Crônica

Desamparo

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Desamparo 3 de junho de 2018, domingo de sol, duas da tarde. Depois de almoçar fartamente (a comida que eu mesma me fiz, restaurante é caro demais) e ter trabalhado toda manhã (sim, sigo trabalhando em Montreal), penso que é hora de dar uma volta pelo parque e passear pela festa de rua na Avenida Mont Royal (onde artistas de rua se misturam às barracas do comércio local). Antes, porém, decido recolher umas poucas roupas estendidas na varanda dos fundos do apartamento. Estou nessa função quando o vento bate forte a porta. Fora o susto com o barulhão, isso não me preocupa, sigo recolhendo as roupas, mas, na hora de querer entrar, quem diz que a porta abre? Paro, respiro, tento mais uma vez, faço força, tento a janela. Levo algum tempo para concluir que não vou conseguir sair dessa sozinha (eu que prezo tanto minha capacidade de estar só…). Preciso vencer todas as minhas barreiras para finalmente bater à janela do apartamento ao lado (que compartilha a mesma varanda). Por sorte, o vizinho se encontra em casa. Saindo do banho, é verdade. Põe o rosto para fora da porta do banheiro para saber do que se trata. Est-ce que vous pouvez m’aider? – peço, no meu melhor francês, a esse monsieur que eu tinha visto uma única vez, de passagem, ao longo dos 30 dias em que estou aqui. Ele pede um momento, e eu me afasto da janela para ele ter a chance de se vestir. Por sorte, eu própria estou vestida: calça de moletom, uma camiseta qualquer no corpo e havaianas nos pés. O vizinho vem, tenta abrir com suas chaves a porta, tenta a janela. Nada. Mas ele conhece Raphaël, o morador do apartamento que aluguei pelo airbnb, e tem seu telefone (enquanto ele procura o telefone, eu bem que tento enviar email a Raphaël pelo computador que seu vizinho gentilmente me empresta, mas o google acha que alguém está hackeando minha conta e só a liberará se eu copiar o código que eles enviarão ao meu celular… que está no apartamento onde eu não posso entrar).  Raphaël está em viagem pelos Estados Unidos, mas sua noiva, que mora em Montreal, tem uma cópia da chave do apartamento. É o que Leo (agora sei que o vizinho se chama Leo) me conta após falar com Raphaël por telefone… em espanhol (agora sei que os dois são mexicanos). A noiva não tem como me trazer a chave pois há um tour de ciclismo na cidade e muitas ruas estão bloqueadas. Leo anota o endereço da noiva num papel, junto com o número do seu telefone. Vai comigo até a estação do metrô, compra um bilhete de ida e volta para mim e me dá uma moeda – no caso de eu precisar de algo, posso ligar pra ele. Fico muito grata por tanta bondade com minha pessoa e me vou, esperançosa, de metrô, em busca da chave, levando tudo na mão – papel com o endereço, cartão do […]

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3 de junho de 2018, domingo de sol, duas da tarde. Depois de almoçar fartamente (a comida que eu mesma me fiz, restaurante é caro demais) e ter trabalhado toda manhã (sim, sigo trabalhando em Montreal), penso que é hora de dar uma volta pelo parque e passear pela festa de rua na Avenida Mont Royal (onde artistas de rua se misturam às barracas do comércio local). Antes, porém, decido recolher umas poucas roupas estendidas na varanda dos fundos do apartamento. Estou nessa função quando o vento bate forte a porta. Fora o susto com o barulhão, isso não me preocupa, sigo recolhendo as roupas, mas, na hora de querer entrar, quem diz que a porta abre? Paro, respiro, tento mais uma vez, faço força, tento a janela. Levo algum tempo para concluir que não vou conseguir sair dessa sozinha (eu que prezo tanto minha capacidade de estar só…). Preciso vencer todas as minhas barreiras para finalmente bater à janela do apartamento ao lado (que compartilha a mesma varanda). Por sorte, o vizinho se encontra em casa. Saindo do banho, é verdade. Põe o rosto para fora da porta do banheiro para saber do que se trata. Est-ce que vous pouvez m’aider? – peço, no meu melhor francês, a esse monsieur que eu tinha visto uma única vez, de passagem, ao longo dos 30 dias em que estou aqui. Ele pede um momento, e eu me afasto da janela para ele ter a chance de se vestir. Por sorte, eu própria estou vestida: calça de moletom, uma camiseta qualquer no corpo e havaianas nos pés. O vizinho vem, tenta abrir com suas chaves a porta, tenta a janela. Nada. Mas ele conhece Raphaël, o morador do apartamento que aluguei pelo airbnb, e tem seu telefone (enquanto ele procura o telefone, eu bem que tento enviar email a Raphaël pelo computador que seu vizinho gentilmente me empresta, mas o google acha que alguém está hackeando minha conta e só a liberará se eu copiar o código que eles enviarão ao meu celular… que está no apartamento onde eu não posso entrar).  Raphaël está em viagem pelos Estados Unidos, mas sua noiva, que mora em Montreal, tem uma cópia da chave do apartamento. É o que Leo (agora sei que o vizinho se chama Leo) me conta após falar com Raphaël por telefone… em espanhol (agora sei que os dois são mexicanos). A noiva não tem como me trazer a chave pois há um tour de ciclismo na cidade e muitas ruas estão bloqueadas. Leo anota o endereço da noiva num papel, junto com o número do seu telefone. Vai comigo até a estação do metrô, compra um bilhete de ida e volta para mim e me dá uma moeda – no caso de eu precisar de algo, posso ligar pra ele. Fico muito grata por tanta bondade com minha pessoa e me vou, esperançosa, de metrô, em busca da chave, levando tudo na mão – papel com o endereço, cartão do […]

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