Crônica

Azul

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Azul Pintei meu cabelo de azul. Isso mesmo, tem gente que tá achando que eu pirei. Desde o início da quarentena eu furei um piercing no nariz, fiz uma tatuagem, evitei duas crises de ansiedade, uma demissão e pintei meu cabelo de azul. Primeiro achei que era uma maneira de fugir da realidade, afinal, quem em sã consciência pinta o cabelo de uma cor que é obviamente não natural? Todo mundo vai saber… E então o pensamento mais lógico: ‘‘Porra! Que todo mundo saiba, azar!’’ Você já passou algum período da sua vida se escondendo dos outros? É foda. Comigo isso aconteceu durante a escola. Sem bancar a coitadinha, nem vítima, afinal minhas lembranças dessa época também são ótimas.  Mas me lembro das inúmeras vezes que cheguei em casa chorando depois da aula. Os meninos implicavam comigo. ‘‘Cabelo de pixaim! Cabelo de bruxa!’’ Quando somos crianças, não são só as palavras, é o tom. Quando somos adultos também. ‘‘Seu cabelo é lindo’’, dizia minha mãe, com uma lágrima antiga sempre formada e nunca rendida. Todo o meu fio de autoestima tecido por ela durante a noite e os colegas da escola desatando, nó a nó, ao longo do dia. Uma espiral dolorosa. Você já odiou uma parte do seu corpo? Algumas palavras são tão feias. Ranço. Nojo. Repugnância. Ojeriza. Asco. Nunca uso essas palavras, só de pensar já me dá náusea. Eu criei repulsa pelo meu cabelo. Minha primeira química capilar remonta aos meus nove anos. Nem tenho certeza se isso é legal hoje em dia. Mas o meu auge dos anos 90 foi entrar no novo milênio de calça jeans, baby look e cabelo escorrido. O problema não era o fedor da amônia, as queimaduras no couro cabelo ou as horas inteiras com os olhos lacrimejando. O problema era ter que repetir o processo todo mês. A gente só se dá conta do quanto o cabelo cresce quando faz química. Assim eu vivi muitos anos. Minha pele clara e meu ‘‘cabelo liso’’ até que suportaram bem o ensino médio. A verdade é que mesmo nunca tendo sido branca, pelo menos não era mais ‘‘cabelo de vassoura’’, ‘‘palha de aço’’ ou ‘‘pixaim’’. Mas não-ser não é a mesma coisa que simplesmente ser. É possível passar uma vida inteira sem ser alguma coisa? Não ser branca não é uma definição. Uma não definição é suficiente para ocupar o lugar de uma definição?  As imagens não mentem, tem nariz certo pra colocar piercing, tem corpo certo pra aparecer na televisão tatuado, tem cabelo certo pra ser azul. Passei bastante tempo respeitando estes limites. Eu sabia qual era o meu lugar. Você já passou algum período da sua vida se escondendo do que queria ser? Como fez pra sair de onde te colocaram? Eu queria ter um piercing no nariz, queria pintar meu cabelo de azul, queria poder errar e ficar tudo bem.

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Pintei meu cabelo de azul. Isso mesmo, tem gente que tá achando que eu pirei. Desde o início da quarentena eu furei um piercing no nariz, fiz uma tatuagem, evitei duas crises de ansiedade, uma demissão e pintei meu cabelo de azul. Primeiro achei que era uma maneira de fugir da realidade, afinal, quem em sã consciência pinta o cabelo de uma cor que é obviamente não natural? Todo mundo vai saber… E então o pensamento mais lógico: ‘‘Porra! Que todo mundo saiba, azar!’’ Você já passou algum período da sua vida se escondendo dos outros? É foda. Comigo isso aconteceu durante a escola. Sem bancar a coitadinha, nem vítima, afinal minhas lembranças dessa época também são ótimas.  Mas me lembro das inúmeras vezes que cheguei em casa chorando depois da aula. Os meninos implicavam comigo. ‘‘Cabelo de pixaim! Cabelo de bruxa!’’ Quando somos crianças, não são só as palavras, é o tom. Quando somos adultos também. ‘‘Seu cabelo é lindo’’, dizia minha mãe, com uma lágrima antiga sempre formada e nunca rendida. Todo o meu fio de autoestima tecido por ela durante a noite e os colegas da escola desatando, nó a nó, ao longo do dia. Uma espiral dolorosa. Você já odiou uma parte do seu corpo? Algumas palavras são tão feias. Ranço. Nojo. Repugnância. Ojeriza. Asco. Nunca uso essas palavras, só de pensar já me dá náusea. Eu criei repulsa pelo meu cabelo. Minha primeira química capilar remonta aos meus nove anos. Nem tenho certeza se isso é legal hoje em dia. Mas o meu auge dos anos 90 foi entrar no novo milênio de calça jeans, baby look e cabelo escorrido. O problema não era o fedor da amônia, as queimaduras no couro cabelo ou as horas inteiras com os olhos lacrimejando. O problema era ter que repetir o processo todo mês. A gente só se dá conta do quanto o cabelo cresce quando faz química. Assim eu vivi muitos anos. Minha pele clara e meu ‘‘cabelo liso’’ até que suportaram bem o ensino médio. A verdade é que mesmo nunca tendo sido branca, pelo menos não era mais ‘‘cabelo de vassoura’’, ‘‘palha de aço’’ ou ‘‘pixaim’’. Mas não-ser não é a mesma coisa que simplesmente ser. É possível passar uma vida inteira sem ser alguma coisa? Não ser branca não é uma definição. Uma não definição é suficiente para ocupar o lugar de uma definição?  As imagens não mentem, tem nariz certo pra colocar piercing, tem corpo certo pra aparecer na televisão tatuado, tem cabelo certo pra ser azul. Passei bastante tempo respeitando estes limites. Eu sabia qual era o meu lugar. Você já passou algum período da sua vida se escondendo do que queria ser? Como fez pra sair de onde te colocaram? Eu queria ter um piercing no nariz, queria pintar meu cabelo de azul, queria poder errar e ficar tudo bem.

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