Crônica

Sweet Child O’ Mine: quarta parte

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Sweet Child O’ Mine: quarta parte

Depois daquele inesquecível fim de ano, veio, como era de se esperar, o início do ano seguinte, trazendo consigo tudo o que dá cheiro e cor a janeiro. A novidade, para mim, era uma sensação extra de anseio e esperança, uma espécie de acréscimo no afã de atravessar os dias, como se tivesse chegado aos gramados da minha vida, a título de promessa e com grande pompa, uma contratação importante, um craque indiscutível, um reforço de peso para a nova temporada. E tinha chegado mesmo: era a música. Desnecessário comentar, portanto, que, a contragosto do meu estado de espírito, o tempo fez questão de arrastar-se sem a menor pressa até o retorno dos encontros noturnos no falecido Centro Cultura da Lomba do Pinheiro.

Acontece que até mesmo os momentos esperados com maior força uma hora chegam, e não foi diferente com a volta da oficina. Eu e o meu cavaco pré-histórico, o Chico e o seu pandeiro desbeiçado, o Fausto e o seu violão elegante, o capinzal do Centro Cultura e o seu incansável coro de grilos: estávamos quase todos lá, reunidos novamente. Quase todos. Quase. Isso porque, na guerra entre o desfrute da cultura e o enfrentamento à vida real, havíamos tido algumas baixas, entre as quais a minha irmã, que tinha ido morar em Montenegro para cursar a faculdade. Por outro lado, não eram poucos os rostos novos; a turma como um todo talvez estivesse até maior agora. E um dos novatos, inclusive, era um roqueiro irremediável chamado Maickel: o meu melhor amigo desde que eu me entendia por gente. Sem dizer a ele que na verdade o que eu precisava era de alguém que substituísse a minha irmã na tarefa de me fazer companhia e amenizar o meu medo do mundo, eu o tinha convencido a frequentar a oficina comigo.

Naquele ano, os encontros no Centro Cultural e as rodas de samba do Pinheiro não foram os únicos eventos musicais em que compareci; houve outros dois, os quais possivelmente vale a pena mencionar aqui. Um par de shows. O que é curioso, já que idas a shows não são coisas lá muito frequentes na minha vida. Para falar a verdade, são coisas bastante raras: tirando as vezes em que assisti aos desfiles das escolas de samba na avenida Augusto de Carvalho, que também não chegaram a ser tantas assim, acho que, ao longo dos meus 33 anos de existência, fui em apenas três shows de música, incluindo os dois sobre os quais vou falar agora.

O primeiro foi a memorável apresentação da TNT (Tá No Tom). Salvo engano, a formação da banda era: Jajá no vocal, Leprê no surdo, Keké no pandeiro, Vá no reco-reco e Ploc no cavaco. E creio que seja válido esclarecer que o referido Ploc era eu.

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Sim, eu. Ploc era, e ainda é, o meu apelido na minha vila.

Formamos a TNT no início daquele mesmo ano, ensaiamos ao longo de uns poucos meses daquele mesmo ano, estreamos no palco em meados daquele mesmo ano e logo em seguida, ainda naquele mesmo ano, decidimos encerrar a banda. Acho que o bom senso era uma virtude nossa: alguém já disse por aí que não é preciso beber um barril inteiro para saber se o seu conteúdo é vinho ou vinagre, ou algo assim. Pelo menos tivemos a nossa primeira e última apresentação, que foi uma das tantas atrações de uma festa popular na mesma rua da Ocupação Pandorga, perto da Azenha.

Não sou capaz de recordar uma única música sequer do nosso repertório, mas testemunhei naquela noite um acontecimento peculiar que marcou a minha memória a ferro e fogo. Depois das apresentações, todas as bandinhas de pagode, incluindo a nossa, se reuniram e formaram uma enorme roda de samba. Ficamos tocando até tarde da noite, e, como em toda roda de samba que se preze, também naquela nossa qualquer um podia se aproximar e pedir um instrumento emprestado para tocar uma ou duas músicas. O que ninguém esperava era que um pequeno projeto de gente, um piá de no máximo 5 anos de idade que morava ali pelas redondezas, se aproximasse e pedisse o tantã. A gargalhada foi geral. E não era sem motivo: o instrumento que ele pedia devia ser, literalmente, maior do que ele. No entanto, o povo morador daquela rua, que conhecia o menino, garantiu, em coro, que ele dava conta do recado. Então, em meio a risos e olhares céticos, deixaram-no sentar-se na roda e largaram o tantã no seu colo.

Seguiu-se uma cena tão impressionante, que receio ser impossível, pelo menos para mim, reconstruí-la com a devida força por meio da palavra escrita. Aqui, portanto, conto com o máximo esforço de imaginação do leitor. Vamos lá. Um anão de jardim com um tantã maior do que ele no colo; um cavaquinista cretino que puxou Na palma da mão, do Revelação, música em que a entrada do tantã, logo após o verso “o tantã vem tocando ligeiro”, é difícil mesmo para um tocador barbado; a multidão na expectativa, torcendo para que o menino se saísse bem; por fim, a explosão de vozes em comemoração, como num gol de copa do mundo, e o mar de olhos espantados com aqueles bracinhos e mãozinhas minúsculos que não só fizeram corretamente a entrada do tantã como seguiram tirando som alto, ritmado e cheio de quebradas do instrumento ao longo de toda aquela música e das outras três que o cavaquinista cretino emendou em pot-pourri.

Naquela noite, a minha fé de que o talento inato não existe foi seriamente abalada.

O outro evento musical em que compareci naquele ano foi o lançamento do Suíte Xangri-Lá, álbum com músicas de Fausto Prado e letras de Caetano Silveira. Isso mesmo: Fausto Prado, o mesmo que ministrava a nossa oficina. Ele não só convidou toda a turma a comparecer no teatro Renascença, onde se deu o lançamento, como presenteou cada um de nós com uma cópia do Suíte Xangri-Lá.

O show no Renascença me causou uma espécie de choque de realidade. Bebida e petisco grátis para todos os presentes, teatro lotado, TVE filmando, músicos de altíssima qualidade, composições idem. Entendi, algo constrangido, que aquele cara despenteado que se despencava do Bom Fim para ministrar a oficina de música na Lomba do Pinheiro, o Fausto, não era um qualquer: era alguém que tinha conquistado o respeito e a atenção da cena musical porto-alegrense. Ao mesmo tempo, pude calcular, com precisão inédita, o tamanho do abismo que separava a minha laia da bolha artística de Porto Alegre. Como se fazia para protagonizar uma cena como aquela? De onde se tirava dinheiro para oferecer um coquetel? Com quem se devia falar para alugar o Renascença por uma noite? Como funcionavam essas coisas todas? Como se fazia para gravar um CD? De que jeito se mobilizava a TVE para que fosse cobrir um evento? Como se fazia para ser legitimado como artista, em vez de ser considerado arteiro?

Essas e muitas outras questões ficaram girando dentro da minha cabeça, não só durante o show, mas também depois, quando já caminhávamos pela escuridão da Ipiranga, empanturrados e bêbados, voltando para as profundezas da cidade.

Leia aqui as outras partes da série.


José Falero é escritor, autor de Vila Sapo (Venas Abiertas, 2019) e Os Supridores (Todavia, 2020).

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