Entrevista

Luciano Alabarse: a arte não pode ser a ponte para uma pizza

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Luciano Alabarse: a arte não pode ser a ponte para uma pizza

Luciano Alabarse, o diretor de teatro que montou algumas das peças mais importantes que Porto Alegre já assistiu, acaba de completar 50 anos de carreira. É muito tempo e são muitas histórias, dentro e fora dos palcos. O menino que queria ser professor de português acabou nas Artes Cênicas da UFRGS por acaso, virou tropicalista por convicção e nunca mais deixou de juntar a contracultura com a mais alta cultura em seus trabalhos e na vida. Nessa conversa com Claudia e Theo Tajes, para a Parêntese, em sua casa na Zona Sul, Alabarse fala do teatro, de sua paixão pela literatura, de como conseguiu conciliar o serviço público com o arte – a as brigas que muitas vezes comprou por conta disso – e de continuar sempre como o barqueiro que leva um hipopótamo no barco. Não é fácil, mas nem por isso ele vai parar. 

Parêntese: Como foi que a arte entrou na vida do Luciano? 
Luciano Alabarse: Eu já falei algumas vezes, e é real. Eu nunca tinha pensado em arte na minha vida, e nem na minha família tem esse histórico. Fui um menino de classe média baixa, o meu pai teve armazém a vida toda e eu sempre fui muito fascinado por palavras, então eu queria ser professor de português. Tinha que ser de português pela paixão que eu tive desde muito pequeno por palavras. A mãe me contava que quando eu era muito pequeno e não sabia falar direito, eu empacava com uma palavra até que ela saísse certinho. Sempre fui um aluno muito bom, se não era o primeiro, era o segundo da aula. No meio disso meus pais me colocaram no Farroupilha – eu morava na vila Bom Jesus, e do outro lado da Protásio é o bairro Três Figueiras, onde fica o Farroupilha. Eles me puseram no Farroupilha sem me dizer que existiam diferenças de classe. Que nem todo mundo tinha a mesma grana, o mesmo padrão de vida, e a diferença foi um choque pra mim, porque eu entendi que era diferente do resto do colégio. Eu não tinha dinheiro, não tinha tantos recursos. Não que me faltasse comida ou coisas assim, mas eu intuí na mesma hora que havia outra realidade, que nem todo mundo era igual, e aquilo me marcou profundamente. O que eu fiz pra me igualar? Disse, vou estudar muito pra ter um tipo de compensação. E assim foi. Tive professores maravilhosos. Meus professores de português sempre entendiam que aquele guri gostava de palavras, gostava de ler, e não era muito comum isso na escola.

P: Tudo levava a crer que havia um professor a caminho.
LA: Pois então. Foi aí que eu cheguei ao vestibular e nessa época, por várias razões, tive que ir para o Colégio Ruy Barbosa, que não existe mais. Do Farroupilha ao Ruy Barbosa era Viena a Canoas, uma coisa inexplicável. E ainda assim eu me senti mais feliz porque eu fui fazer o Clássico, na época se chamava assim. Tirei o primeiro lugar da turma e pronto, fui preencher meu formulário do vestibular. E o que aconteceu? Eu preenchi errado. Preenchi uma linha abaixo, em vez de Licenciatura em Letras – Português, eu preenchi Licenciatura em Artes Cênicas. 

P: Quer dizer que a arte te encontrou por acaso?
LA: Quando saiu o resultado não foi surpresa pra ninguém que eu tinha passado. Agora, o curso… Meu pai me deserdou do testamento na mesma hora, não aceito isso, vai ficar em casa estudando pra passar em uma opção melhor. Eu disse, pai, não foi falta de estudo, foi alguma coisa que eu errei no formulário. Geminiano, não me dei conta.
E aí eu fui fazer a aula pra ver. Não queria ficar um ano na minha casa sem fazer coisa alguma. Logo na primeira aula, quem nos deu as boas-vindas foi o Luiz Paulo Vasconcellos naquele teatrinho pequeninho do DAD (Departamento de Artes Dramáticas), da Salgado Filho. Quando ele começou com aqueles ‘esses’ e ‘erres’ profundos, eu disse, acabou. Minha vida vai mudar. Experienciar aquele homem dizendo aquelas coisas… E começou assim. Eu chamo o Luiz Paulo de Maestro Soberano, e somos amigos até hoje. Faz 50 anos.

