Crônica

Pra balançar

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Pra balançar

Quando se fala em Porto Alegre, o que te vem à cabeça? O Marinha ou a Redenção? O Bom Fim ou a Cidade Baixa? É só olhar no mapa: quase todos os símbolos que identificam Porto Alegre, pelo menos na cabeça da maioria das pessoas, estão espremidos no oeste da cidade, uns por cima dos outros, à beira do Guaíba. Tanto que jamais se ouviu falar de uma zona oeste de Porto Alegre. Já reparou? Existe a zona sul, existe a zona norte, existe a zona leste e existe o centro – que fica no oeste, mas é chamado de centro. Tudo acontece por ali: a Feira do Livro, os shows do Araújo Vianna e do Opinião, o Acampamento Farroupilha. Aquela região é o centro histórico, é o centro financeiro, é o centro político, é o centro cultural, é o centro boêmio, é o centro simbólico; só não é o centro geográfico, porque fica tudo no oeste, mas quem liga pra isso?

Já eu sou produto do leste – extremo leste. Entalhado a machado nos últimos galhos do Pinheiro, lá onde filho chora e mãe não vê. Dentro de Porto Alegre, não há nada menos porto-alegrense do que o Pinheiro, e disso nós, pinheirenses, nos orgulhamos muito. Aliás, outro dia eu tava cortando o cabelo – no Pinheiro, claro –, quando pesquei um breve diálogo entre dois meninos que aguardavam pra serem atendidos, às minhas costas:

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— De onde tu conhecia esse mano aí?

— Pechei ele lá na Bonsucesso, uma vez. E tu?

— Eu era vizinho dele na Mapa, na antiga.

Eles se referiam a um vendedor de panos de prato que tinha entrado no salão e ido embora, sem conseguir vender nada pra ninguém, mas que tinha interagido longamente com os dois. E eu fiquei pensando comigo mesmo que aquele breve diálogo às minhas costas não devia fazer o menor sentido pros porto-alegrenses de fora do Pinheiro, embora os pinheirenses pudessem entender tudo imediata e automaticamente.

Por acaso o leitor sabe o que vem a ser a Bonsucesso ou o que vem a ser a Mapa? Se não sabe, por acaso ajudaria se eu dissesse que a Bonsucesso é pra dentro da Dezessete e que a Mapa é pra dentro da Quatro? Receio que não. O Pinheiro é um mundo à parte; um mundo com o seu próprio espírito; um mundo com as suas próprias sub-localidades; um mundo com as suas próprias leis; um mundo com o seu próprio jeito de falar; um mundo com o seu próprio campeonato de futebol; um mundo descolado da capital gaúcha. O McDonald’s mais próximo de nós, pinheirenses, nem fica em Porto Alegre, fica no centro de Viamão. A Barragem da Lomba do Sabão é mais familiar pra nós, pinheirenses, do que o Guaíba. Nós, pinheirenses, sabemos pra onde vai todo o lixo produzido na cidade; não achamos a Restinga longe; temos a nossa própria Serra e o nosso próprio Vale; temos até duas escolas de samba!

Inclusive uma dessas escolas de samba, a Mocidade, figurou algumas vezes entre as principais escolas de samba de Porto Alegre, lá nos saudosos anos 90. Em 95, se não me engano, cantamos na avenida, a plenos pulmões, um refrão mais ou menos assim:

Vem João Pé de Feijão
Num carrinho de brinquedo
Vou pegar uma carona nessa história
Pra brincar não tenho medo

Mas o auge do nosso orgulho foi mesmo alguns anos depois, acho que em 98. O nosso esquenta era assim:

É o Pinheiro espalhando
Axé de paz e amor
Abra o seu coração
Que a Mocidade chegou

E depois vinha o nosso inesquecível grito de guerra:

Eu vim da Lomba pra balançar
Eu sou Pinheiro, eu sou estrela, eu vou brilhar

Bons tempos.

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