Crônica

Cidades mortas

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Cidades mortas Nível do Guaíba deve seguir acima da cota de inundação até junho | Foto: Giulian Serafim / PMPA

“Quero ir para um lugar onde não chova!” “Estou com medo do barulho da chuva!”

Ouvi estas frases de pessoas que tiveram suas casas destruídas na enchente. É o que alguns estudiosos de catástrofes chamam de “ansiedade climática”. Pessoas em todo o mundo, que tiveram suas vidas devastadas por furacões, tsunamis, enchentes e incêndios, passam a ter medo que algo semelhante aconteça novamente onde vivem. Algumas chegam até a mudar de cidade.

Os tempos são anormais. As estações já não são delimitadas como antes. Podemos ter dias de inverno no verão, ou vice-versa. Até as tempestades mudaram de intensidade. O que acontece no Rio Grande do Sul nunca tinha ocorrido antes nessas proporções. E o mais assustador é que pode voltar a acontecer num período curto de tempo. Não só no RS, mas em todo o Brasil e no mundo!

Não vou falar daqueles que, diante de tantas evidências, negam a emergência climática. Nem dos que se ocupam mais em tirar proveito político, financeiro ou narcísico da catástrofe. Mostram o lado sombrio do ser humano, que age assim até mesmo diante do sofrimento do outro. Triste é ver que alguns estão bem perto de nós.

Quando ouvi uma amiga de Canoas dizer que “metade da cidade está morta”, me vieram à mente as imagens que vi em Hiroshima, depois que a bomba atômica foi lançada pelos americanos em 1945. Só escombros.

Reerguer a grande parte do RS atingida vai exigir muito planejamento, dinheiro e, acima de tudo, união, sem as mesquinharias político-partidárias tão comuns. Em nenhuma parte do mundo que conheço, só governos ou só iniciativas de empresas e/ou cidadãos conseguiram resolver isso sozinhos. Precisamos juntar todas essas forças para voltar a dar uma vida minimamente digna às pessoas atingidas.

É essencial repensar as cidades. Investir em prevenção. Ter uma espécie de Lei Rouanet para incentivar projetos de defesa ambiental. Mapear as zonas de risco e não permitir mais a construção de casas nesses locais, criando políticas públicas que permitam que as pessoas que vivem em áreas de risco possam viver sem sobressaltos e sem perder tudo o que conseguiram adquirir em toda a sua vida.

Precisamos transformar esses espaços em parques públicos, como em alguns lugares que conheci, para que os rios, quando houver excesso de chuvas, tenham para onde se expandir. Assim, em casos de inundação, não serão as pessoas e suas casas que serão arrastadas ou alagadas. As autoridades não podem mais afrouxar os controles.

Muita coisa é previsível. E os governos precisam trabalhar preventivamente, dragando rios, fazendo manutenção dos equipamentos de contenção das águas, não permitindo o desmatamento de encostas de montanhas e beiras de rios, pois a vegetação ajuda a absorver as águas e conter a velocidade das enxurradas. Existe tecnologia para tudo isso, além de monitoramento dos níveis das águas e das chuvas. Alertar a população para que saia a tempo de zonas com possibilidades de enchentes é fundamental. Para tudo isso, precisamos de esforços coordenados, com políticas públicas que levem em conta essa nova realidade. É bom estudarem as “cidades esponja”, onde um conjunto de pequenas e grandes atitudes e obras ajudam a segurar as águas. Criar imediatamente um Conselho de Segurança Climática, que reúna autoridades das esferas federal, estadual e municipal e atores da sociedade civil para discutir ações sobre o tema.

Sinto arrepios só de pensar que recentemente foram aprovadas leis estaduais que autorizam mais desmatamento ou que senadores do RS tenham apresentado um projeto de lei que dá incentivos à exploração do carvão, a energia mais poluente do mundo, muito perto de Porto Alegre. E que existem inúmeras iniciativas no Congresso Nacional para fragilizar ainda mais o meio ambiente.

Alguns países já têm até metas anuais de combate aos problemas do clima e cidades já agem preventivamente, mesmo que nunca tenham passado por alguma catástrofe. No Rio Grande do Sul, não há justificativas para tamanho descaso. No ano passado, por duas vezes esse aviso já tinha sido dado, com enchentes menores do que esta. Houve falta de planejamento e atitude por parte das autoridades locais e estaduais para prevenir e lidar com problemas dessa magnitude.

Mas o que faltou em prevenção sobrou em ajuda e contribuição das comunidades. Mesmo que, irresponsavelmente, alguns influenciadores tenham agido como gestores públicos e gestores públicos tenham agido como influenciadores, o saldo é altamente positivo porque reativou nos brasileiros o espírito de solidariedade. Diante de tanta tristeza e destruição, precisamos olhar para o futuro com esperança. E Porto Alegre pode se transformar em um exemplo de proteção ambiental.

“Que isso nunca mais aconteça!” precisa transformar-se em um mantra e uma determinação para todos nós, especialmente para os gestores públicos que negligenciam os cuidados com o meio ambiente. Já que não estamos cuidando bem do planeta, pelo menos que cuidemos melhor das pessoas que sofrem as consequências.


Alfredo Fedrizzi é pai da Lissa (38), Laura (34) e Maria (6 anos), fazendo Mestrado em Antropologia na Universidade de Lisboa, atuando em Conselhos de Administração no Brasil, ex-professor de Televisão na PUC, ex-publicitário.

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