P: Os alunos perderam um ótimo professor. Mas o teatro teria perdido muito mais.
LA: Foi assim de lá pra cá. E não é que se passaram 10 anos, se passaram 50 anos e parece que não passou? Eu não contei o tempo assim, o tempo não pesou. Eu sempre me surpreendi desde o primeiro dia com o palco, com o teatro. Isso é de verdade. Pra mim foi o sagrado que se abriu ali através da voz do Luiz Paulo. E é o que eu procuro até hoje: um teatro que ilumine, que aumente, que dê perspectiva de vida. Isso não é da boca pra fora. Não virei um cara arrogante, não virei um intelectualzinho, mas virei um sacerdote daquilo. Eu entro no palco e bato cabeça, não é qualquer lugar. Não é qualquer coisa, né? E não significa acertar, pode errar, mas tem que ver o que te leva, o que te move. É uma coisa que me dá sempre um portal, é como um portal aquilo. O Peter Brook tem aquele livro maravilhoso, Espaço Vazio, ele diz que tu tem o espaço vazio e tu tem que criar um mundo. Tu tem que criar uma linguagem, tem que entender quem é o autor que tu escolhe pra montar, qual é o elenco que tu tem na mão, como é que tu vai fazer. 

P: E hoje tu sabe fazer muito bem.
LA: Cinquenta anos depois, eu tenho um razoável conhecimento, mas o prazer é o mesmo. Eu gosto cada vez mais, não esgotou aquela curiosidade daquele aluno errado. Tive algumas chances de sair de Porto Alegre, mas não fui e acho que acertei, porque eu consegui fazer o teatro que eu quis. Talvez em São Paulo ou no Rio não fosse tão simples, e aqui a carreira aconteceu nesse sentido. Eu escrevi um livro, que deve sair daqui a pouco, se chama “Direções”, que são os meus 50 anos de carreira. É tudo da minha memória. Não fiz pesquisa, não fiz nada. E é muito bonito rever como eu me aproximei dos gregos, por exemplo. Aliás: depois que me aproximei dos gregos, entendi tudo, porque o herói grego chega no destino dele pelo erro. Ele erra, cai. E foi o que eu fiz, eu errei, caí. E caí no lugar certo. 

P: E como foi construir uma carreira inteira em Porto Alegre?
LA: Porto Alegre não é uma cidade fácil pra nada de cultura. Eu fico cada vez mais espantado, porque a gente ouve, lê, parece que tá tudo bem, tudo funcionando, as instituições, teatros, espaços. Eu acho tão difícil fazer teatro de verdade, ter condições. Nunca gostei de chororô. Eu não gosto de ficar reclamando e isso não é uma reclamação, eu estou constatando que é duro. A gente tem que pegar um martelo e ir esculpindo tudo a marteladas cada vez.  E mesmo assim eu me dou conta de como a vida me deu privilégios – não de grana, mas de amigos. Amigos que se importam, que me fizeram na minha vida sempre estar na beira do arame. O (João Gilberto) Noll foi um deles. Eu estava me dando conta: a vida me deu na área da palavra grandes amigos: o Caio Fernando Abreu, a Lia Luft, o Noll e alguns outros. Não eram pessoas só conhecidas, mas pessoas que trocavam coisas comigo, me apontavam. Isso eu acho extraordinário na palavra. O meu teatro passa pela palavra. Nunca é só um teatro físico. Pode ter muita teatralidade, fisicalidade, mas eu gosto é da palavra. Gosto de pegar textos que não são escritos para o palco e fazer adaptações. Do próprio Noll eu montei Hotel Atlântico anos atrás. Eu sou um diretor de teatro. É isso que eu quero ser. É isso que eu gosto. Quando perguntam o que tu é, Luciano?, respondo: diretor de teatro. É isso que eu sou. 

