Memórias emocionadas

A bordo do DC-8 da Panair

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A bordo do DC-8 da Panair
INTRO

Na correspondência de minha mãe, achei essa carta em que ela descreve o que era voar na Panair. Uma experiência tão intensa que era capaz de modificar até o temperamento (já terrível na época) de meu pai: “Seu pai está calmo como vocês nunca o viram! Parece outro homem! Também, pudera, dentro de um avião da querida Panair!” 

A carta não tem data, mas se nós, seus sete filhos, já tínhamos nascido (minha irmã caçula é de 1960), e se “a querida Panair” encerrou suas atividades no Brasil em fevereiro de 1965, essa viagem e essa carta aconteceram entre 1961 e 1964. Que tempo vivia o Brasil.

Saudades dos aviões da Panair, cantaria Milton Nascimento anos depois, em 1975.

Levei um susto imenso nas asas da Panair

Descobri que as coisas mudam

E que tudo é pequeno nas asas da Panair

Acho que minha mãe também descobriu isso: o mundo era pequeno nas asas da Panair. 


Trecho da carta reproduzida abaixo


Meus queridos filhos


Vocês devem estar curiosos e interessados em receber nossas primeiras impressões sobre a viagem no DC-8 da Panair. Para satisfazer essa curiosidade apresso-me em escrever-lhes, às 5 da manhã, a bordo do possante “rei dos céus”. O avião é todo azul e branco: poltronas azuis e paredes e tetos brancos. De tão grande que é tem-se a impressão de estar num lugar absolutamente seguro. A estabilidade é perfeita. O avião está dividido em duas partes: na frente, depois da cabine de comando, está o compartimento de luxo, com 45 lugares, sala de estar, bar, etc. Em seguida, o compartimento em que estamos, com 75 passageiros, sendo as cadeiras dispostas 3 a 3. As cadeiras são confortáveis, mas não reclinam o suficiente para se arranjar uma posição cômoda para dormir. Na cauda do avião há 3 banheiros, com pia e vaso.

Logo que entramos procuramos assentos, mas não tivemos muita sorte porque ficamos nos últimos lugares, na cauda do avião. Lentamente colocamos os cintos e decolamos. Logo em seguida foram dados avisos em português, francês e alemão de que o avião iria voar 11.000 metros de altitude e que a viagem até Lisboa levaria 9 horas. À medida que o avião subia podíamos ver o Rio iluminado. Espetáculo grandioso. As aeromoças serviram chiclets e sanduíches que, se não eram gostosos, pelo menos eram lindos. Eu me limitei a um copo de leite com biscoitos. Às 2.30 avistei Vitória e logo depois Salvador, toda iluminada. Às 3.30 sobrevoamos Recife e depois o Oceano Atlântico. Às 4 o dia começou a nascer. A claridade foi aos poucos dominando as trevas e às 5 o sol iluminava tudo. Acima de nós um céu azul claro. Abaixo nuvens que pareciam algodão desfiado e que batidas pelo sol brilhavam como se fossem prata. Um espetáculo realmente maravilhoso e que eu desejaria que vocês vissem

Não consegui dormir um só minuto. Seu pai cochilou um pouco. Ele está encantado com o voo e se sente orgulhoso de voar nesse gigante da Panair!

Vocês ficaram no Aeroporto até o avião levantar voo? De onde estávamos, víamos os vultos, mas não distinguíamos as pessoas. Saí cheia de saudades de vocês e pensando na alegria da volta. Comportem-se bem e obedeçam a Zélia. Escrevam.

Interrompi esta carta às 6 e volto a escrever às 9.30, após o aviso do Comandante pelo microfone de que dentro de 1 hora estaremos em Lisboa (A letra está ruim devido à turbulência!). 

Às 7 foi servido o “breakfast” (pequeno almoço): café com leite, bolo, pão com manteiga, omelete, guaraná, sanduíches, queijo e uvas (seu pai comeu as dele e as minhas!).

Apesar do dia muito claro, não se consegue ver terra, pois estamos voando muito alto. Apenas vimos, perto da costa da África, ilhas desabitadas.

O avião é tão comprido que na cauda há um telefone para as aeromoças se comunicarem com o Comandante na cabine.

Não estou cansada, apenas com vontade de pisar terra firme. Estamos acompanhando, hora por fora, a vida de vocês. Espero que Heloisinha e Helena estejam boas.

O pai da Lídia melhorou? Não se esqueçam de telefonar diariamente pedindo notícias dele.

De Lisboa escreverei e mandarei cartões postais.

Seu pai está calmo como vocês nunca o viram! Parece outro homem! Também, pudera, dentro de um avião da querida Panair!

Lembranças à Babá, Aparecida, Inês, Neide e Zizita.

Um abraço para Zélia e Aluísio, mãe e pai de vocês na nossa ausência.

Para os meus queridos 7 filhinhos, muitos abraços e beijos, juntamente com a benção do papai e da mamãe


Nilza Rezende é escritora e professora. Tem mestrado em Literatura pela PUC-Rio e faz doutorado, também em Literatura, na Universidade de Évora, em Portugal. @nilzarezendeescritora

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