Crônica

Comunidade paulistana

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Comunidade paulistana

Eu tenho duas grandes amigas e um grande amigo em São Paulo. Daquela gente que se fala todos os dias, literalmente. Ele é evangélico, e num dia que eu tava mal no trabalho porque minha gata tinha morrido, ele terminou o expediente na firma batendo na mesa e dizendo “Marson, vamos pra Augusta, cê enche a cara e eu tomo uma água” – e assim foi. Eu chorando a morte da gata com um evangélico sóbrio na Augusta. Uma das gurias, quando essa mesma gata morreu, correu lá em casa, me ajudou a recolher as coisas da bichinha, queria tirar do meu campo de visão, e não titubeou: “Esse cobertor dela, posso levar pro meu cachorro?”. Isso é hora de pedir? Sim, podia. A terceira dessa lista, que chamava minha falecida Xica da Silva, minha gata preta, de Satanás, disse “Ah, que pena que a Satanás morreu”, e só. É dessa que eu quero falar.

Tem uma junção de gente na vida que ela costuma chamar de família, mas pra mim aquilo ali é uma comunidade. Eu digo gente próxima, gente de todo almoço de domingo, não é incluindo tias, primos, é o núcleo mais forte da família, é deste tamanho. De um lado tem ela com cinco irmãos, cada qual com seus respectivos pares e filhos, do lado do marido é mais uma caralhada de irmão, tudo casado, tudo com filho, vai fazendo a conta. 

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Eu tenho duas grandes amigas e um grande amigo em São Paulo. Daquela gente que se fala todos os dias, literalmente. Ele é evangélico, e num dia que eu tava mal no trabalho porque minha gata tinha morrido, ele terminou o expediente na firma batendo na mesa e dizendo “Marson, vamos pra Augusta, cê enche a cara e eu tomo uma água” – e assim foi. Eu chorando a morte da gata com um evangélico sóbrio na Augusta. Uma das gurias, quando essa mesma gata morreu, correu lá em casa, me ajudou a recolher as coisas da bichinha, queria tirar do meu campo de visão, e não titubeou: “Esse cobertor dela, posso levar pro meu cachorro?”. Isso é hora de pedir? Sim, podia. A terceira dessa lista, que chamava minha falecida Xica da Silva, minha gata preta, de Satanás, disse “Ah, que pena que a Satanás morreu”, e só. É dessa que eu quero falar.

Tem uma junção de gente na vida que ela costuma chamar de família, mas pra mim aquilo ali é uma comunidade. Eu digo gente próxima, gente de todo almoço de domingo, não é incluindo tias, primos, é o núcleo mais forte da família, é deste tamanho. De um lado tem ela com cinco irmãos, cada qual com seus respectivos pares e filhos, do lado do marido é mais uma caralhada de irmão, tudo casado, tudo com filho, vai fazendo a conta. 

Essa gente teve a ideia de ir passar a quarentena, TODA JUNTA, no sítio. Então todo dia ela manda algum vídeo de um acontecimento. Teve um dia que pedimos o diário da quarentena, já que ela não tinha mandado nada, aí ela disse que não, que, por incrível que parecesse, naquele dia não tinha ocorrido nada. Isso eram umas 6 da tarde. Deu 9 da noite, chegou o vídeo, praticamente uma live: o pai e a mãe dela com a caminhonete tentando desatolar o cavalo do vizinho que se embrenhou na parte de lama deles.

Então assim, só pra compilar os melhores momentos: tem vídeo da filha dela se esborrachando no chão andando de bicicleta na terra (olha a ideia, botar a criança na terra de bicicleta), teve a comemoração da inauguração do asfalto na faixa que passa na frente da casa, teve um irmão de 4 anos atropelando de triciclo lomba abaixo de garagem o mais novo, de 2 anos, aí aquela gente que tá filmando em vez de cuidar dos filhos larga tudo, grita, aí param as filmagens, tem a filha dela na videoaula fazendo de tudo, dançando, de cabeça pra baixo, falando sozinha, menos assistindo à aula, e assim vai. Num dos últimos, tinha duas guriazinhas fazendo o funeral de um sapo. Sim, esse era o vídeo: o sapo de barriga pra cima, morto, elas com flores em volta do sapo, cujo nome era Sansão, e elas rezando. Eu implorei: “Tira essas crianças de perto do sapo morto, pelamor”. Que nada. Deixou.

E quando eu digo assim, “guriazinhas”, “um irmão e outro irmão” é porque é simplesmente impossível acompanhar a velocidade de reprodução daquela gente. Cada vídeo, um rebento novo. “Mas quem é aquela ali?”, eu pergunto. Aí ela diz: “Filha do meu irmão aquele que disse que ia tomar umas com os mendigos quando ele foi levar as quentinhas lá e eles ofereceram crack pra ele”, “Ah, sim, sei qual é… Mas ele não tinha só 16 filhos?”, “Essa nasceu ontem” – impossível acompanhar, nasceu ontem e já tá ali velando sapo morto, é sério.

