Crônica

Um vilão ruim

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Um vilão ruim

Jair é um vilão ruim, como aqueles que ficam tramando o mal em seus castelos. Ele não tem marca de origem ou vida de suplício que relativize o mal, como Darth Vader; não tem charme ou sofisticação que tergiverse o mal, como Hannibal Lecter; não tem legítima razão pessoal que desabone o mal, como a Bruxa Malvada do Oeste. Jair é o mal explícito, o mal puro, o mal cru.

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Jair é um vilão ruim, como aqueles que ficam tramando o mal em seus castelos. Ele não tem marca de origem ou vida de suplício que relativize o mal, como Darth Vader; não tem charme ou sofisticação que tergiverse o mal, como Hannibal Lecter; não tem legítima razão pessoal que desabone o mal, como a Bruxa Malvada do Oeste. Jair é o mal explícito, o mal puro, o mal cru.

A ONG Human Rights Watch diz que Jair sabota as medidas sanitárias pra conter a propagação da Covid. Jair mente sobre a existência de tratamento precoce com relação à doença. Jair deixa que o pantanal queime, matando e machucando animais selvagens brasileiros. Avisaram o Jair que o oxigênio acabaria em Manaus, dez dias antes, mas ele deixou as pessoas morrerem sufocadas. Jair promove aglomerações sempre que pode. Jair lamenta a aprovação da vacina pela Anvisa.

Sabem qual foi a última? Jair decidiu que teria ENEM, pronto e acabou. Mesmo que as festas de Natal e Ano Novo estejam gerando alta de casos, não teria problema juntar milhões de estudantes para fazerem as provas. Bom, mas pra fazerem as provas, respeitando os protocolos, o INEP teria de selecionar mais locais de exame. Às vésperas da prova, a Defensoria Pública recebeu denúncias de que os espaços teriam 80% de ocupação, e não 50%, como era permitido. O órgão tentou impedir a realização do exame ao indicar que o INEP mentira sobre as medidas de segurança. Não conseguiu. Daí o que aconteceu no domingo, dia 17? Alunos foram impedidos de fazer a prova quando a ocupação dos lugares ultrapassou 50%! (E olha que teve 50% de abstenção…) Voltaram pra casa tendo seus nomes anotados pela organização e com um número de telefone, para entrarem em contato. No dia 18 foram informados de que podem manifestar interesse em fazer a prova no site do INEP. Um absurdo!

Não tem velhinho, criança, planta, bicho, homem ou mulher a salvo de Jair. Às vezes fantasio gargalhadas ecoando no Palácio da Alvorada quando Jair planeja, com seus asseclas, a próxima maldade. A verdade, contudo, é muito mais dura. No máximo da alienação, um homem que só se preocupa consigo e com sua família perde qualquer lastro de experiência humana. Com isso, não nutre valor pelos outros, pela natureza, pela vida, pela história, pela arte. Sua rotina deve ser realmente a gangorra que transparece nas entrevistas, entre eufórico e exaurido. Ali não há substância humana que refreie afetos ou memórias. Tampouco se trata de mácula formada da noite para o dia, e que talvez pudesse ser revertida da noite para o dia. Jair forjou sua vilania ao longo de décadas de um comportamento abjeto.

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Seja pelo arrefecimento das forças que lhe opunham, seja pelo aprofundamento do pacto bárbaro das elites brasileiras, nos últimos meses Jair não tem dormido mais tão preocupado como antes – 10, 50, 100, 200 mil mortos não lhe tiram o sono. Sua imunidade presidencial não se estende aos filhos, logo, perseguir os crimes dos rebentos seria nossa melhor chance contra Jair, o que se deixou de fazer. Também parece ter sumido do horizonte seu impedimento e Jair segue favorito para 2022.

Porque Jair é o exemplo acabado da desumanização máxima pela alienação, a massa alienada que o suporta o toma por modelo. O caminho até o mito parece, e talvez seja, muito mais fácil e curto do que o caminho até uma pessoa normal. Vocês já pararam pra pensar que seria muito melhor se a Bruxa do Oeste, Hannibal Lecter ou Darth Vader nos presidisse? Alguém transformado em sapo aqui, fatiado ali, sufocado acolá, mas genocidio não teríamos.

Um vilão ruim, como Jair, quer tudo destruído e todos mortos, para poder governar autoritariamente. Um vilão ruim, como Jair, só termina quando todo o reino se parecer com a devastação que traz dentro de si. Esse é o “para sempre” que precisa ser evitado.


Guto Leite é poeta, cancionista e professor de Literatura Brasileira na UFRGS.

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