiras no vale do Taquari, berço da minha família, li que uma velha ponte de ferro foi levada por diante, sobre o rio das Antas, no trecho que leva de Farroupilha a Nova Roma do Sul.  Aqui o assunto não é Nova Roma, nem a ponte. É que lembrei de evento semelhante, que conheço apenas de lenda mas que foi decisivo na minha vida. Antes de eu nascer, bem antes. Publicidade Uma rara foto, da altura de 1920, ilustra esta lembrança, ainda mais forte por estar cá longe. O cavaleiro da esquerda viria a ser meu avô materno, o pai da minha mãe; se chamava Alfredo Loch. (Cavaleiro, mas montado em burro.) Ao centro, uma mula carregada de produtos, não sei quais. Acomodados e protegidos em bruacas de couro e madeira, bem cobertos por um encerado para proteger da chuva, tudo arrumado a capricho sobre o lombo do animal. (O vô Alfredo tinha fama de ser caprichoso em detalhes, da roupa aos móveis da casa.) À direita, o parceiro do vô, cujo nome se perdeu, também com bruacas ao lado das ancas – ao contrário do vô, cuja sela está ladeada por alforjes de couro, de muito menor volume.  O que sei sobre o conjunto é impreciso e sugestivo: que o vô engrenava, ainda jovem (teria seus vinte e poucos anos), uma carreira de Musterreiter, caixeiro-viajante. Que nessa foto ele posou com uma carga de alto valor, secundado por esse camarada, que era seu contratado.  Caixeiro-viajante. A palavra composta traz ressonâncias fortes. Ia o sujeito pelos interiores remotos, levando produtos que por ali passariam rarissimamente: um tecido, uma tesoura de aço Solingen, um par de brincos, uma colônia perfumada. Produtos encantadores para aquelas pessoas isoladas, que sonhavam com o consumo com uma fé agora inimaginável: considere que isso era antes do rádio, as notícias andavam com a lentidão dos escassos impressos e das visitas fortuitas. O sujeito só tinha como imaginar o produto a partir de sugestões breves, o resto correndo por conta da imaginação e do desejo.  O olhar confiante que o jovem Alfredo exibe, na foto, foi contraditado pelos eventos, não sei se exatamente na ocasião dessa foto ou em outra semelhante. (Seria uma daquelas coincidências raras que de fato ocorrem: uma linda foto, posada a capricho, feita logo antes da tragédia. Não é impossível.)  Ocorre que, em certa jornada, talvez logo depois dessa foto, eles precisaram atravessar um rio que estava “fora da caixa”, transbordado. E confiaram que seria possível a travessia, apesar de tudo. Talvez eles estivessem atravessando pelo leito do rio, talvez cruzassem o rio sobre uma velha ponte de madeira, e se a memória não está delirando seria uma ponte coberta. O certo é que a correnteza levou tudo por diante, cargas e mulas, restando apenas os dois humanos da empreitada. Sem suas montarias, sem suas posses, sem os preciosos itens que venderiam, e o vô com uma dívida muito acima de suas capacidades financeiras.  […]

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