Crônica

Segunda dose

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Segunda dose Nota de recomendação: escutar Mr. Catra – “Adultério”, antes da leitura. Segunda passada eu estava no bar de costume tentando não pensar muito. A noite calada, o frio doendo nos dedos e o corpo carregado pelo cansaço deste segundo ano de pandemia. Percebo uma conversa na mesa ao lado, a segunda a contar da entrada, eu sou a mais próxima à porta. Não quero escutar conversa alheia, esfrego as mãos, mais como quem se espreguiça, como quem quer afastar o frio. Gosto do frio. Coloco minha máscara e me estiro na cadeira olhando pra trás. ‘‘Mais uma dose, por favor’’. A cachaça aqui é boa. A segunda dose é sempre mais quente. Ela bate onde já houve contato prévio com a substância. A dose reforço – penso enquanto percebo que minha cabeça ainda não conseguiu se desligar do trabalho. Ano passado foi a mesma coisa, durante a campanha de vacinação da gripe eu acordava e sonhava com aquilo. Este ano a campanha em dose dupla tem me sugado. Tem sugado a equipe toda. Tento não lembrar da Laura pedindo licença pra ir no banheiro chorar, e nem da Tatiana ficando vermelha com os carteiraços dos ad(ê)vogados. Merda. Tentar não lembrar é inútil. Acabei lembrando. Esfrego os dedos de novo. Vi um filme uma vez no qual a moça esfregava as mãos e observava os dedos, contando-os, para sair dos seus terrores noturnos. Conto meus dedos na ilusão de acordar deste pesadelo. Bebo mais um gole da cachaça. A voz na mesa ao lado se altera e agora chega até mim como o badalar de um sino, insistente na certeza de sua importância. ‘‘É tudo um plano da China, desde o começo tudo foi manipulado por esse bando de chinês filho de puta’’. Eu não sei você, mas quando eu escuto este tipo de frase, meu cérebro normalmente me joga num limbo onde eu posso vegetar por alguns instantes para não acompanhar com minha inteligência esses discursos de segunda mão. Lá é quente, cheio de fumaça e o timbre do Mr. Catra ecoa por todas minhas sinapses cantando “Adultério”. Os minutos que se seguiram foram uma guerra mais ou menos assim: ‘‘Primeiro que todo o negócio fechado entre o Brasil e a China foi uma grande palhaçada.’’ [Sabe esses dia que tu acorda de ressaca? Muito louco, doidão] ‘‘Todos os dados produzidos no Brasil com o uso da Coronavac pertencem automaticamente aos china, porra.’’ [Sua roupa tá cheia de lama e a cachorra tá na cama] ‘‘Viramos um grande laboratório de cobaias.’’ [É o dia que a orgia tomou conta de mim] ‘‘Não adianta o Instituto Butantan ser competente se o governo brasileiro for lá e só cagar no pau.’’ [Na 4×4 a gente zoa] ‘‘Agora essa historinha de mais de 70 mil segundas doses atrasadas numa cidade só. Se o Brasil virou um laboratório, Porto Alegre é a cozinha onde esqueceram uma amostra de propósito.’’ [Whisky, energético, quanta mulher boa] ‘‘Fizeram de propósito sim, Bolsonaro falar merda, ele fala todo […]

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Nota de recomendação: escutar Mr. Catra – “Adultério”, antes da leitura. Segunda passada eu estava no bar de costume tentando não pensar muito. A noite calada, o frio doendo nos dedos e o corpo carregado pelo cansaço deste segundo ano de pandemia. Percebo uma conversa na mesa ao lado, a segunda a contar da entrada, eu sou a mais próxima à porta. Não quero escutar conversa alheia, esfrego as mãos, mais como quem se espreguiça, como quem quer afastar o frio. Gosto do frio. Coloco minha máscara e me estiro na cadeira olhando pra trás. ‘‘Mais uma dose, por favor’’. A cachaça aqui é boa. A segunda dose é sempre mais quente. Ela bate onde já houve contato prévio com a substância. A dose reforço – penso enquanto percebo que minha cabeça ainda não conseguiu se desligar do trabalho. Ano passado foi a mesma coisa, durante a campanha de vacinação da gripe eu acordava e sonhava com aquilo. Este ano a campanha em dose dupla tem me sugado. Tem sugado a equipe toda. Tento não lembrar da Laura pedindo licença pra ir no banheiro chorar, e nem da Tatiana ficando vermelha com os carteiraços dos ad(ê)vogados. Merda. Tentar não lembrar é inútil. Acabei lembrando. Esfrego os dedos de novo. Vi um filme uma vez no qual a moça esfregava as mãos e observava os dedos, contando-os, para sair dos seus terrores noturnos. Conto meus dedos na ilusão de acordar deste pesadelo. Bebo mais um gole da cachaça. A voz na mesa ao lado se altera e agora chega até mim como o badalar de um sino, insistente na certeza de sua importância. ‘‘É tudo um plano da China, desde o começo tudo foi manipulado por esse bando de chinês filho de puta’’. Eu não sei você, mas quando eu escuto este tipo de frase, meu cérebro normalmente me joga num limbo onde eu posso vegetar por alguns instantes para não acompanhar com minha inteligência esses discursos de segunda mão. Lá é quente, cheio de fumaça e o timbre do Mr. Catra ecoa por todas minhas sinapses cantando “Adultério”. Os minutos que se seguiram foram uma guerra mais ou menos assim: ‘‘Primeiro que todo o negócio fechado entre o Brasil e a China foi uma grande palhaçada.’’ [Sabe esses dia que tu acorda de ressaca? Muito louco, doidão] ‘‘Todos os dados produzidos no Brasil com o uso da Coronavac pertencem automaticamente aos china, porra.’’ [Sua roupa tá cheia de lama e a cachorra tá na cama] ‘‘Viramos um grande laboratório de cobaias.’’ [É o dia que a orgia tomou conta de mim] ‘‘Não adianta o Instituto Butantan ser competente se o governo brasileiro for lá e só cagar no pau.’’ [Na 4×4 a gente zoa] ‘‘Agora essa historinha de mais de 70 mil segundas doses atrasadas numa cidade só. Se o Brasil virou um laboratório, Porto Alegre é a cozinha onde esqueceram uma amostra de propósito.’’ [Whisky, energético, quanta mulher boa] ‘‘Fizeram de propósito sim, Bolsonaro falar merda, ele fala todo […]

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