Ensaio

A astúcia brasileira (Parte 1)

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A astúcia brasileira (Parte 1) A condição imprecisa do Brasil como o lado avesso, ora ocultado, ora revelado, do processo de Ocidentalização do mundo, como a periferia do capitalismo e proletariado externo dos países desenvolvidos, foi e é tema de uma ampla literatura crítica durante todo o século XX, seja em tradições de pensamento mais sedimentadas, seja em experimentos de ideias mais heterodoxos. E ainda mais, se somos a periferia do capitalismo, há na nossa sociedade uma periferia da periferia e um proletariado do proletariado, que ocupa uma posição imprecisa no nosso imaginário cultural e na nossa vida social.  Publicidade É justamente em relação à condição imprecisa deste proletariado do proletariado que vão se situar alguns dos temas centrais da sociedade brasileira, nos permitindo pensar na contribuição que a vida social e a cultura brasileira podem dar para uma qualificação das formas de convivência no mundo, para que todos possamos ter uma vida melhor e maior. Um deles se destaca pelo seguinte insight: mesmo com toda a resistência ancorada em ideologias de classe, no uso dos aparatos repressivos do Estado e na violenta privação econômica, segmentos das classes subalternas se afirmaram de diferentes maneiras na cultura e na construção das formas de sociabilidade, como se houvesse uma espécie de inteligência sutil que teria permitido a constituição de alguma forma de protagonismo popular a despeito e à revelia da modernização conservadora. Chamaremos esta inteligência sutil – e suas formas sub-reptícias de expressão e realização – de astúcia brasileira.  Nomeamos como astúcia brasileira uma lógica social e cultural que inverteria a intencionalidade da segregação socioeconômica, como uma inteligência popular atuando nos interstícios da nossa rígida e violenta ordem social, com uma vivência política e social realmente democrática que se expressaria através do protagonismo popular nas formas simbólicas de realização da vida coletiva, como a música popular, o carnaval, o futebol, a mestiçagem, a doçura e a pulsão afiada do homem cordial, e que atuariam como um mediador de conflitos, ameno e potente ao mesmo tempo. Ameno por poder – voluntária ou involuntariamente – atuar como um modo de ocultar as formas de dominação política real, e potente por apontar um caminho real de superação dessas mesmas formas de dominação. Esta astúcia brasileira teria nos permitido saltar do constrangimento estrutural que relega tanto a plebe proletarizada quanto a não-proletarizada à condição de subalternidade e apêndice, permitindo assim uma forma de convivência peculiar que constituiria o nosso pacto social, sendo a cultura o fundo e o fundamento do nosso laço social, embora tendo a política como latência, ou melhor, tendo a potência da ação política como uma possibilidade real. Através dessa astúcia, teríamos uma interação societária que se daria ora como uma forma conservadora de equilibrar os antagonismos, ora como uma possibilidade criativa e inventiva de explicitação desses mesmos antagonismos e contradições, plasmando – através de criações culturais e de formas de sociabilidade originárias – vigorosas soluções civilizatórias de convivência com algum eco no mundo, ainda que mais no âmbito do imaginário. Poderíamos dividir as formas de pensamento sobre […]

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A condição imprecisa do Brasil como o lado avesso, ora ocultado, ora revelado, do processo de Ocidentalização do mundo, como a periferia do capitalismo e proletariado externo dos países desenvolvidos, foi e é tema de uma ampla literatura crítica durante todo o século XX, seja em tradições de pensamento mais sedimentadas, seja em experimentos de ideias mais heterodoxos. E ainda mais, se somos a periferia do capitalismo, há na nossa sociedade uma periferia da periferia e um proletariado do proletariado, que ocupa uma posição imprecisa no nosso imaginário cultural e na nossa vida social.  Publicidade É justamente em relação à condição imprecisa deste proletariado do proletariado que vão se situar alguns dos temas centrais da sociedade brasileira, nos permitindo pensar na contribuição que a vida social e a cultura brasileira podem dar para uma qualificação das formas de convivência no mundo, para que todos possamos ter uma vida melhor e maior. Um deles se destaca pelo seguinte insight: mesmo com toda a resistência ancorada em ideologias de classe, no uso dos aparatos repressivos do Estado e na violenta privação econômica, segmentos das classes subalternas se afirmaram de diferentes maneiras na cultura e na construção das formas de sociabilidade, como se houvesse uma espécie de inteligência sutil que teria permitido a constituição de alguma forma de protagonismo popular a despeito e à revelia da modernização conservadora. Chamaremos esta inteligência sutil – e suas formas sub-reptícias de expressão e realização – de astúcia brasileira.  Nomeamos como astúcia brasileira uma lógica social e cultural que inverteria a intencionalidade da segregação socioeconômica, como uma inteligência popular atuando nos interstícios da nossa rígida e violenta ordem social, com uma vivência política e social realmente democrática que se expressaria através do protagonismo popular nas formas simbólicas de realização da vida coletiva, como a música popular, o carnaval, o futebol, a mestiçagem, a doçura e a pulsão afiada do homem cordial, e que atuariam como um mediador de conflitos, ameno e potente ao mesmo tempo. Ameno por poder – voluntária ou involuntariamente – atuar como um modo de ocultar as formas de dominação política real, e potente por apontar um caminho real de superação dessas mesmas formas de dominação. Esta astúcia brasileira teria nos permitido saltar do constrangimento estrutural que relega tanto a plebe proletarizada quanto a não-proletarizada à condição de subalternidade e apêndice, permitindo assim uma forma de convivência peculiar que constituiria o nosso pacto social, sendo a cultura o fundo e o fundamento do nosso laço social, embora tendo a política como latência, ou melhor, tendo a potência da ação política como uma possibilidade real. Através dessa astúcia, teríamos uma interação societária que se daria ora como uma forma conservadora de equilibrar os antagonismos, ora como uma possibilidade criativa e inventiva de explicitação desses mesmos antagonismos e contradições, plasmando – através de criações culturais e de formas de sociabilidade originárias – vigorosas soluções civilizatórias de convivência com algum eco no mundo, ainda que mais no âmbito do imaginário. Poderíamos dividir as formas de pensamento sobre […]

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