Entrevista | Parêntese

Da exclusão à autoafirmação indígena

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Da exclusão à autoafirmação indígena
Márcia Mura compartilha o processo de construção da sua identidade  Por Luís Augusto Fischer O tempo do fogo e o tempo da inundação: a luta de Márcia Mura é pela descolonização e pela garantia dos direitos dos povos indígenas. Foto: Arquivo pessoal Conheci a Márcia Mura, nossa entrevistada de hoje, numa cidade improvável para mim – Rolim de Moura, em Rondônia. Uma amiga é professora na Universidade Federal de lá e me convidou para um evento, e eu, que nunca tinha ido à Amazônia, aproveitei e armei uma viagem da família (às nossas custas, digo para registro). Fomos a Manaus e, ao fim de uns dias, meus filhos e a Julia voltaram para cá, enquanto eu rumei para a capital de Rondônia, Porto Velho, e de lá peguei um ônibus, em viagem tipo toda a noite, até Rolim de Moura, ao sul. Isso foi em setembro de 2018. No hotel da cidade, logo avistei uma mulher com aspecto de indígena, não apenas pelo cabelo e cor da pele, mas porque tinha uma delicada mas visível pintura nos olhos, um linha preta que saía do canto externo de cada olho em direção às têmporas. Em poucos minutos, vimos que estávamos no mesmo evento, e ela se chamava Márcia Mura. Ouvi-la foi uma das coisas boas da viagem. Foi uma aula prática de história saber como uma pessoa se pensa como indígena, tendo antes vivido sem essa marca, sem essa cultura. Anotei o telefone, baixei sua tese de doutorado, defendida na USP, e vim lendo-a no longo trajeto de retorno a este outro Porto, dito Alegre.  Restabeleci esse contato e convidei a Márcia para contar sua história, que merece ser conhecida. Ela expressa bem um processo relativamente novo, que nossa revista tem apresentado nos textos da Julie Dorrico, por sinal outra rondoniense: o processo segundo o qual indivíduos decidem reencontrar seus laços com ancestrais indígenas. Já tive oportunidade de dizer a um descendente de italianos aqui no Estado, quando ele me disse que não fazia sentido alguém que, disse ele, “já não era índio querer voltar a ser índio”. Eu perguntei a ele se não era bem como o caso dele, um sujeito nascido aqui no Brasil, com bisavós italianos, e que agora tinha resolvido buscar a cidadania italiana. Ele não chegou a me responder articuladamente, e nem precisava. O sujeito tem direito de se encontrar com sua identidade, e isso é tudo. O leitor vai gostar de saber da história pessoal. E se quiser aqui está a sua tese. Parêntese – Márcia, conta quem tu és, tuas atividades, em que tu trabalhas. Márcia Mura – Poranga Karuka (muito obrigada), Fischer, pelo convite para essa entrevista. Bom, no meu registro oficial meu nome é Márcia Nunes Maciel. O Maciel é sobrenome do meu bisavô, pai da minha avó materna, porque minha mãe não me registrou com o nome do meu pai. Eu tinha nove meses quando eles se separaram e aí ela me registrou com o sobrenome da minha avó que traz […]

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