Crônica

Cartografia de um outono porteño 5: O luxo das permissões

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Cartografia de um outono porteño 5: O luxo das permissões

“Até a Renata comprou um sapato”, foi a frase de dita vez que aceitei o convite das mulheres da minha família para ir a uma dessas lojas “direto de fábrica” da Serra uns anos atrás.

Até. O par de sapatos que comprei naquela ocasião veio comigo porque é meu “sapato bonito” e ainda tem o benefício de ser na verdade um par de sapatilhas que posso espremer no canto de malas e mochilas de viagem de última hora, para caso eu me depare com situações que demandem algo mais formal. A rigor saio de tênis ou coturno. Admito que durante muito tempo fui adepta da filosofia infeliz do Ministro da Fazenda, de encher a boca para dizer coisas como não conhecer a Shein porque só compro livros na Amazon. 

Ainda não me permito luxos tão facilmente, mesmo aqui com o câmbio a meu favor. Até agora só comprei, veja bem, livros.   

A declaração de Haddad da semana passada até pode estar em consonância com a dificuldade de elaborarmos as formas com que a China se imiscuiu em nosso cotidiano nos últimos anos, para além da soja, da carne e dos importados. Mas também repete aquela hierarquia de consumo que pressupõe que comprar livros tem mais valor do que comprar roupas ou acessórios. Para completar o que os jovens chamam de “rebosteio”, na mesma semana, a primeira-dama cometeu o crime de ir a uma loja cara em Portugal e comprar uma gravata para o marido. 

Quando Janja Lula da Silva deu suas primeiras entrevistas depois das eleições, um dos modelos que citou foi Eva Perón, essa presença ubíqua em Buenos Aires, pairando imensa na fachada de um prédio sobre a 9 de Julio, e presente em pichações, cantos de vitrine, e nos retrovisores de alguns táxis e ônibus, onde também se penduram os santos. Perto de onde estou hospedada, seu rosto se multiplica nas paredes e em camisetas, aventais e taças de vinho de um restaurante chamado La Santa Evita, que serve pratos da culinária argentina para além de milanesas e empanadas. Na primeira vez que fui comer ali, começou a tocar a Marcha Peronista no som ambiente e os presentes acompanharam-na batendo nas mesas. Experiência completa.

No Brasil tenho a impressão de que Evita é essa figura a respeito da qual não sabemos muito bem o que pensar, ainda mais recentemente. A apropriação de sua imagem pela cultura pop, mediada por aquele musical já antigo protagonizado pela Madonna, em certa medida a despolitizou. Ainda não vi a série baseada no romance de Tomás Eloy Martínez, também chamado Santa Evita, embora tenha lido o livro, e ele tem lá uma dimensão problemática. É um bom exercício de metaficção, mas acho La novela de Perón, que o antecede, melhor. De qualquer forma, confesso que antes de vir para cá com mais frequência, a imagem de Eva que eu tinha era a de uma mulher muito glamourosa que também servia aos pobres e… só. A forma com que ela performou sua feminilidade é até hoje aquela que me intimida e me deixa muito pouco confortável. Achava difícil me ver ali representada. Sendo dessas que prefere comprar livros a sapatos que jamais se permitiria ser vestida por Christian Dior, me custou entender que, no caso dela, isso era sobretudo uma questão de classe social.

Muitos reagiram às críticas da ida de Janja a uma loja de luxo em Portugal semana passada dizendo que era mais um caso de alguém de esquerda não poder ter coisas caras. Embora essa crítica tosca exista, nesse caso não é só isso. Tampouco se resume ao já manjado pânico moral inspirado por agentes públicos gastando dinheiro, qualquer que seja. A meu ver tudo se deu, também, porque ela é uma mulher e portanto suas performances devem ser todas controladas. Nós mulheres devemos nos preocupar com roupas, as nossas e as de nossos maridos, mas não muito. Nos permitirmos é sempre quase tão ardiloso e complicado como um jogo de xadrez. Eu, como professora universitária, não posso ser uma completa patricinha, mas também não posso andar por aí molambenta. Já tive palestras em privado a respeito dessa última hipótese, oferecidas com as melhores das intenções. 

De modo geral, se nós mulheres ainda por cima também defendemos certos princípios, é considerado hipócrita ostentarmos qualquer coisa luxuosa ou darmos a entender que sejamos aquilo que chamamos de fútil. Se tensionamos o sistema de classes e se, pior ainda, nos deslocamos de uma classe social a outra, tanto pior. No caso de Evita, que cresceu pobre em Los Toldos e ascendeu a primeira dama, o fato de ela vestir Dior, frequentar espaços de elite e, em suma, se permitir foi o que mais causou perturbação. 

Era o que minha avó, uma mulher que tampouco se permitia muitas coisas, chamaria de “rampeira”.

As mulheres sempre perturbam quando fazem coisas demais e se permitem aparecer, dizer e ocupar espaços, e Janja parece ser uma dessas que nos desacomodam um pouco, até a mim. Não à toa citou Evita como exemplo.