P: O teatro te levou a outros lugares.
LA: Toda a minha vida seguiu com portais abertos por causa do teatro, eu não tenho a menor dúvida. Mas eu não gosto de tudo em teatro, não tem como. Eu não gosto de entretenimento, eu não gosto de perder tempo, eu não gosto de pensar que o teatro é um pretexto pra ir numa pizzaria depois da peça. Isso eu acho que é desprezar a arte, a cultura, pensar que ela é uma ponte pra uma pizza. E é difícil. Ao mesmo tempo, gosto de trabalhar com gente que tem muita estrada, muita experiência, que são os melhores, que são os da minha geração – os que estão vivos e ativos da minha geração – e com os novos, os que estão chegando. Eu sempre vi e ouvi o que pensa essa gente que está chegando, às vezes com tantas ideias embaralhadas. Sem noção da dificuldade que é a criação, como é que a gente destrincha uma coisa que é complicada pra ficar simples. Isso que é o bom. Eu não gosto de nada que é fácil. 

P: O que te conquista na arte?
LA: Eu gosto dos mestres. Eu gosto do que me perturba e também gosto do que me acalma e do que me faz achar que a vida é leve. E qual a diferença entre vida e palco e teatro? É a beleza. As vezes eu não enxergo beleza na vida cotidiana, essa mediocrídade de tudo. De costumes, de política, de tudo. O palco tem a chance de mostrar tudo isso e mostrar beleza. A arte salva pela sua linguagem específica do belo. Às vezes eu escuto pessoas dizendo ai, mas assim é muito pesado, Luciano. Não. A arte não é pesada, pesada é a vida que a gente tem. Eu gosto muitíssimo de três áreas na arte: teatro, claro que sim, literatura, eu leio como um condenado, e música. Estou sempre ouvindo música.  Por exemplo, eu estava adaptando os dois textos que deram origem a Sangue e Pudins, minha peça mais recente, e estava a Simone cantando no toca-discos. Eu gosto de ouvir coisas que marcaram a minha vida lá pra trás, que faz um tempão que eu não escuto, e eu estava ouvindo a Simone. Um disco antigo dela chamado “Cigarra” que terminava com “Sangue e Pudins”, uma canção que desde sempre me impressionou. Virou o nome da peça. Minha vida é isso, ficar aprendendo a fazer teatro.

P: Tu nunca pensou em ser ator?
LA: Nunca. Eu odeio o Luiz Paulo toda vez que eu me lembro que, nas aulas do DAD, a gente era obrigado a fazer as cadeiras práticas, então ele me obrigava a ser ator. Eu tinha pavor daquilo. Uma vez fiz um Molière, e ele me pôs de calçãozinho no palco. Eu rezava pra que aquilo terminasse logo, aquele tormento. Hoje ele ri muito. Eu não queria ser, nunca quis ser ator. Eu queria ser diretor. Eu queria aquela chance de ter um espaço vazio e ver a minha proposta aparecendo, se materializando na minha frente.
E no meio disso tem toda a minha colaboração com o serviço público, que hoje eu não quero mais.

P: Como tu conseguiu conciliar a arte com um crachá de servidor público?
LA: Não me queixo de nada, foi muito bom pra mim aprender. Mas não foi tão simples. Agora, por exemplo, a gente está vivendo uma situação surreal, eu acho que a classe teatral está coberta de razão. Como que a reabertura do Teatro de Câmara exclui o teatro? Mas o que é isso? É inacreditável. Ai, é um período de teste de 45 dias. Mas teste pra quê?  Isso me dá um desgaste, sabe? Todo mundo vindo e batendo e me perguntando, e eu fico pensando, como é que pode um edital público de ocupação de um teatro excluir o teatro? Não tem lógica. Eu não quero defender o indefensável. Praticamente nunca concorri a editais públicos pra ganhar grana, pra poder ter essa independência que eu quero ter, mas eu quero que um edital funcione. Não pode um edital que vai reabrir um teatro excluir o teatro. As vezes a gente esbarra em Porto Alegre em boas intenções que só derrubam quem faz, que só criam obstáculos. Porto Alegre tem muito problema, e não só no poder público. É muita inveja, muita picuinha, pequenas e grandes disputas, gente puxando teu tapete. Isso, justiça seja feita, não é de agora. Vai mudando a formatação. A gente vê isso tudo, mas vai mudando a formatação. 

