Crônica

Setembro

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Setembro Da primeira vez que eu vi A origem do mundo à primeira vez que pude compará-la com o órgão que me deu origem passou-se apenas memória. Poderiam ser duzentos e quatro, noventa e sete, três ou quarenta e um. Pouco se me dá. O resultado da vida, quando bem medida, é sangue, minério e dor. Não há escalímetro, compasso ou régua capaz de medir a extensão disso. E se os objetos podem tão pouco, o que poderá a memória – esse espelho descascado das coisas refletidas no vazio – quando colocada em contato com aquilo que tem força para dissolver aço? Bem, não sei a sua, mas a minha pode muito pouco, quase nada. A despeito disso, Bob Seager me sussurra que faz vinte anos agora. Vinte anos de muitas coisas, mas principalmente vinte anos que as Torres do World Trade Center desabaram. É bastante óbvio para quem quer que seja que vinte anos podem ser simplesmente o tempo que o Chevette branco da minha tia levava até o Sport Club Rio Grande, onde eu vi duas vezes o céu através do vidro (na época Deus tinha sete anos, se chamava Francine e me garantia, dentre gargalhadas, não existir). Ou o tempo que me resta de futuro. Ou um segundo. Ou a eternidade na parte de cima das minhas unhas.  No dia 11 de setembro de 2001 eu tinha apenas duas décadas de vida e vivia empanturrado de arrogância, burrice e After Sport. Era época de John Fante, de Julio Cortázar, de Zadie Smith e de Michel Houellebecq. Alguém da PUCRS me disse que algo tinha acontecido em Manhattan. E eu não dei a mínima, porque Manhattan para mim, àquela altura, podia derreter que eu não me importava. A América Latina era a minha casa e pouco me interessava a vida dos norte-americanos, com exceção de Paul Auster. Eu não me importava. As primeiras informações, claro, eram desencontradas. O que a gente especulava era que um ultraleve havia se chocado com uma das Torres Gêmeas. E, nesse meio tempo, de dúvida e fumaça, o segundo avião encontrou a outra torre. Era como um videogame quando você se irrita com sua própria incapacidade de superá-lo e começa a destruir os cenários.  Se eu soubesse contar, diria que daquele dia em diante tudo mudou. Semiótica da religião? Onze de setembro. Sexualidade alterada pela imagem constante de dois ícones fálicos desabando? Onze de setembro. Álbum Branco dos Beatles? Onze de setembro. Um teclado de telefone? Onze de setembro. Crianças brincando ao redor de um hidrante, no meio do verão do Brooklyn? Onze de setembro. Um bilhete aéreo para qualquer destino? Onze de setembro. Minha carteira sobre a mesa, ao lado de um artigo de Jean Baudrillard? Onze de setembro. Todos os calendários apontando a mesma data.  Todos os relógios marcando o mesmo horário.  Quando você tem vinte anos às vezes não consegue perceber, entre uma tacada de sinuca e outra, que dois mil e setecentos trabalhadores perdendo a vida é algo triste, não […]

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Da primeira vez que eu vi A origem do mundo à primeira vez que pude compará-la com o órgão que me deu origem passou-se apenas memória. Poderiam ser duzentos e quatro, noventa e sete, três ou quarenta e um. Pouco se me dá. O resultado da vida, quando bem medida, é sangue, minério e dor. Não há escalímetro, compasso ou régua capaz de medir a extensão disso. E se os objetos podem tão pouco, o que poderá a memória – esse espelho descascado das coisas refletidas no vazio – quando colocada em contato com aquilo que tem força para dissolver aço? Bem, não sei a sua, mas a minha pode muito pouco, quase nada. A despeito disso, Bob Seager me sussurra que faz vinte anos agora. Vinte anos de muitas coisas, mas principalmente vinte anos que as Torres do World Trade Center desabaram. É bastante óbvio para quem quer que seja que vinte anos podem ser simplesmente o tempo que o Chevette branco da minha tia levava até o Sport Club Rio Grande, onde eu vi duas vezes o céu através do vidro (na época Deus tinha sete anos, se chamava Francine e me garantia, dentre gargalhadas, não existir). Ou o tempo que me resta de futuro. Ou um segundo. Ou a eternidade na parte de cima das minhas unhas.  No dia 11 de setembro de 2001 eu tinha apenas duas décadas de vida e vivia empanturrado de arrogância, burrice e After Sport. Era época de John Fante, de Julio Cortázar, de Zadie Smith e de Michel Houellebecq. Alguém da PUCRS me disse que algo tinha acontecido em Manhattan. E eu não dei a mínima, porque Manhattan para mim, àquela altura, podia derreter que eu não me importava. A América Latina era a minha casa e pouco me interessava a vida dos norte-americanos, com exceção de Paul Auster. Eu não me importava. As primeiras informações, claro, eram desencontradas. O que a gente especulava era que um ultraleve havia se chocado com uma das Torres Gêmeas. E, nesse meio tempo, de dúvida e fumaça, o segundo avião encontrou a outra torre. Era como um videogame quando você se irrita com sua própria incapacidade de superá-lo e começa a destruir os cenários.  Se eu soubesse contar, diria que daquele dia em diante tudo mudou. Semiótica da religião? Onze de setembro. Sexualidade alterada pela imagem constante de dois ícones fálicos desabando? Onze de setembro. Álbum Branco dos Beatles? Onze de setembro. Um teclado de telefone? Onze de setembro. Crianças brincando ao redor de um hidrante, no meio do verão do Brooklyn? Onze de setembro. Um bilhete aéreo para qualquer destino? Onze de setembro. Minha carteira sobre a mesa, ao lado de um artigo de Jean Baudrillard? Onze de setembro. Todos os calendários apontando a mesma data.  Todos os relógios marcando o mesmo horário.  Quando você tem vinte anos às vezes não consegue perceber, entre uma tacada de sinuca e outra, que dois mil e setecentos trabalhadores perdendo a vida é algo triste, não […]

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