Ensaio

A língua de Saramago (Parte 3)

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A língua de Saramago (Parte 3)
Saramago remou contra a maré. Aliás, ele fez isso em seus próprios livros. O Ano de Ricardo Reis, o romance favorito do autor, começa desdizendo Camões. Camões celebrizou “Aqui onde a terra acaba e o mar começa”; Saramago inicia a jornada do heterônimo de Pessoa com “Aqui o mar acaba e a terra principia”. Não é mera troca de palavras; é ressignificação de um país e de um tempo. Mas voltemos: enquanto os escritores falam muito de inspiração, ócio criativo, musa, Saramago encarava a escrita como um ofício: quatro horas diárias ou duas páginas – simples assim. Afirmava que escrever não lhe dava prazer e que não escrevia por necessidade. Escrevia porque tinha coisas a dizer, ideias a empurrá-lo, e enquanto as tivesse as colocaria no papel, sem drama, mas com pesquisa (muita), disciplina (muita) e trabalho (muito). Dizia-se um escritor desprogramado, cada página vinha depois de outra, em construção contínua; só o título e a epígrafe vinham antes, como um norteamento do caminho.  Publicidade Via sua função de cidadão tão ou mais importante que a de escritor. Para ele, escritor que só contempla seu próprio jardim peca; o escritor tem de assumir o compromisso de intervir em prol de uma sociedade democrática. Não por acaso era amigo de Chico Buarque. Valorizando a figura do autor, minimizava, por outro lado, o papel do narrador, indo contra a academia, talvez pelo simples prazer da polêmica. Insistia que o narrador não existe, o que existe é o autor: “o leitor não lê o romance; lê o romancista”. E ele queria exatamente isso: que, ao final da leitura de seus romances, o leitor percebesse que ali existia um escritor, uma pessoa que nasceu em 1922, o escritor da aldeia, a voz contra o silêncio, o escritor que “com parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia, torna constantemente compreensível uma realidade fugidia”, como disse a Academia Sueca ao lhe conferir o Nobel. Sobre literatura, Saramago não acreditava na máxima que livros mudam o mundo; Saramago dava nome certo aos bois certos: é preciso fazer uma insurreição ética; precisamos uivar; não nos resignemos, indignemo-nos.  Sua ficção valoriza a oralidade e dá ao narrador o potencial de comentar, em digressões sucessivas e ilimitadas, tanto a história contada, quanto a ação dos personagens e o próprio curso da narração (metaficção), fazendo um chamamento ao leitor e construindo, por fim, um romance que é mais que gênero, é lugar literário, “capaz de receber como um grande, convulso e sonoro mar, os afluentes torrenciais da poesia, do drama, do ensaio e também da ciência e da filosofia”. O autor não escrevia romances para contar uma história. “Trata-se de escrever um romance para tentar dizer tudo”. O turbilhão, o turbilhão interno e externo que ele sempre fez questão de enfrentar; do labirinto à escrita. E vice-versa.  Sim, o escritor José Saramago gostava de falar e gostava de escrever. Ideias e palavras, muitas e sempre. Peregrinando pelo mundo, até doente (ver José e Pilar, o belo filme de Miguel Gonçalves Mendes), […]

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