Crônica

Borguetti, cães e carnivorismo

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Borguetti, cães e carnivorismo Já fazia algum tempo que me espantava a constatação de que os olhos dele, ao pararem nos meus, me remetiam às vacas. E aos filhotes das vacas. Quase instantaneamente era percorrida por pensamentos indigestos: que sanha horripilante essa de comer o que julgamos ser uma vaca, uma simples vaca e seus desaventurados rebentos! E as ovelhinhas! E os porquinhos! Mas… Ainda seria eu capaz de salivar ante uma costela assada de ovelha, pingando gordura sobre as brasas? Para saber, teria que esperar a próxima visita ao meu pai, lá em Arroio Grande, pois eu só comia carne de ovelha lá. Não fosse a imprecisão sensorial e a desonestidade idiossincrática, estaria tentada a usar o jargão popular e dizer que as carnes de outras cidades “não fedem nem cheiram.” Sim, Katia Suman estava certa, há alguém avessa ao carnivorismo desabalado – porém frustrada, porém teimosa – na mulher que escreveu Mugido [ou diários de uma doula]. Eu já tinha parado de comer carne de animais algumas vezes antes, mas nunca definitivamente. Socialmente era difícil, blablablá. E nunca havia sido uma atitude visceral. Algum tempo depois eu voltava atrás, fritava uns bifes de fígado com cebola e afiava a língua e o lápis contra o agronegócio – ficavam em equilíbrio, meu estômago e minha consciência. No entanto, dessa vez, dessa última vez, eram os olhos do meu filhote de cachorro, amado, auscultando em mim… Somos mamíferos, a vaca, Quino, eu? Seria isso? É fato constatado que o Quino, nosso cusco lá de casa, prefere música instrumental. Embora deteste flauta doce, parece prestar sossegada atenção quando toca Yamandu Costa. Desce do posto de vigia, cessa a zoeira habitual, fica na dele, mexe as orelhas de vez em quando. Sabemos que os bichos não-humanos são afetados pela música. E por que não seriam? Mais uma das excepcionalidades humanas autoatribuídas. Em algum lugar luminoso de sua bela obra, o antropólogo Gregory Bateson disse que costumamos localizar a animalidade em nós naquilo que temos de brutal ou grotesco, jamais nas nossas mais sofisticadas habilidades. Por que nunca buscamos os vestígios pretensamente soterrados de nossa animalidade na impressionante habilidade que as aranhas têm de tecer suas teias? Digressões à parte, enfim, eu quero é contar que foi a gaita do Borghettinho que me fez parar de comer carne, de mamíferos e aves, exceto em situações ritualísticas extraordinárias e de animais que não tenham sido mortos pela indústria de matança da carne, etc. Já havia me ocorrido que o Quino dedicava uma atenção especial a uma música em particular do disco Borghetti Yamandu, chamada “Barra do Ribeiro”. É uma das minhas prediletas também, por isso classifiquei como corujice da minha parte achar que é por algum tipo de predileção ou capacidade de detecção de sutilezas musicais que meu cusco enfileira os olhos na vertical, ao girar a cabeça toda para um lado, depois para o outro – como ele faz quando alguém pronuncia a palavra “vamos!”, em qualquer contexto.  Num final de domingo desses, estava com a TV […]

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Já fazia algum tempo que me espantava a constatação de que os olhos dele, ao pararem nos meus, me remetiam às vacas. E aos filhotes das vacas. Quase instantaneamente era percorrida por pensamentos indigestos: que sanha horripilante essa de comer o que julgamos ser uma vaca, uma simples vaca e seus desaventurados rebentos! E as ovelhinhas! E os porquinhos! Mas… Ainda seria eu capaz de salivar ante uma costela assada de ovelha, pingando gordura sobre as brasas? Para saber, teria que esperar a próxima visita ao meu pai, lá em Arroio Grande, pois eu só comia carne de ovelha lá. Não fosse a imprecisão sensorial e a desonestidade idiossincrática, estaria tentada a usar o jargão popular e dizer que as carnes de outras cidades “não fedem nem cheiram.” Sim, Katia Suman estava certa, há alguém avessa ao carnivorismo desabalado – porém frustrada, porém teimosa – na mulher que escreveu Mugido [ou diários de uma doula]. Eu já tinha parado de comer carne de animais algumas vezes antes, mas nunca definitivamente. Socialmente era difícil, blablablá. E nunca havia sido uma atitude visceral. Algum tempo depois eu voltava atrás, fritava uns bifes de fígado com cebola e afiava a língua e o lápis contra o agronegócio – ficavam em equilíbrio, meu estômago e minha consciência. No entanto, dessa vez, dessa última vez, eram os olhos do meu filhote de cachorro, amado, auscultando em mim… Somos mamíferos, a vaca, Quino, eu? Seria isso? É fato constatado que o Quino, nosso cusco lá de casa, prefere música instrumental. Embora deteste flauta doce, parece prestar sossegada atenção quando toca Yamandu Costa. Desce do posto de vigia, cessa a zoeira habitual, fica na dele, mexe as orelhas de vez em quando. Sabemos que os bichos não-humanos são afetados pela música. E por que não seriam? Mais uma das excepcionalidades humanas autoatribuídas. Em algum lugar luminoso de sua bela obra, o antropólogo Gregory Bateson disse que costumamos localizar a animalidade em nós naquilo que temos de brutal ou grotesco, jamais nas nossas mais sofisticadas habilidades. Por que nunca buscamos os vestígios pretensamente soterrados de nossa animalidade na impressionante habilidade que as aranhas têm de tecer suas teias? Digressões à parte, enfim, eu quero é contar que foi a gaita do Borghettinho que me fez parar de comer carne, de mamíferos e aves, exceto em situações ritualísticas extraordinárias e de animais que não tenham sido mortos pela indústria de matança da carne, etc. Já havia me ocorrido que o Quino dedicava uma atenção especial a uma música em particular do disco Borghetti Yamandu, chamada “Barra do Ribeiro”. É uma das minhas prediletas também, por isso classifiquei como corujice da minha parte achar que é por algum tipo de predileção ou capacidade de detecção de sutilezas musicais que meu cusco enfileira os olhos na vertical, ao girar a cabeça toda para um lado, depois para o outro – como ele faz quando alguém pronuncia a palavra “vamos!”, em qualquer contexto.  Num final de domingo desses, estava com a TV […]

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