Crônica, José Falero

Pá, pum

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Pá, pum

Um mano meu tinha um cachorro que tinha uns desmaios bizarros. Assim, do nada. Era pá, pum. Num segundo o bicho tava correndo, e no outro tava caído. Era assim: pá, pum. Pá: tava correndo, pum: tava caído. Pá, pum.

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Um mano meu tinha um cachorro que tinha uns desmaios bizarros. Assim, do nada. Era pá, pum. Num segundo o bicho tava correndo, e no outro tava caído. Era assim: pá, pum. Pá: tava correndo, pum: tava caído. Pá, pum.

E o Centro, de noite? Toda aquela aura maligna, todo aquele ar pesado e venenoso… Qualquer um pode sentir, a menos que seja muito estúpido. Existe uma boa dose de perigo no clima de diversão. Jovenzinhos e jovenzinhas circulam pra lá e pra cá, tentando decidir qual baile invadir. Tudo pulsa, mas os ânimos estão constantemente tensos. Existe medo no meio das risada. Uma piscada pra mina errada pode ser fatal. Olhar torto pra um malandro pode ser fatal. Qualquer gesto pode ser fatal. Tem sempre uma sirene de polícia soando em algum lugar. Tem sempre alguma gritaria ecoando pelas rua. Muitos só querem se divertir, mas tem muita gente em busca de confusão também. Qualquer um pode sentir, a menos que seja muito estúpido. O perigo fica só espiando, em cada esquina; o azar tá sempre rondando, pronto pra dar o bote.

Ninguém pode invadir os baile tomando coisa comprada fora. Por isso eu e uns mano meu ficamo dando um tempo no fim da linha do Pinheiro, na Salgado: a gente tava tomando uns latão que a gente tinha comprado. Depois de tomar tudo, a gente ia escolher um baile e invadir. Esse era o plano.

Uma lotação parou na nossa frente. Eu ainda não sabia, mas era uma tragédia começando a se desenhar. Tinha um porco à paisana dentro da lotação, fazendo a segurança. É normal. Tem muita gente que assalta as lotação, principalmente de noite, e por isso os porco fazem bico de segurança de lotação.

Um bêbado tava passando na nossa frente, entre a gente e a lotação. Esse bêbado não era um atirado nem nada. Tava bem vestido e pá. Só que tinha bebido demais, e antes da hora. Tinha queimado a largada. Já tava tri louco logo no início da farra. Ele tava passando da esquerda pra direita, descendo a Salgado, trocando as pernas.

Três guri vinha subindo a Salgado. Três adolescentes. E no exato momento que eles cruzaram com o bêbado, tudo se alinhou: a lotação, o bêbado, os adolescentes, eu e os meus mano. Tipo, a gente tava aqui, escorado nas porta fechada das loja; um passo diante de nós, bem na nossa frente, tava os adolescentes e o bêbado; e mais um passo adiante, tava a lotação, estacionada junto da calçada.

Os adolescentes começaram a roubar o bêbado. Na mão grande. Dois seguraram ele, e o terceiro foi metendo as mão no bolso do cara. O cara tava tão bêbado, que tentava falar “não cabe, não cabe” e não conseguia falar. Foi tudo muito rápido. Em questão de segundos os guri já tavam seguindo em frente, com o celular do bêbado. Mas, de dentro da lotação, o policial à paisana tinha visto tudo. Ele saiu da lotação. Pistola em punho.

— Ei, ei, não corre!

Por que ele gritou isso? Não fazia sentido nenhum. Os adolescentes nem tinham visto ele. Era só ir caminhando rápido atrás dos adolescentes, e então abordar eles de surpresa. Era impossível que eles tivessem armados. Ladrão armado não precisa assaltar um bêbado entre três, com dois segurando e um pegando as coisa. Ladrão armado rouba loja, rouba taxista, rouba pedestre normal. Quem é que rouba um bêbado, e ainda por cima entre três? Isso é coisa de quem não tem arma. Isso é coisa de quem não tem nem uma faca de cortar pão no bolso. Isso é coisa de quem não tá armado com nada. É óbvio. Então, por que não ir atrás dos adolescentes e abordar eles de surpresa? Pra que gritar “não corre”? Eu pergunto, e eu mesmo respondo: o filho da puta gritou “não corre”, justamente pros guri correr.

Os guri correram.

O porco tava parado, bem na nossa frente. Dobrou um joelho, pra poder mirar melhor. Estendeu a pistola. Fez mira. Eu não acreditei que ele fosse mesmo atirar. Os adolescentes se espalharam: cada um correu prum lado diferente. O porco ficou escolhendo em qual mirar. Escolheu o guri que já tava lá do outro lado da Salgado, correndo em direção às Aerolíneas Argentinas. O porco atirou. Cara, o porco atirou mesmo! A pistola cuspiu fogo, bem na nossa frente. Um monte de faísca, bem na nossa frente.

Lá do outro lado da Salgado, o guri tava correndo. E de repente não tava mais. Foi assim. Pá, pum. Tava correndo, e de repente não tava mais. Pá: tá vivo, pum: tá morto. Tiro certeiro. Na cabeça.

— Vai!, vai!, vai!, vai caraio! — Isso o porco gritou entrando de volta na lotação. Ele tava dizendo pro motorista ir embora. E o motorista obedeceu. A lotação saiu cantando pneu, e dez segundos depois já tinha desaparecido dali.

Eu vi. Ninguém me contou. Eu não vi num filme, eu não vi no jornal. Eu vi na minha frente, ao vivo. Um policial à paisana matou um adolescente desarmado, por roubar uma porra dum celular dum bêbado. Foi bem na minha frente. Imagina a mentalidade introjetada naquele monstro pra julgar que a vida daquele adolescente valia menos do que uma porra dum celular. Até ver uma coisa dessas, por mais numerosas que sejam as notícias, até ver uma coisa dessas com os teus próprios olhos, na tua frente, até aí tu simplesmente não acredita que coisas assim aconteçam de verdade. Até ver uma coisa dessas, tu não acredita que alguém seja capaz de uma covardia desse tamanho. Mas eu vi. Eu vi e eu sei: “o Robocop do governo é frio: não sente pena, só ódio, e ri como a hiena”.

E o guri parecia comigo.


José Carlos da Silva Junior nasceu e vive na Lomba do Pinheiro, periferia de Porto Alegre. Adotou o pseudônimo “José Falero” em homenagem à mãe, de quem herdou a veia artística, mas não o sobrenome. É escritor, autor de Vila Sapo (Venas Abiertas, 2019) e participante das antologias À margem da sanidade (J. Vellucy, 2018) e Ancestralidades: Escritores Negros (Venas Abiertas, 2019). Trabalha como auxiliar de gesseiro para não morrer de fome, e toca cavaquinho para não morrer de tristeza.

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