Claro que no sítio não podia faltar um clássico, a cobra. Aí chega o vídeo do pai dela matando a cobra a paulada, uns gritam, outros ficam com dó, aí aparece uma velha dizendo “Imagina, que perigo!”, e eu aqui, na paz de Floripa, vendo isso tudo. O evangélico não teve nem dúvida: “Nos dá DEZ MIL se não nóis chama o Ibama pra vocês”. A outra amiga, que é a mais nova e não devia ter feito isto, fez: a piada do tiozão. “Esse mata a cobra e mostra o pau!”, ai, Jesus. E eu comentei: “Mas é uma favela mesmo” – comentário com todos os estereótipos de uma favela, que eu, não favelada, cristalizei. Ela foi contar pra mãe dela que eu tinha chamado de favela, a mãe dela disse que eu era uma filha da puta. Mas agora eu quero ver quem é a filha da puta: chegou um vídeo da mãe dela sentada no chão da sala, uns oito netos montando nela, e ela diz assim, bem assim: “Como eu queria tá agora gravando um vídeo e dizendo ah, que saudade dos meus netos!”. Assim é a coisa.

Chegou o vídeo de uma tartaruga andando pelo sítio. Aí as crianças brincando de apostar corrida com a tartaruga, fazendo assim, brincando que tavam correndo em câmera lenta. Tinha um dos ranhentinhos que tava mais distraído, e minha amiga, que tava filmando, falou “Fulaninho, vai perder a corrida pra tartaruga!” – sabe o que o capitalistinha fez? O filhote de emergente? Saiu correndo em disparada, chegou numa parede e olhou com cara de louco pra trás pra ver se tinha mesmo ganhado da tartaruga.

Passou um tempinho, chega outro vídeo da tartaruga, dessa vez só ela andando pelo pátio, dando voltas na casa. Aí a amiga confessa no vídeo: ela ia criticar a dona da tartaruga, por ter deixado a tartaruga fugir pro terreno deles, mas no fim ela se policiou, porque a tartaruga era realmente rápida. Leiam de novo: PORQUE A TARTARUGA ERA REALMENTE RÁPIDA.

Não para nunca, tô dizendo: aí ficaram sabendo que a tartaruga foi pro terreno deles porque a dona, a vizinha, tinha morrido. Ali, assim, morreu, o quê, uns 2 dias antes, e vida que segue, ah, a vizinha morreu e a tartaruga chegou aí. E então ela concluiu que iam acabar cuidando do/da Donatell… Eu não entendi o nome, mandei um áudio perguntando, ela repetiu: “Donatello, das Tartarugas Ninja”, eu disse “Sim, não entendi o fim do nome, queria saber se era homem ou mulher”. Dá um tempinho, chega um áudio dela com um cara falando junto, que a essa hora já não sei se é um irmão, um cunhado, aquele sotaque paulistano cheio de curva na língua, não sei pra quê, e ele explicando que era DonatellO, homem, ela perguntou como ele sabia, ele falou que era porque a barriga era curvada pra dentro, que é pra poder assim, encaixar em cima da mulé, que quando é mulé tem a barriga pra fora e homem tem a barriga pra dentro, que aí encaixa assim, em cima, só por deus, eu não sou obrigada, sério, não sou mesmo, eu já passo o dia vendo vídeo daquele gritedo, daquela gente toda misturada, dá pra ter uma noção do que é o suplício de ouvir um monte de paulista junto tentando sobreviver na selva em plena pandemia? 

E se fosse só paulista, mas é paulista emergente, então eles juntam a origem no Capão Redondo com a necessidade atual de pagar 200 reais num prato de massa com molho só porque é um restaurante novo, quer dizer, um pouco é aquela comilança aos gritos, um pouco é dica na internet do restaurante do chef não sei quem, aí matam cobra e velam sapo enquanto pagam o integral no colégio milionário pra guria ficar de cabeça pra baixo na frente do computador durante a aula, tem pagode, tem funk, depois é vídeo relembrando a viagem pra Europa, ouvindo um fado em Lisboa (sem entender porra nenhuma, mas é chique), logo mais é aquele monte de homem da família tudo suado, sem camisa, cheio de garrafa de cerveja na frente, com aquelas barrigas saltando pra fora, que ser humano é diferente de tartaruga, ai, sério, gente, no casamento dela, anos atrás, teve um cover do Elvis cantando… Eu realmente preciso que acabe a quarentena e eles possam voltar, cada membro dessa comunidade, pra sua sala de aula e pro seu escritório, não ter mais tempo pra nada, voltar ao normal paulistano, porque eu não aguento mais.


Ana Marson nasceu em 1978, em Porto Alegre, É mestre em literatura brasileira pela UFRGS, viveu em São Paulo de 2008 a 2016 e atualmente mora em Florianópolis. Trabalha como revisora de textos e designer instrucional. Publicou A cobra da laranjeira – crônicas muito azedas, crônicas, 2017, pela Consultor Editorial.

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