Crônica

Deus me livre do livro

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Deus me livre do livro O pai chegava em casa e batia sem dó na filharada com um volume de Crime e Castigo – que alguém levantou de uma livraria para usar como peso de porta. Ficou perfeito. A mãe, quando irritada, atirava um volume de capa dura de Ulysses nas costas dos filhos, na testa, onde acertasse. No mesmo Ulysses em que ela subia para pegar a lata de açúcar, guardada na prateleira mais alta do armário. O padrinho se divertia fazendo os afilhados comerem folhas de um Dom Quixote em papel bíblia, dizia que era para fortalecer o melão, hahaha. As demais páginas ele enrolava e fumava, mas só no pátio, que a mulher não curtia marofa dentro de casa. Talvez a culpa seja das professoras, que obrigavam a ler cada coisa mais chata que a outra. Por que eu preciso saber dessa Moreninha se vou ser militar, milico não gosta de boiolagem, namoro idiota que não dá nem para passar a mão nos peitos?  Mas é provável que nada, nada tenha traumatizado mais que Machado de Assis. Se você ouve muita gente boa dizendo que sofreu com o velho Machado na escola, imagine o efeito Brás Cubas em uma futura cabeça miliciana. Ou em uma futura cabeça de economista liberal goiaba. Ou em cabeças criadas a salmos e versículos. Vade retro, livro. São hipóteses simplórias, mas certamente deve haver uma explicação profunda para a aversão dessa malta à educação e à cultura. Taxar os livros alegando que pobre não lê. Que pobre só tem acesso a volumes didáticos – que, por óbvio, serão taxados também.  Enquanto isso, “um país se faz com homens e livros” vai virando apenas uma frase do Pensador, e atribuída a Mario Quintana. Publicidade Resta pegar uma página do Jeca Tatu, enrolar um palheiro do demônio. E esquecer.

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O pai chegava em casa e batia sem dó na filharada com um volume de Crime e Castigo – que alguém levantou de uma livraria para usar como peso de porta. Ficou perfeito. A mãe, quando irritada, atirava um volume de capa dura de Ulysses nas costas dos filhos, na testa, onde acertasse. No mesmo Ulysses em que ela subia para pegar a lata de açúcar, guardada na prateleira mais alta do armário. O padrinho se divertia fazendo os afilhados comerem folhas de um Dom Quixote em papel bíblia, dizia que era para fortalecer o melão, hahaha. As demais páginas ele enrolava e fumava, mas só no pátio, que a mulher não curtia marofa dentro de casa. Talvez a culpa seja das professoras, que obrigavam a ler cada coisa mais chata que a outra. Por que eu preciso saber dessa Moreninha se vou ser militar, milico não gosta de boiolagem, namoro idiota que não dá nem para passar a mão nos peitos?  Mas é provável que nada, nada tenha traumatizado mais que Machado de Assis. Se você ouve muita gente boa dizendo que sofreu com o velho Machado na escola, imagine o efeito Brás Cubas em uma futura cabeça miliciana. Ou em uma futura cabeça de economista liberal goiaba. Ou em cabeças criadas a salmos e versículos. Vade retro, livro. São hipóteses simplórias, mas certamente deve haver uma explicação profunda para a aversão dessa malta à educação e à cultura. Taxar os livros alegando que pobre não lê. Que pobre só tem acesso a volumes didáticos – que, por óbvio, serão taxados também.  Enquanto isso, “um país se faz com homens e livros” vai virando apenas uma frase do Pensador, e atribuída a Mario Quintana. Publicidade Resta pegar uma página do Jeca Tatu, enrolar um palheiro do demônio. E esquecer.

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