P: Tu acha que a situação da cultura piorou em Porto Alegre?
LA: Nunca foi como agora, eu acho, tão rala a produção artística. Por isso que tento fazer um teatro meio fora da curva. No governo passado isso piorou, mas é anterior a isso na minha percepção. Claro que a pandemia só ajudou a enterrar tudo. Foi tudo para o saco. As pessoas ficaram sem teatro, sem público, ninguém queria sair. Então o que é isso pra mim? As instituições funcionam, mas quem faz, o cara que está ralando ali no dia a dia, fazendo – que é o meu caso, porque eu voltei a ser um diretor de teatro -, só encontra dificuldade. Eu tô falando de teatro, mas imagino que tem a mesma dificuldade pra alguém que queira escrever um livro e publicar  o seu livro. Escrever o livro é uma coisa; publicar, distribuir, é outra. Eu fico olhando Porto Alegre, essa dicotomia da cidade. Essa coisa que o Caio me falava do escorpião, de ferrar com o veneno. Eu não acho Porto Alegre uma cidade amiguinha. Claro que tem a turma das pessoas queridíssimas, por favor, eu sei quem são. Eu tinha um círculo de pessoas, de artistas, de amigos maravilhosos, mas eu tô falando no geral, de como eu acho difícil hoje um grupo de teatro encontrar um jeito de fazer o seu teatro. É uma coisa estranha, parece que está tudo bem em Porto Alegre, mas não está, porque falta a vida local, falta a produção local, de verdade, poderosa. É tudo sofrido pra chegar lá, então cada vez mais se depende de editais, do dinheiro público, e eu acho que isso é um problemão. Não tô dizendo que não tem que ter dinheiro público, pelo amor de Deus, mas não pode ser o único jeito, porque aí as coisas vão ficando muito absurdas. 

P: No sentido das exigências que o artista precisa atender para ao menos concorrer?
LA: Quer ver? Agora, nesses últimos editais, todos têm contrapartidas. Como se patrocinar uma peça, um disco, não valesse. Tu tem que dar contrapartidas, mas contrapartidas são tudo, menos artísticas. Eu acho, modestamente, que o que tinha que estar em voga era patrocinar a coisa em si. A peça, o disco, o show. E as pessoas cada vez pedem mais coisas como contrapartida, como se a cultura em si não valesse o edital. Mas eu não quero que isso pareça um chororô inútil. Eu não suporto chororô, entendeu? Eu não gosto de me vitimizar, eu quero que as coisas funcionem. Por exemplo: pra chegar a uma produção minha eu sei o que isso me custa. Eu deixo de fazer um monte de coisas que eu poderia fazer durante o ano pra ter dinheiro pra fazer a minha produção, faço minha produção por causa disso. Eu trabalhei 37 anos como funcionário federal, e na verdade foi muito bom aquilo, porque eu tinha horário. De um lado queria ser notívago, boêmio, e no outro eu tinha horário pra entrar e pra sair, tinha disciplina. E eu gostei muito dessa minha vida dupla. De dia eu era do direito, do tribunal, e de noite eu era do teatro, da arte. Me deu muito pé no chão. E hoje eu faço meu teatro graças a uma aposentadoria de quem se sacrificou durante 37 anos. Eu nunca quis aquilo de alma. Uma coisa que eu não queria era um cargo de chefia, que tem gratificações boas, mas eu disse, eu não estou me dando pra isso aqui, eu preciso disso aqui pra sobreviver. Sempre fui um cara que precisou trabalhar pra viver. Não sou de família rica, pelo contrário. E aí tu vai vendo assim, quanta coisa eu tive que deixar pra fazer o teatro que eu quis, pra ter dinheiro, pra não depender de que alguém me diga não. Não sei se eu quero me submeter a alguém a quem eu não dou tanto valor assim pra que eles analisem o meu trabalho e me digam não. Me sinto um artista de Porto Alegre. É uma cidade dura, difícil, é uma cidade que te sorri, mas que também te enfia uma faca – às vezes ao mesmo tempo. 

