Crônica

Sabores de esquerda

Change Size Text
Sabores de esquerda
Acordei com uma ideia inquietante. Será possível que o posicionamento político concreto de um determinado ator social seja totalmente, ou em medida substancial, regido pelas suas condições particulares de existência? O chamado “feminismo negro”, por exemplo, surge da constatação, por parte das mulheres negras, de que o movimento feminista não as contemplava, razão pela qual passaram a chamá-lo de “feminismo branco”. E é uma constatação já bem antiga (o feminismo negro chegou ao Brasil no final da década de 1970), mas que encontra amparo mesmo em estatísticas recentes: nas duas décadas de 2000 a 2020, houve um recuo de 33% na prática de feminicídios contra mulheres brancas no país, enquanto os feminicídios contra mulheres negras aumentou 45% (Instituto Igarapé, 2022). Ora, o que explicaria isso, senão a existência de uma articulação política teoricamente interessada na proteção das mulheres em geral mas, na prática, especializada na proteção de mulheres brancas? Além do mais, caso haja esse fenômeno, e tudo indica que há, por que um movimento político que apresenta a intenção manifesta de atingir um determinado grau de generalidade nas suas ações termina por falhar nesse propósito, contemplando, na prática, apenas um subconjunto do grupo-alvo original, senão pela falta de generalidade na própria composição humana desse movimento político? Em outras palavras, se existe, e tudo indica que existe, uma articulação política teoricamente interessada na proteção das mulheres em geral mas que, na prática, protege apenas as mulheres brancas especificamente, não seria porque essa articulação política é composta especificamente por mulheres brancas e não por mulheres em geral? Nada de novo até aqui. As intelectuais negras responderiam essas perguntas sem titubear. O que me inquieta é estender o mesmo raciocínio para além dos feminismos, até campos de discussão mais genéricos, onde predominam conceitos políticos também mais genéricos, tais como o conceito de “esquerda”. Por alguma razão convencionou-se imaginar, por exemplo, que, mesmo sem generalidade na sua composição humana, a esquerda naturalmente tende a antagonizar o status quo social de modo geral, isto é, antagonizar as dominações materiais e simbólicas de determinados grupos sociais em determinados momentos históricos de modo geral. O problema é que essa convenção parece completamente incompatível com a hipótese mencionada anteriormente, de que, na prática, uma articulação política só consiga atingir um determinado grau de generalidade a partir de uma composição humana proporcionalmente geral. Alguns episódios políticos das últimas décadas no Brasil parecem corroborar essa incompatibilidade. Os mais velhos devem se lembrar das grandes expectativas depositadas no Fernando Henrique Cardoso, por ser ele um sociólogo, e também de como essas expectativas acabaram frustradas, talvez por não ser ele um trabalhador. Depois disso veio o Lula, homem de origem humilde cuja consciência política fora forjada no chão de fábrica, e o país testemunhou as maiores transformações em favor das classes populares de toda a sua história. A Dilma, mulher, o sucedeu, e foi responsável por importantes avanços em favor das suas congêneres, também jamais vistos na história do Brasil. E ambos terminaram criminalizados por grupos diretamente antagônicos aos seus respectivos […]

Quer ter acesso ao conteúdo exclusivo?

Assine o Premium

Você também pode experimentar nossas newsletters por 15 dias!

Experimente grátis as newsletters do Grupo Matinal!

RELACIONADAS
ASSINE O PLANO ANUAL E GANHE UM EXEMPLAR DA PARÊNTESE TRI 1
ASSINE O PLANO ANUAL E GANHE UM EXEMPLAR DA PARÊNTESE TRI 1

Esqueceu sua senha?

ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.
ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.