Crônica, José Falero

Autocrítica

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Autocrítica Crise sanitária, econômica, institucional: um Brasil repugnante. Canalhas, ignorantes, desumanos: não restou sequer adjetivo capaz de descrever aqueles que tiveram participação direta e explícita na construção deste cenário desesperador. Mas acho importante conservarmos a clareza de que, pelo menos em alguma medida, somos todos responsáveis. O absurdo de hoje é o zênite do processo com o qual ontem não nos preocupamos suficientemente. Lembram? Quando nos demos por satisfeitos com a nossa casa e com a nossa alimentação, apesar de termos consciência da indigência alheia, ali votamos em Bolsonaro. Quando não nos engajamos nas causas LGBTQI+, quando não demos atenção às demandas feministas, quando não abraçamos o movimento negro, quando não apoiamos o MST, por acharmos que nada disso tinha a ver com o nosso umbigo, por acharmos que não era problema nosso, ali votamos em Bolsonaro. Quando tivemos a cara de pau de celebrar os eventos de cultura, sem dar importância ao fato de que excluíam as periferias, ali votamos em Bolsonaro. Quando planejamos o nosso doutorado sem qualquer preocupação com a educação básica do vizinho, ali votamos em Bolsonaro. Quando fomos espairecer nas praias do Nordeste ou na Serra Gaúcha, indiferentes àqueles que trabalham 365 dias por ano sem direito a um único dia de lazer sequer dentro da própria cidade, ali votamos em Bolsonaro. Quando comemoramos a gordura do nosso salário, a praticidade do nosso home office, a tranquilidade da nossa jornada de apenas 4 horas diárias e fechamos os olhos para as condições humilhantes a que eram submetidos outros trabalhadores, ali votamos em Bolsonaro. Quando deixamos florescer dentro de nós a sensação gostosinha de que éramos distintos, de que éramos particularmente talentosos ou competentes, de que tínhamos feito por merecer o nosso lugar ao sol, enquanto imaginávamos que os outros, os ninguéns, os desgraçados, provavelmente não haviam se esforçado tanto quanto nós, ali votamos em Bolsonaro. E, assim, seguimos votando em Bolsonaro. Não se trata apenas dos textões que postamos nas redes sociais ou dos números que digitamos nas urnas: nosso problema é de ordem mais elementar. De nada nos adiantará gritar “genocida” enquanto formos capazes de tolerar as injustiças brutais deste país. De nada nos adiantará gritar “genocida” enquanto a dor dos outros não for o suficiente para despertar a nossa revolta. Nunca foi tão evidente o quanto necessitamos uns dos outros. Nunca foi tão evidente o quanto é nocivo para todos nós esse individualismo propagandeado em todos os cantos: chegamos aqui por termos comprado essa ideia. Chegamos aqui porque a empatia foi afastada da prática simples e alçada a uma condição quase utópica. Chegamos aqui porque, no fundo, ainda estamos pouco nos lixando para as mazelas sociais que não nos afetam diretamente. O bolsonarismo é, em essência, o triunfo do “cada um por si”, do “salve-se quem puder”: uma mentalidade que nos afeta a todos, pelo menos em alguma medida. José Falero é escritor, autor de Vila Sapo (Venas Abiertas, 2019) e Os Supridores (Todavia, 2020).

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Crise sanitária, econômica, institucional: um Brasil repugnante. Canalhas, ignorantes, desumanos: não restou sequer adjetivo capaz de descrever aqueles que tiveram participação direta e explícita na construção deste cenário desesperador. Mas acho importante conservarmos a clareza de que, pelo menos em alguma medida, somos todos responsáveis. O absurdo de hoje é o zênite do processo com o qual ontem não nos preocupamos suficientemente. Lembram? Quando nos demos por satisfeitos com a nossa casa e com a nossa alimentação, apesar de termos consciência da indigência alheia, ali votamos em Bolsonaro. Quando não nos engajamos nas causas LGBTQI+, quando não demos atenção às demandas feministas, quando não abraçamos o movimento negro, quando não apoiamos o MST, por acharmos que nada disso tinha a ver com o nosso umbigo, por acharmos que não era problema nosso, ali votamos em Bolsonaro. Quando tivemos a cara de pau de celebrar os eventos de cultura, sem dar importância ao fato de que excluíam as periferias, ali votamos em Bolsonaro. Quando planejamos o nosso doutorado sem qualquer preocupação com a educação básica do vizinho, ali votamos em Bolsonaro. Quando fomos espairecer nas praias do Nordeste ou na Serra Gaúcha, indiferentes àqueles que trabalham 365 dias por ano sem direito a um único dia de lazer sequer dentro da própria cidade, ali votamos em Bolsonaro. Quando comemoramos a gordura do nosso salário, a praticidade do nosso home office, a tranquilidade da nossa jornada de apenas 4 horas diárias e fechamos os olhos para as condições humilhantes a que eram submetidos outros trabalhadores, ali votamos em Bolsonaro. Quando deixamos florescer dentro de nós a sensação gostosinha de que éramos distintos, de que éramos particularmente talentosos ou competentes, de que tínhamos feito por merecer o nosso lugar ao sol, enquanto imaginávamos que os outros, os ninguéns, os desgraçados, provavelmente não haviam se esforçado tanto quanto nós, ali votamos em Bolsonaro. E, assim, seguimos votando em Bolsonaro. Não se trata apenas dos textões que postamos nas redes sociais ou dos números que digitamos nas urnas: nosso problema é de ordem mais elementar. De nada nos adiantará gritar “genocida” enquanto formos capazes de tolerar as injustiças brutais deste país. De nada nos adiantará gritar “genocida” enquanto a dor dos outros não for o suficiente para despertar a nossa revolta. Nunca foi tão evidente o quanto necessitamos uns dos outros. Nunca foi tão evidente o quanto é nocivo para todos nós esse individualismo propagandeado em todos os cantos: chegamos aqui por termos comprado essa ideia. Chegamos aqui porque a empatia foi afastada da prática simples e alçada a uma condição quase utópica. Chegamos aqui porque, no fundo, ainda estamos pouco nos lixando para as mazelas sociais que não nos afetam diretamente. O bolsonarismo é, em essência, o triunfo do “cada um por si”, do “salve-se quem puder”: uma mentalidade que nos afeta a todos, pelo menos em alguma medida. José Falero é escritor, autor de Vila Sapo (Venas Abiertas, 2019) e Os Supridores (Todavia, 2020).

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