P: E mesmo com todas as dificuldades, tu nunca deixou de fazer.
LA: Eu acho que só o que a gente pode fazer pra mudar é fazer. Não é só reclamando, como alguns. Ou só esperando dinheiro público, que isso não é a saída. Tem que ter, eu não estou querendo que o Estado não cumpra com as suas obrigações, mas também não quero ficar à mercê. Amarrado. É uma coisa de liberdade mesmo. Eu me sinto livre em relação à minha carreira, a administrar a minha vida. Eu sei bastante o que me custou isso, mas eu não me queixo, por causa das minhas escolhas eu chego hoje falando com vocês e dizendo que fiz o teatro que eu quis. Para o bem, para o mal, errando, acertando, eu fiz o teatro que eu quis. E o teatro, na verdade, a arte, me abriu tudo que é porta. Eu sou muito grato a isso, a essas portas abertas. Tem a música nova da Marisa Monte, Portas, eu me sinto assim. Abrindo as portas. A vida, a cultura me abriu as portas. Eu sou amigo da Maria Bethânia. Quando é que eu poderia imaginar que eu seria amigo da Maria Bethânia? Ou do Caio Fernando Abreu, da Adriana Calcanhoto, tanta gente…. Hoje eu estava ouvindo o CD novo do Chico e da Mônica Salmaso, e ela é uma artista extraordinária, porque ela não cedeu a nada do mercado. Ela chegou onde chegou cantando o que ela quis, o que ela acreditou que era bacana. É disso que eu às vezes me ressinto: o artista não é só o querer ser artista, é preciso ter força de guerrilha. 

P: Que cenário tu encontra hoje nessa guerrilha?
LA: Da direita nunca esperei nada. Talvez pela minha experiência primeva no Farroupilha eu nunca esperei nada da direita, nada. Agora, que a esquerda está paralisada em valores de 50, 60 anos atrás, está. Não é como se eu quisesse fazer o Teatro de Arena de 1980. Tem 70, 50 anos que se passaram, a vida muda, eu quero mudanças. Às vezes eu acho que as pessoas têm um discurso antigo. Falta humanidade. Tem muita ideologia e pouco humanismo. Eu gosto de gente humanista, de ativistas não da ideologia, mas da vida. Eu acho que é a esquerda que tem que fazer isso, mas estão tão emburrecidos como a direita. Eu acho isso, a tristeza é que eu acho isso. É uma decepção que, meu Deus do céu, aonde a liberdade que eu sempre quis? E aí começo a me dar conta: eu sempre quis um humanismo. Estar a serviço das nobres causas ou das pequenas causas, mas que fosse pra ampliar a tua vida, a tua possibilidade de felicidade, não pra reproduzir esquemas que a gente renega do outro lado. Então é confuso o mundo hoje pra mim e eu estar atento é ser honesto comigo mesmo. Nunca votaria ou votarei num Bolsonaro da vida, nunca, mas eu quero gente de esquerda arejada e às vezes eu acho que não tem. Parece que tu dizer isso já é de direita, mas não, e eu não tenho mais medo.

P: Como tu te definiria, a essa altura da vida?
LA: Eu sou um tropicalista. Eu cresci e o que mais mexeu com a minha cabeça foi o tropicalismo, aquelas letras que eu demorava a entender. O tropicalismo me ensinou a deglutir as coisas, a não ter medo das coisas, a querer essa liberdade de opinião, a querer estar do lado do que é correto, do que é justo, do que é experimental. A gente não pode ter medo de continuar acreditando nesses valores lá de trás, quando a gente queria mudar o mundo mesmo. Um pouco hippie da minha parte, mas eu vivi aquilo não como um clichê desgastado, pé sujo, chinelo de couro, não. Pra mim não era isso. O movimento hippie, a literatura beat, essas coisas, todas elas, vieram da vontade da liberdade, de entender o outro na diferença, de deixar qualquer um – desde que não saia chutando lata pela rua – ser quem quer. Eu acho que é possível a gente deixar isso, mas eu não vejo isso. Tem uma máquina de destruição de reputações, uma arrogância nisso, nesse juízo, sabe? 