É claro que deve-se guardar as proporções, porque, como na América Latina não há quem brinque em serviço, a história de Evita é digna dos melhores arroubos inverossímeis do Sul Global. É muito difícil pensar em uma figura feminina como ela entre os personagens do século XX, e isso deve ser por ela conjugar a ascensão de novos sujeitos ao poder na primeira grande crise do liberalismo com seu próprio carisma e por representar um horizonte de possibilidades e permissões a outras mulheres trabalhadoras e pobres.

Muitos devem saber que os incômodos causados por Evita foram tamanhos que seu cadáver embalsamado foi sequestrado por militares. Um dos que o teve em sua posse matou a própria esposa grávida com um tiro, achando que era alguém entrando em sua casa. O corpo foi parar na Itália e só voltou à Argentina vinte anos depois de sua morte, sendo apenas recentemente enterrado onde está, no mausoléu da família de seu pai no Cemitério da Recoleta. O corpo das mulheres sempre causa problemas, mesmo depois de elas não mais o habitarem. 

Essa disrupção é típica de quando mulheres e outras minorias tensionam o campo político ou mesmo o tecido social. Falei semana passada de Olympe de Gouges, mas qualquer um que já tenha lido O calibã e a bruxa, de Silvia Federici, sabe que isso precede até mesmo o capitalismo e a democracia liberal. 

No Brasil tendemos a ignorar esse fato, achando que Evita era alguém apenas vinculada ao assistencialismo e a vestidos bonitos, e que se tornou objeto de um culto que por vezes fingimos não entender. No entanto, ela foi chave na aprovação da lei que concedeu o voto às mulheres na Argentina, levando outras tantas à política através de cargos no legislativo e à estrutura partidária do amplo — e confuso, para nós — leque que configura o peronismo até hoje. Depois do golpe que destituiu Perón em 1955 e proscreveu o movimento como um todo, algumas daquelas mulheres foram presas. Sintomaticamente, entre as acusações nos processos contra elas estava a de enriquecimento ilícito, porque ora onde já se viu. 

Para quem quiser saber mais e vier para esses lados, recomendo buscar nas livrarias Eva y las mujeres: historia de una irreverencia, da historiadora Julia Rosemberg. Rosemberg também apresenta um podcast de divulgação histórica chamado Un poco sucio, do qual gosto muito. Em seu livro, ela aborda justamente como os pobres terem acesso ao luxo era central à ideia de inclusão das classes trabalhadoras no capitalismo dentro dos preceitos do peronismo. Mas Eva perturbava sobretudo por ser mulher, por ser uma ex-atriz desconhecida de Los Toldos que de repente se tornou uma das principais interlocutoras políticas do presidente de um país, cotada a ser sua vice.  

O Museo Evita, dedicado à sua trajetória, é outro desses lugares que aprendi a gostar de visitar e está sediado em uma das casas onde funcionou um dos lares de trânsito da Fundación Eva Perón, voltado para mulheres em situação de vulnerabilidade social. Trata-se de um casarão de 1923, em Palermo, perto do Jardín Botánico Carlos Thays, ou seja, cravado em um bairro de elite. Segundo Rosemberg, essa foi apenas uma entre tantas manifestações de sua irreverência. Ou seja, daquilo que se permitiu fazer. 

Quando disse que demorei a entender que a performance do feminino de Evita era uma questão de classe social é porque, criada na classe média alta, indo a colégios particulares, jamais corri riscos ao me permitir ser despreocupada com minha aparência e em não ser o que chamam de “mulherzinha”, essa sim, uma permissão um pouco mais complicada. Não é o que acontece com mulheres de classe social, etnia ou orientação sexual diferentes das minhas. Eu posso ser, no máximo, considerada meio esquisita, e disso infelizmente jamais vou conseguir escapar de qualquer jeito: “Até a Renata comprou um sapato”.

Julgar as outras por gostarem de ir a lojas e comprarem sapatos ao invés de livros é apenas uma expressão mesquinha de misoginia e de não entender a relação que se estabeleceu, desde o advento da filosofia liberal do século XVIII, entre uma acepção ocidental de feminino e o comércio. As críticas a Janja são muito mediadas por essa dimensão de gênero somadas à sua vinculação à esquerda e não por causa dela. O fato de ela ser casada com um ex-metalúrgico que se tornou três vezes presidente da república é apenas a proverbial cereja no bolo, porque aí residem ainda outros cortes de interseccionalidade, muito além do “socialista de iphone”. Remete a uma outra série de coisas que ele e ela se permitem.  

A relação da esquerda com o consumo, com o luxo e também com o feminino é apenas um dos muitos novelos que foram embaralhados ao longo de muito, muito tempo. Talvez pensarmos nossas alteridades com relação a essas questões, de gênero e de classe, e não universalizarmos experiências e aquilo que nos permitimos ser e fazer, seja apenas o começo de desfazer todos esses nós.


Renata Dal Sasso é Professora de História da Unipampa, campus Jaguarão, vai passar dois meses como pesquisadora visitante na Universidad de Buenos Aires. Além disso produz uma newsletter pessoal sob o nome “Correio do sul do sul”.

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