Crônica

Direita, eleições e a imprensa

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Direita, eleições e a imprensa Foto: Tiago Medina

Surpreendeu-me o pouco movimento percebido durante o dia das eleições legislativas portuguesas, em 10 de março. Naquela data, saí da capital do sul rumo à capital do norte do país, de Lisboa a Porto. Afora alguns cartazes em postes ou outdoors, pouco ou nada lembrava o clima de uma eleição à brasileira – na qual, ao contrário da lusa, a participação é obrigatória. 

Participação, aliás, que não foi das mais baixas nas cidades portuguesas. A abstenção foi a menor em quase 30 anos, 33,8%. Ainda assim, note-se, menos de 70% dos eleitores decidiram participar do processo que definiria o rumo do país. Em movimento contrário, a abstenção no Brasil vem crescendo e, em 2022, chegou a 20,89%, a segunda maior desde 1998.

E quem foi apontado pela imprensa como “vencedor”? O terceiro colocado, Chega, partido de extrema direita, que na sua propaganda pregava uma “limpeza” em Portugal. Saltou de 12 para 50 deputados no parlamento – que conta, ao todo, com 230 membros. Ao fechamento das urnas, consolidou-se como a terceira maior força em um país acostumado ao bipartidarismo desde que sua democracia fora restabelecida, em 1974. 

A “vitória” e a ascensão do Chega se dá numa eleição desencadeada a partir de uma ação errônea do Ministério Público português, que, por engano, ajudou de forma decisiva a tornar demissionário o primeiro ministro português, o socialista António Costa. A denúncia, como reconheceu o próprio MP, seria contra um homônimo de Costa

Mas o estrago estava feito e a extrema direita – que esbaldou-se de manchetes ao longo dos últimos meses a partir de declarações midiáticas – viu o caminho aberto para o seu crescimento, confirmado na noite de 10 de março e exaltado no imaginário cultivado pelos jornais. 

Novamente, as soluções simplistas para problemas complexos atraíram uma quantidade importante de gente. Outra vez, jovens foram impulsionadores de um partido extremista. Fenômenos desta democracia do século XXI, reconheçamos. 

A partir dos resultados, o Chega ganhou ainda mais visibilidade. Mal estavam sendo contabilizados os primeiros deputados e o seu líder, André Ventura, já pressionava o PSD, vencedor de facto da eleição, a formar governo, o que talvez seja inevitável em nome de uma maioria parlamentar. Se este acordo será ou não fechado, são cenas dos próximos capítulos da vida política portuguesa. 

A cada ascensão e avanço da extrema direita é preciso, também, pensar o quanto a mídia e a imprensa – que a partir do empoderamento desses atores passará a ser mais atacada e fragilizada, como já se viu em outros países – serviu de bengala aos próprios, reforçando no imaginário “vitórias” como essa. 

Isso somado à ânsia na publicação em formato de jornalismo declaratório, a falta de contexto em cada matéria sobre absurdos falados, ditos ou defendidos, que, a muitos, serve mais de divulgação do que de ataque. 

Ainda que seja seu papel denunciar o que não está certo e o que está errado, cabe ao jornalismo refletir que também está em seu escopo ampliar o campo e o espaço para soluções. Aprendi com o melhor professor que tive na faculdade, Marques Leonam – que é um repórter, antes de tudo: deve o jornalismo não pecar por ingenuidade. 

Não se pode oferecer o precioso espaço e credibilidade a oportunistas de plantão. Em especial àqueles que, ao cabo, representam risco à democracia. 

Sempre que a ultradireita avança, lembro que, em meio a tanta cobertura sobre a direita, só fui saber quem era Marielle Franco, cujo trabalho foi enorme, no dia em que a vereadora carioca foi metralhada. Isso que morávamos no mesmo país, em tempo similar. 

Isso não pode estar correto. 


Tiago Medina é um dos fundadores da Matinal e editor da Matinal News e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da UFRGS.

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