Crônica

As baratas, Clarice e eu

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As baratas, Clarice e eu Eu pensei muito em Clarice em 2020. As redes sociais festejaram os cem anos de nascimento da magnífica escritora com bastante euforia, editoras lançaram edições comemorativas e páginas celebraram compartilhando suas frases, apócrifas ou não. Era difícil não pensar em Clarice, naquele olhar de quem vê mais do que há. Como eu pensava em Clarice, eu pensava e precisava ler Clarice e A paixão segundo G.H. já estava na minha lista.  Eu também pensei muito em baratas em 2020. Isso foi antes de iniciar a leitura de Clarice. Começou quando o calor de novembro deu as caras, elas estavam por todo lado, grandes, antenudas, vindas de algum lugar que as tratara muito bem no inverno. Pareciam dispostas a provar o que os humanos tanto admiram e temem nelas por sua resistência: elas vêm para ficar mesmo depois que não sobrar nenhum de nós sobre a terra. Quando comecei a ler A paixão segundo G.H., eu não dormia direito há três dias. Não era o cenário mais propício para se começar a ler um livro desses, agora eu sei. Li todo o primeiro capítulo e me senti dentro de uma caverna escura ou um labirinto, tateando o caminho. O que eu estou lendo, afinal? Respirei fundo e reli o capítulo inicial. Não adiantava, percebi que teria que ser assim, uma travessia num mar nem sempre tão calmo, dentro de um bote sem remos. Invejava a mão que G.H. tinha para segurar.  Fui adiante no livro, me remexendo na cadeira, suspirando, querendo fazer sentido, mas do que é que essa mulher tá falando, meu Deus? Até que a personagem encontra uma barata. Eu retirei os olhos do livro, olhei para cima e disse em voz alta: tá de brincadeira, né? (difícil não falar em Deus depois de ler esse livro). Minha relação com minhas baratas foi um tanto diferente da que G.H. estabeleceu com sua barata grossa e velha. Eu não sei se minhas baratas eram velhas. Todas as três apareceram no meio da noite, caminhando sobre os meus braços enquanto eu dormia. Fui acordada com uma coceirinha, como se alguém tivesse pegado uma pena e passado nos meus braços para me acordar, de tão leves. Mas ao abrir os olhos, o que eu via era uma mancha escura se movendo rápido e, diferente de G.H., cujo grito lhe ficara batendo dentro do peito, o meu ecoava pelo quarto e as baratas eram atiradas longe por instinto. Foram três vezes em um mês e meio, em duas casas diferentes que estão a mais de 150 quilômetros de distância uma da outra. Eu estava convicta de que as baratas haviam colocado um alvo nas minhas costas. O que será que eu havia feito de tão errado para elas, além de ter matado várias de sua espécie? Eu não era a única e, mesmo assim, elas me perseguiram até outra cidade. Isso tudo foi antes de eu começar a ler e ver a palavra “barata” impressa no romance me deu ainda mais certeza de […]

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Eu pensei muito em Clarice em 2020. As redes sociais festejaram os cem anos de nascimento da magnífica escritora com bastante euforia, editoras lançaram edições comemorativas e páginas celebraram compartilhando suas frases, apócrifas ou não. Era difícil não pensar em Clarice, naquele olhar de quem vê mais do que há. Como eu pensava em Clarice, eu pensava e precisava ler Clarice e A paixão segundo G.H. já estava na minha lista.  Eu também pensei muito em baratas em 2020. Isso foi antes de iniciar a leitura de Clarice. Começou quando o calor de novembro deu as caras, elas estavam por todo lado, grandes, antenudas, vindas de algum lugar que as tratara muito bem no inverno. Pareciam dispostas a provar o que os humanos tanto admiram e temem nelas por sua resistência: elas vêm para ficar mesmo depois que não sobrar nenhum de nós sobre a terra. Quando comecei a ler A paixão segundo G.H., eu não dormia direito há três dias. Não era o cenário mais propício para se começar a ler um livro desses, agora eu sei. Li todo o primeiro capítulo e me senti dentro de uma caverna escura ou um labirinto, tateando o caminho. O que eu estou lendo, afinal? Respirei fundo e reli o capítulo inicial. Não adiantava, percebi que teria que ser assim, uma travessia num mar nem sempre tão calmo, dentro de um bote sem remos. Invejava a mão que G.H. tinha para segurar.  Fui adiante no livro, me remexendo na cadeira, suspirando, querendo fazer sentido, mas do que é que essa mulher tá falando, meu Deus? Até que a personagem encontra uma barata. Eu retirei os olhos do livro, olhei para cima e disse em voz alta: tá de brincadeira, né? (difícil não falar em Deus depois de ler esse livro). Minha relação com minhas baratas foi um tanto diferente da que G.H. estabeleceu com sua barata grossa e velha. Eu não sei se minhas baratas eram velhas. Todas as três apareceram no meio da noite, caminhando sobre os meus braços enquanto eu dormia. Fui acordada com uma coceirinha, como se alguém tivesse pegado uma pena e passado nos meus braços para me acordar, de tão leves. Mas ao abrir os olhos, o que eu via era uma mancha escura se movendo rápido e, diferente de G.H., cujo grito lhe ficara batendo dentro do peito, o meu ecoava pelo quarto e as baratas eram atiradas longe por instinto. Foram três vezes em um mês e meio, em duas casas diferentes que estão a mais de 150 quilômetros de distância uma da outra. Eu estava convicta de que as baratas haviam colocado um alvo nas minhas costas. O que será que eu havia feito de tão errado para elas, além de ter matado várias de sua espécie? Eu não era a única e, mesmo assim, elas me perseguiram até outra cidade. Isso tudo foi antes de eu começar a ler e ver a palavra “barata” impressa no romance me deu ainda mais certeza de […]

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