Luciano Alabarse. Foto: Theo Tajes

P: Tu fala do tempo em que foi Secretário de Cultura do ex-prefeito Nelson Marchezan?
LA: Eu não tenho mais medo disso. Eu fiquei paralisado quando vi que Porto Alegre estava igual. Eu trabalhei muito, eu apanhei muito sempre, mas, por exemplo, esse é um episódio legal: eu trabalhei com o PT, com o PDT, com o Marchezan e quem era o interlocutor dele, que vinha falando comigo, era o Fernando Schuller – hoje amaldiçoado, maldito. O Marchezan queria acabar com a Secretaria de Cultura, e aí pediu pra falar comigo sobre isso, e fomos eu, a Sandra Dani, o Luiz Paulo Vasconcellos, mas ele queria era me conhecer, falar comigo. E ele gostou de mim. E a partir dessa conversa ele começou a pensar em não fechar a Secretaria de Cultura. O Fernando dizia: “Luciano, ou tu assume isso, ou isso acaba”. E isso não é ficção, isso aconteceu. Eu quase fui lá como cordeiro de Deus me sacrificando. Foi muito difícil, como é muito difícil falar mal dele agora. Eu briguei com ele muitas vezes. A visão de cultura era limitada, mas eu tinha que estar lá. Por exemplo: não tinha dois meses de governo e teve a história lá no Santander, daquela exposição (Queermuseu, cancelada por pressão de forças reacionárias da sociedade). Quem falou com a imprensa fui eu. Defendi totalmente a liberdade de expressão, que era um absurdo cancelar uma exposição. Mas assim, não tive meias palavras. O Marchezan me chamou lá, pô, precisava dizer isso do jeito que tu disse, Luciano? E foram assim os quatro anos de embate, de desgate. Ao mesmo tempo em que ele não é uma má pessoa quando está fora da área de prefeitura, de política – e eu acho que ele não quer mais -, eu sofri muito trabalhando na Prefeitura. Ninguém imagina.

P: Era uma crítica geral na época, todo mundo estranhando que tu estivesse no governo. 
LA: Eu não tinha, nunca tive, não tenho vontade de ter poder. Esse poderzinho de político. Não sou político. Vivi coisas como aquela peça do Jesus travesti (O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, com Renata Carvalho). O Ramiro Rosário (Vereador do Partido Novo) só faltava pegar o meu pescoço e eu dizia, eu não proíbo essa peça. Não proíbo. Vou deixar e vou chamar todo mundo pra ver, e ele furioso. O Marchezan, que já gostava um pouco de mim, ficava me olhando… Foram quatro anos, e quando terminou esse período eu disse chega, já cumpri, ideologicamente, a missão de não fechar a Secretaria. Agora, ele não me deu dinheiro pra nada, eu vivi uma época bíblica, de vacas magras, mas mesmo assim a gente tentava. Não tenho essa arrogância de não falar com as pessoas. Tem gente, como o Chico Marshall, que eu adoro, que dizia,  Luciano, tu tem que estar aí, tu não pode sair daí. Era um lugar estratégico. Agora, se certo tipo de pessoas de esquerda vai entender isso ou não, lamento, eu não vou parar. É muito fácil isso hoje, como é que chama? Cancelar uma pessoa. Conforme a pessoa, me cancele, é um favor que tu me faz! Numa cidade como Porto Alegre, onde eu sempre vivi e trabalhei, pessoas me olhavam naquela época como se eu estivesse traindo a causa. Não. Eu fui exatamente quem eu sempre fui, um tropicalista, um libertário lutando para que coisas bonitas acontecessem. A peça do Jesus travesti foi proibida em várias capitais do Brasil por pressão religiosa e não sei mais o quê. Aqui, nós fizemos as três apresentações. 

P: E sobre a renovação do edital do auditório Araújo Viana?
LA: É outra história boa. Quando chegou a época da renovação, a contrapartida que os burocratas da Comissão de Transparência queriam era um estacionamento embaixo do Araújo. Eu cheguei lá como secretário e disse não. A contrapartida que eu propus foi a reforma do Teatro de Câmara, que estava fechado. Por incrível que pareça, já me conheciam e, como não tinham relação ruim comigo, eles concordaram. Por causa do meu argumento o Câmara está aí, agora nessa pendenga, mas pelo menos foi colocado como contrapartida. Eu acho que é por isso que a gente faz, e eu vivi essa experiência toda pra tentar salvar o que é possível. O Caio tem uma frase que eu adoro, cuidar do que resta é sempre o que cabe fazer. É uma frase que eu pego pra mim, é o que a gente tem que fazer. Não dá de um jeito, como é que dá? Eu tive muita gente bonita ao meu lado nesse tempo todo me dando força, compreendendo, algumas pessoas de esquerda me dando a maior força. A gente conseguiu que o Marchezan assinasse – porque ele não assinava nada – uma casa pra Zorávia (Bettiol), para o Instituto delaa. Ele era uma pessoa muito difícil. Ele era desnecessáriamente agressivo, eu acho. Mas passou, graças a Deus! Agora estou felicíssimo. Voltei à arte, mas não me arrependo de ter vivido isso tudo, de ter feito tudo que eu fiz, porque é sempre pra tentar melhorar o astral de Porto Alegre.

P: E voltando ao Luciano lá do início. Qual foi tua primeira montagem?

LA: Faz 50 anos este ano, foi O Canto do Cisne, do Tchekhov. Eu já era estiloso com 18 anos, porque era um trabalho do DAD, de aula, que cada aluno tinha que dirigir. Eu escolhi O Canto do Cisne, que é um texto lindíssimo de um velho num teatro vazio, semiabandonado, e os fantasmas dele passando pela memória, se materizalizando ali. Há uma ideia, o (ator) Marcelo Adams quer que a gente remonte com ele fazendo o velho ator. Vamos ver, porque eu já estou com outras coisas. Eu e o (músico e escritor) Arthur de Faria ganhamos um edital da Funarte pra fazer um musical, coisa que não é comum, baseado na vida da Lourdes Rodrigues e da Zilah Machado. Com músicas do Lupicínio Rodrigues, mas baseado nas duas. O nome é Ela disse-me assim. Eu estava muito apaixonado por uma gravação daquele português, o Salvador Sobral, cantando Lupicínio. Acho que ninguém cantou Lupicínio como ele.  Agora ele vem em abril, já comprei o meu ingresso. Ele e o Vitor Ramil vão cantar juntos, é imperdível. Tem que ir ver o Salvador cantando. Ele é um homem alto, grande e todo desengonçado, mas tem um charme naquilo. A irmã dele canta bem também.

P: E passado o susto do teu pai quando o filho foi para o teatro, ele chegou a acompanhar a tua carreira?
LA: Meu pai foi um homem muito duro. Ele não falava nada, mas chegou a acompanhar uma primeira fase de carreira, chegou a ir ao DAD me assistir… A gente sempre teve em casa um cofre verde escuro, grande, que ele não deixava ninguém abrir, tinha várias coisas naquele cofre. Quando ele morreu e eu a minha mãe abrimos o cofre, encontramos uma caixa com poesias. Ele escreveu poesia a vida toda e nunca deixou ninguém ler. Nunca. E ele tinha recortes de jornal sobre os meus trabalhos, todos os meus trabalhos. Mas na vida, pra mim, era um homem duríssimo. Ele disse, eu não te dou mais um centavo pela tua escolha, e eu, mas pai, mas eu faço letras depois. Só que depois a vida mudou tanto que eu não fiz.

P: O bom de falar contigo é que a gente sai com a certeza de que existe esperança para a arte.
LA: A vida não para. E é isso, ir cavando com um facão e abrindo. Não só as ruas de Porto Alegre têm que ser limpas, eu acho que o circuito social também tem que estar mais acessível à classe local. Essa é a minha batalha nesse momento como diretor local. Que não seja tudo tão duro, tão difícil. Por exemplo, agora os teatros querem dar um dia pra uma montagem de teatro. É um absurdo. Ninguém monta em um dia, e eles sabem, mas aí tem o pragmatismo deles de não pagarem diária pros técnicos e etc. Eu digo, vocês não podem fazer isso, é por isso que ninguém mais quer fazer cenário em Porto Alegre. Agora, na minha última peça, tinha horário fechado pra montar, mas por quê? Porque todos saem no horário comercial. Eu falei, me deem a chave na mão, eu tive essa chave por mais de 10 anos na minha mão, me deem de novo. E aí me deram. É difícil. É tudo difícil. Mas tem que continuar fazendo. Escrevendo, fazendo teatro, fazendo música. 

P: É uma sorte para Porto Alegre ter alguém que não desiste.
LA: Sabe, tem aquela cena maravilhosa, que eu adoro, em E La Nave Va, do Fellini, tem o mar prateado falso, um barco, o barqueiro, um hipopótamo no barco e o cara remando. Às vezes o artista é bem isso: é aquele barqueiro tentando levar o hipopótamo adiante num mar prateado. É uma coisa muito impressionante. Por mais que seja difícil fazer, a gente continua. E assim vamos levando o hipopótamo no barco.


Claudia Tajes é escritora e roteirista. Theo Tajes é fotógrafo e roteirista.

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